A emergência do ajuntador

Gerir as Caves Quinta do Pocinho como se tratasse de uma adega cooperativa, com mais de 500 pequenos produtores, uma carteira de mais de 1700 contactos, sendo responsável por três por cento da produção anual de Vinho do Porto é o trabalho diário de José Carlos Dias. A reportagem da NÉCTAR passou um dia na sua agradável companhia e nestas páginas deixamos ficar um pequeno retrato de uma figura muito humana. Acredite o leitor que uma visita às Caves Quinta do Pocinho é mais do que justificável. Pelo vinho superior que produz mas, também, para dois dedos de conversa com alguém que sabe, a fundo, das coisas do vinho.

Reportagem: Luis Branco Barros

O produtor de vinho José Carlos Dias é uma das mais simpáticas personalidades do Douro Superior. O valor humano, que deixa transparecer no trato fino e próximo, revela-nos um homem que subiu a pulso na vida para fazer, desde há uns anos a esta parte, o que mais gosta, da forma que mais gosta.
O seu percurso profissional principia aos 18 anos, quando inicia um estágio na Escola Agrícola do Dão e, daí, após passagem pela Casa do Douro, percorre várias empresas exportadoras de vinho, admitindo que ainda hoje sabe “pouquinho” da produção.
Ajuntador, termo praticado na região, é o que melhor define José Carlos Dias. Trabalha com mais de 500 pequenos produtores de vinho, dos quais recolhe as uvas para as tratar e entregar o vinho a uma das maiores casas de Vinho do Porto do país. O seu maior fornecedor, confessa, é o seu próprio pai, que lhe entrega o equivalente a 100 pipas por ano. A gestão desta carteira de contactos é, assegura, colossal. Quando o seu telemóvel avariou ficou sem mais de 1700 números de telefone. “Há alturas em que só atender o telefone já é exaustivo”, revela o produtor.
Como repete frequentemente na entrevista que concedeu à revista Nectar, ainda não herdou nada e se a empresa Caves Quinta do Pocinho está entre as maiores produtoras de vinho do Douro Superior, isso deve-se ao esforço do seu proprietário. Após o aval inicial dos pais num pequeno empréstimo bancário, José Carlos Dias nunca mais precisou de ajudas externas para fazer avançar com a sua empresa.
Em vez de optar pela candidatura a fundos comunitários, prefere investir à medida que dispõe de capacidade financeira. Resultado: em vez de executar um projecto de valor superior a 1,2 milhões de euros, investiu cerca de 300 mil euros em equipamento usado proveniente das melhores casas produtoras. É assim que as cubas em inox, que durante uma década produziu o famoso Barca Velha, lhe vieram parar às mãos. Quando comprou este centro de vinificação, diz, não existia na propriedade “uma única vasilha em aço inoxidável”. Actualmente, o seu património ultrapassa os 1,3 milhões de litros de capacidade em aço inoxidável, “tudo usado, adquirido à medida que ia podendo”.
Apesar da dedicação que lhe merece as Caves Quinta do Pocinho, ainda mantém algumas consultorias em empresas do ramo.

Margens de comercialização pequenas garantem confiança
As instalações das Caves Quinta do Pocinho, estrategicamente localizadas junto à Estação dos Caminhos-de-Ferro, já trabalham como centro de vinificação “há mais de 100 anos”. José Carlos Dias afirma saber que a propriedade, “em 1908, era do senhor Robertson, que a vendeu à Sandeman na década de 60”. Esta empresa familiar, que já vai na quinta geração, “vinificou aqui até 1993” altura em que encerram a unidade. O relacionamento profissional entre José Carlos Dias e o então director-técnico da Sandeman permitiu-lhe tomar conhecimento das intenções da empresa em se desfazer do centro de vinificação. A primeira reunião relativa à intenção de compra ocorre em 1996 iniciando-se, em simultâneo, uma relação comercial que ainda se mantém. A Quinta do Pocinho “vende o grosso do vinho do Porto” à Sandeman, apesar de não ter sido rubricado qualquer acordo nesse sentido entre as duas empresas.
E nem mesmo a venda, pela Seagram’s, da Sandeman ao grupo Sogrape trouxe qualquer alteração nesta relação comercial, antes pelo contrário. José Carlos Dias revela ter aumentado o volume de produção de vinho, cujos excedentes, “por acordo e em sintonia” com a Sogrape, que considera “a mãe” da sua pequena estrutura, são vendidos à Taylor’s e a outras marcas. Cerca de três por cento da produção anual de vinho do Porto é da sua responsabilidade. O destino: Sogrape. São cerca de 3500 pipas por ano. O ajuntador destaca a confiança como a principal característica da sua produção, aliada a baixas margens de lucro. “Limitamo-nos a ganhar muito pouco”, afirma José Carlos Dias.

Investimento impede salto para o patamar da excelência
Relativamente à sua marca, os vinhos Perdigota, afirma ser uma forma de garantir o emprego da sua equipa ao longo de todo o ano. Das Caves Quinta do Pocinho saem, todos os meses, cerca de 50 mil litros de vinho Perdigota, para uma produção anual aproximadamente de 1000 pipas, maioritariamente de tinto. Por se estar numa região muito quente, José Carlos Dias prefere fazer pouco vinho de mesa branco.
Confortado pelos grandes volumes produzidos e pela qualidade dos seus clientes, este produtor trabalha, igualmente, com margens “muito pequenas”. Num universo de pequenos ajuntadores da região, a Quinta do Pocinho é, inclusive, uma das maiores empresas em termos de quota de mercado de vinho do Porto.
A maior parte das vendas do vinho de mesa é efectuada em bag-in-box de 5 e 10 litros, embora também comercialize o Perdigota em garrafa e em bag-in-box de 3 litros, nomeadamente o Douro DOC.
Este vinho, que já foi premiado, nomeadamente no concurso de Torre do Moncorvo em Setembro de 2008, revela a qualidade intrínseca do produto, embora José Carlos Dias reconheça ainda não estar a trabalhar “no patamar da excelência”. Os custos para subir de nível são, na sua opinião, muito elevados. “Mais pessoal, mais tecnologia” que são incompatíveis com a estrutura actual da Quinta do Pocinho. Por outro lado, “o mercado está tão difícil” que essa ascensão ao patamar da excelência poderia não ter reflexo no volume de negócios. Mantém-se, assim, a “produzir o vinho do Porto para as casas exportadoras que o necessitam”, por não querer dar um passo maior do que a própria perna.
Admite acreditar pouco “nos vinhos engarrafados” do Douro, muito pelo excesso de marcas que continuam a nascer. Prefere investir “mais em equipamentos, em capacidade e em tecnologia para venda a granel às empresas que já têm posicionamento garantido no mercado”. A Sogrape está presente em quase todos os países mundiais e a Taylor’s, quando por lá passou há 22 anos, já vendia para 74 países.
“E eu tenho consciência que não tenho dimensão” no actual clima de globalização. E dá como exemplo a “água doce com gás e caramelo” que é possível encontrar em todo o mundo por intermédio de duas marcas. Mesmo descontando algumas marcas secundárias locais, não ultrapassarão as duas dezenas. “O Douro tem 3000 marcas” de vinho, afirma. “Amanhã poderemos crescer, mas só se nos for solicitado”, acrescenta o produtor, negando-se a entrar nesse universo multimarca que exige muito investimento.
Para o Perdigota, o produtor gostava de encontrar “um distribuidor sério” que quisesse fazer o trabalho que José Carlos Dias reconhece não ser capaz de fazer: comercializar e distribuir. Um “bom distribuidor”, sólido e capaz de lhe assegurar os melhores canais e que lhe eliminasse algumas das contas por pagar que tem. “Se recebesse tudo o que me devem, dava para passar um ano no Brasil num hotel de cinco estrelas”.
Mas, conforme repete constantemente, a ambição é “trabalhar para as casas exportadoras e o resto é tudo acessório”.

Ajuntador, termo praticado na região, é o que melhor define José Carlos Dias. Trabalha com mais de 500 pequenos produtores de vinho, dos quais recolhe as uvas para as tratar e entregar o vinho a uma das maiores casas de Vinho do Porto do país. O seu maior fornecedor, confessa, é o seu próprio pai, que lhe entrega o equivalente a 100 pipas por ano. A gestão desta carteira de contactos é, assegura, colossal.