Sogrape
Finca Flichman: Vinhos da Argentina para o mundo

Em vésperas de cumprir o primeiro centenário da insígnia argentina, a Sogrape apresentou as suas mais recentes novidades através de uma prova vertical focada na casta Malbec, a grande responsável pelo crescimento a nível mundial da procura de vinhos daquela origem. Preciosidades que, pelo menos por enquanto, não estão disponíveis em Portugal.

Reportagem: Luís Branco Barros

Argentina. Um imenso país, cuja Ruta 40 é a estrada mais comprida e espectacular de todo o território. Através de mais de 5000 quilómetros pela Cordilheira dos Andes, vai de Cabo Virgenes (Santa Cruz) a La Quiaca (Jujuy). A quase cinco mil metros de altitude do nível do mar, a Ruta 40 atravessa 236 pontes, cruza 18 rios importantes, circunda 13 grandes lagos e liga 20 reservas e parques naturais. Criada em 1935, esta via une de Norte a Sul 11 províncias de três regiões (Patagonia, Cuyo e Norte) da Argentina.
Ricardo Rebelo, director-geral e administrador da Finca Flichman, empresa do grupo Sogrape, cita esta estrada como exemplo da dimensão da Argentina. Fazer esta Ruta 40 é como ir de Lisboa a Moscovo, refere. A própria empresa sofre essa imensidão. A sede, em Buenos Aires, dista mais de 1200 quilómetros da adega de Mendoza, obrigando a deslocações constantes por via aérea.
O grupo Sogrape adquiriu, em 1997, a empresa Finca Flichman, que fora criada em 1910 na Argentina, com base em vinhedos existentes desde 1873. A família Flichman inicia, então, um percurso que iria terminar apenas em 1983, altura em que a empresa é comprada por um grande grupo económico argentino. Sami Flichman desenvolve as vinhas numa zona de depressão formada pela erosão que o rio Mendoza havia provocado no passado, sendo o seu legado continuado pelo filho, que estudara enologia em França e que aplica o conhecimento adquirido na Europa na produção de vinhos de qualidade.
De oportunidade de negócio, a Finca Flichman passou a representar “um desafio”, lembra Ricardo Rebelo. Dificuldades e alguns problemas financeiros – tempos houve em que não podiam movimentar as contas e tiveram de recorrer à casa-mãe – quase fizeram desistir a família Guedes de continuar a aposta naquele território. E foi pelo “desafio” de trabalhar num território que possui o “mínimo de burocracia” e uma total “liberdade de criação” que a Sogrape se deixou ficar. Os bons resultados estão à vista.
Desde 1998, já foram investidos cerca de 18 milhões de dólares em activos e 22 milhões de dólares na marca. Barrancas e Tupungato são as duas localizações das vinhas da Finca Flichman, num total de 950 hectares de terra. A enologia é exercida em Barrancas, em Carrodillo e em Jurin Maipú. A produção actual é de cerca de 20 milhões de litros de vinho por ano, o que representa mais de 1,09 milhões de caixas de 9 litros, contra 517 mil caixas em 2004. Ricardo Rebelo espera terminar 2009 com cerca de 1,2 milhões de caixas. Aliás, os objectivos da Sogrape passavam por atingir, em 2013, os dois milhões de caixas, mas o director-geral da Finca Flichman julga que já em 2010 esse objectivo irá ser ultrapassado em 200 mil caixas.
Esta empresa do universo Sogrape é a 5ª empresa argentina em volume e o 6º maior exportador de vinho, estando presente em cerca de 50 mercados, entre os quais Canadá, Holanda, Estados Unidos, Brasil, Reino Unido, Suíça e Alemanha.
Para o presidente do Conselho de Administração da Sogrape, esta apresentação inseriu-se num conjunto mais alargado de actividades, entre as quais a primeira “convenção internacional de marketing e vendas”, na qual estiveram presentes todos os “representantes das unidades no exterior das áreas de enologia, marketing e vendas”. Salvador Guedes pretende dar a conhecer o que de melhor o grupo produz, não só em Portugal, mas agora também na Argentina, no Chile e na Nova Zelândia. “Em termos de facturação, estas três empresas deverão representar, neste momento, cerca de 25 por cento” do total da Sogrape, acrescenta.
Questionado sobre uma eventual maior popularidade destas três origens em relação aos produtos nacionais, Salvador Guedes afirma ser necessária uma análise “mercado a mercado”, embora reconheça que, na maioria dos mercados, estas origens têm um “peso mais importante que as exportações portuguesas”. Salvador Guedes não descarta a possibilidade de sinergias entre as quatro origens, porque “às vezes, a reboque de determinada marca ou de determinado vinho, podem ir outros”.

Os vinhedos
Mendoza é, segundo o enólogo Luís Cabral de Almeida, uma zona excelente para a produção de vinhos, “onde o homem pode controlar a qualidade da fruta”, graças às características climáticas e ao sistema de rega por inundação e gotejamento. E mesmo as distintas altitudes das propriedades (Barrancas fica a 700 metros e Tupungato a 1100 metros) contribuem para o incremento da complexidade dos vinhos.
A opção por trazerem para Portugal uma casta típica argentina prende-se com o facto de ter sido esta a grande responsável pelo sucesso internacional dos vinhos daquele país da América Latina.
Natural de França, de Chaors, onde esta casta é mais conhecida por Cot ou Auxerroir, a Malbec existe na Argentina, comprovadamente, desde 1865, embora haja quem defenda que as primeiras vinhas foram plantadas já no século XVI.

Os vinhos
A prova vertical preparada pelo enólogo Luís Cabral de Almeida apresentou seis das novidades oriundas do Novo Mundo, todas da mesma casta, ainda sem comercialização em Portugal. Do Finca Flichman Malbec 2008 (com um preço indicativo de 6,99 dólares) ao Paisajes Tupungato 2006 (17,99 dólares).
O primeiro vinho é o “campeão de vendas” da insígnia argentina, produzindo-se cerca de quatro milhões de litros.
Na linha Malbec segue-se o Mistério 2008 (7,99 dólares), do qual se produzem cerca de 900 mil litros.
O Reserva Malbec 2008 é o último dos vinhos apresentados a não sofrer qualquer intervenção em verde, sendo trabalhados apenas a partir da vindima. A excepção é o remover da folhagem excessiva, num esforço de aumentar a respiração da uva e o despertar dos aromas.
O Gestos Malbec 2008 (12,99 dólares) segue os mesmos princípios do Reserva, embora lhe seja acrescentado 50% de uva proveniente de Tupungato, cuja acidez natural permite criar um vinho mais elegante e balanceado. O enólogo acredita que dentro de seis meses estará pronto para ser bebido em óptimas condições.
A intervenção em verde, num trabalho de vitivinificação mais intenso, nota-se no Expresiones Malbec/Cabernet 2007, no qual 40% é Cabernet Sauvignon. Este vinho é trabalhado em barricas usadas para maior respeito da fruta, resultando num néctar mais estruturado e que exige acompanhar uma refeição mais elaborada.
O último dos vinhos apresentados, o Paisajes Tupungato 2006, é uma mistura de Malbec (70%), Cabernet Sauvignon (27%) e Merlot (3%), todas elas produzidas em altitude. Maior frescura, apesar da complexidade revelada pelas diferentes castas, é uma das características deste vinho argentino.
A Finca Flichman apresentou nesta altura do ano estes vinhos atendendo ao tempo necessário para a sua comercialização. Além da viagem de cerca de 30 dias entre a Argentina e a Europa, a empresa do universo Sogrape conta, também, com o tempo de espera que a maioria das garrafas ainda vai ter antes do seu consumo.
Quanto à qualidade dos anos de produção, a interferência climatérica na Argentina é muito menor do que na Europa, diminuindo a variação dos vinhos entre colheitas. Todos os anos são similares, embora Ricardo Rebelo considere que 2007 “foi um ano menos bom”. De qualquer modo, na Argentina apenas o ano de 1998 é considerado “mau” pelas autoridades, em resultado dos efeitos provocados pelo furacão El Niño, sendo que a média é de “um ano mau por cada dez”, acrescenta.

Parcela 26
A surpresa para os presentes neste evento estava guardada para o final da prova vertical. Em cima da mesa estava um copo de vinho ainda em processo de maturação e desenvolvimento. Construído à base de agricultura e enologia de precisão, desengaçado à mão, com 17 meses de barrica e recurso exclusivo a leveduras indígenas, Luís Cabral de Almeida deu a provar uma amostra da sua criatividade de enólogo. Denominado, para já, de Parcela 26, este vinho faz parte do objectivo da Sogrape em produzir mais um dos melhores vinhos da Argentina, sendo que o Dedicato já obteve essa distinção.
Se tudo correr como previsto, este vinho poderá ser lançado no ano que vem, altura em que se celebram várias datas importantes: Centenário da República Portuguesa, Bicentenário da República da Argentina e o Centenário da Finca Flichman.

Outros vinhos do universo Sogrape
A sessão de apresentação dos vinhos argentinos da Sogrape terminou com um repasto preparado pelo chef Hélio Loureiro, para degustação de sete vinhos produzidos pelo grupo: Quinta dos Carvalhais Espumante Rosé (Dão), Framingham Sauvignon Blanc 2008 (Marlborough, Nova Zelândia), Chateaux Los BoldosGran Cru 2006 (Requinoa, Chile), Finca Flichman Dedicato 2006 (Mendoza, Argentina), Herdade do Peso Reserva 2005 (Alentejo), Barca Velha 2000 (Douro) e Ferreira Vinho do Porto Branco 10 anos. o

Parcela 26
Este vinho faz parte do objectivo da Sogrape em produzir mais um dos melhores vinhos da Argentina, sendo que o Dedicato já obteve essa distinção.Se tudo correr como previsto, este vinho
poderá ser lançado no ano que vem, altura em que se celebram várias datas importantes: Centenário da República Portuguesa, Bicentenário da República da Argentina e o Centenário da Finca Flichman.