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A crise de mercado

Depois do descalabro da onda bolsista, da polémica dosbancos, das fábricas a parar a produção, do encerramento das pequenas e medias empresas, do desemprego a aumentar, o choque da crise financeira chegou ao vinho, sobretudo através da diminuição drástica do consumo.

Texto: Bento de Carvalho – Engº Agrónomo

A máquina da especulação sobre o preço de determinadas marcas de vinho foi abalada. Todas as estratégias de marketing do mundo não bastam para criar um bom vinho, ou torná-lo acessível ao bolso do consumidor normal.
Na actualidade, em tempo de crise, o consumidor pouco se importa com a politica de marketing utilizada, em que determinado vinho assenta – a grandiosidade da adega, o nome do prestigiado arquitecto que a desenhou, o nome do enólogo, o elevado número de barricas novas existentes, o reduzido número de garrafas produzidas, etc…, mas sim, se gosta do vinho que lhe é proposto e sobretudo do seu preço, assente numa relação qualidade/preço convidativa, admissível e acessivel à democracia do seu bolso.
Hoje, dum modo geral, já não há vinhos de má qualidade. Há vinhos bons e outros melhores.
Com a diminuição drástica do consumo, o alvo fundamental do negócio do vinho é o mercado, devendo serem criadas condições para que eles cheguem ao consumidor com uma relação qualidade/preço, acessivel ao bolso do consumidor, que encontra grandes dificuldades financeiras, de modo que continue a consumir e não perca o gosto e a paixão de beber vinho.
A distribuição e o preço do vinho, vão ser fundamentais à sobrevivência do cada vez maior número de marcas comerciais de vinhos, que todos os dias concorrem no mercado.
As grandes superfícies, com a enorme variedade de vinhos e uma significativa diferenciação de preços, as garrafeiras e as empresas de distribuição a pequenos postos de venda e à restauração, são indispensáveis ao aproximar o vinho do consumidor.
A dificuldade da distribuição nas grandes cidades devido ao trânsito, o reduzido número de garrafas distribuidas nos restaurantes (por vezes 1 caixa de 6 garrafas), devido ao cada vez menor espaço comercial dos restaurantes, e a falta de dinheiro para pagar o vinho, implica que a margem comercial de distribuição ultrapasse mais de 35% do valor do vinho, que associada à margem de lucro do restaurante, seja um factor inibidor do consumo, porque o consumidor já não suporta todos os custos.
É uma realidade, o cada vez menor consumo de vinhos engarrafados nos restaurantes e cada vez se consomem mais vinhos em casa, adquiridos através de compras nas grandes superfícies a preços bem convidativos, o que é um meio necessário para manter uma paixão que resulta da generosidade dum “terroir” e da criação do Homem.
A situação é preocupante e difícil, mas devemos ter esperança no futuro, porque o vinho tem grande importância económica e cultural na vida do país, e porque é um simbolo de alegrias, temas de conversas e debates, motivação de viagens, fonte de investigação litertária, filtro de amor e porque revela a expressão da terra e a paixão do seu criador.