João Carvalho Ghira – Presidente da Comissão Vitivinícola Regional Lisboa
“A indicação geográfica Lisboa dá maior notoriedade aos vinhos da Estremadura”

Em Abril foi publicada a portaria do Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas que altera a indicação geográfica dos vinhos Estremadura para Lisboa. A nova designação abrange a totalidade do distrito, exceptuando Azambuja, Ourém e alguns concelhos do distrito de Leiria e, segundo João Carvalho Ghira, dá maior notoriedade aos vinhos da região.

Reportagem: Patrick Neves

Detentor dum vasto currículo em prol do vinho, o presidente da CVR Lisboa, e também da Assembleia Geral da ViniPortugal, lidera o organismo regulador e certificador de vinhos duma indicação geográfica – Lisboa – que tem sido, de algum modo, negligenciada no panorama vitivinícola português. Anteriormente apelidada de Estremadura e com forte tradição vinícola, a região destaca-se não só pela extensão dos seus vinhedos (30 mil hectares) mas também pela qualidade dos néctares que produz, abarcando todo o distrito à excepção dos concelhos de Azambuja, Ourém e a produção de Alcobaça, Batalha, Leiria, Marinha Grande, Nazaré, Porto de Mós, Caldas da Rainha e Pombal (excluindo 4 freguesias). Para além de aguardente (principalmente da Lourinhã), espumante de qualidade e generosos, aqui são produzidos alguns dos mais reconhecidos vinhos DOC a nível nacional e internacional, nomeadamente Alenquer, Arruda dos Vinhos, Bucelas, Carcavelos, Colares, Encostas d’Aire, Óbidos e Torres Vedras, bem como os regionais Lisboa. A cultura da vinha já era praticada aquando da ocupação romana, tendo sido incrementada na Idade Média por ordens religiosas instaladas em diversos conventos, principalmente da Ordem de Cister. Os vinhos apresentam em cada sub-região características totalmente diferentes, embora todos com uma tipicidade e qualidade notáveis, sendo que a norte a mancha de vinha estende-se por suaves encostas em colinas e, junto ao mar, a produção está mais vocacionada para a produção de aguardentes de excelência. Em Óbidos destacam-se os característicos vinhos tintos, brancos e mais recentemente os espumantes e, no topo norte da província, ainda que distribuída por inúmeras parcelas de reduzida dimensão, a vinha ocupa uma vasta área que vai da Serra de Aire até ao mar. É de salientar ainda o vinho regional leve, de características muito específicas, bem como a diversidade de castas produzidas na região que, a par com a diversidade do relevo, solos e clima, permite a criação de néctares muito diversos que possibilitam grande escolha.
Produzindo cerca de 20 milhões de garrafas de vinho certificadas, os produtores da região que já foi a mais premiada do país têm vindo a registar sucessivo aumento no volume comercializado, principalmente para o mercado externo, com uma quota acima dos 45% e tendo como principais destinos Angola, Alemanha, Bélgica, Brasil, Canadá, Escandinávia, Reino Unido e EUA.

As vantagens do topónimo Lisboa
Segundo João Carvalho Ghira, “a nova indicação geográfica resulta dum processo de certa forma longo que decorreu duma intenção demonstrada há já alguns anos por um grupo de agentes económicos locais que, sendo em número cada vez maior, acabaram por tomar a decisão em conselho geral da CVR. Junto de uma empresa da especialidade foi encomendado um estudo para apurar as vantagens e inconvenientes da designação, sendo que Lisboa foi a que reuniu maior apetência, em detrimento de Estremadura. A nova denominação é importante para o mercado interno mas principalmente para o externo, pois é para onde os agentes económicos vendem em maior volume. Sendo mais fácil de pronunciar e localizar é um topónimo muito mais conhecido internacionalmente e evita confusões com a Extremadura espanhola. O estudo admitiu, no entanto, que o ponto mais fraco do desígnio pudesse estar numa eventual falta de ruralidade mas, no estrangeiro, há inúmeras cidades que dão nome a regiões vitivinícolas e a nossa capital, dado o número de eventos que acolhe, proporciona um efeito de sinergia para a promoção dos vinhos da região”.
Historicamente, João Carvalho Ghira destaca “a projecção que os vinhos do termo de Lisboa e toda a zona envolvente tiveram no estrangeiro, nomeadamente os que se produzem em três das denominações de origem mais antigas do mundo (Bucelas, Carcavelos e Colares), principalmente em Inglaterra. A determinada altura o Lisbon Wine teve uma grande expressão não só na produção de licorosos mas também de brancos e tintos”, referiu o engenheiro agrónomo, dizendo que “ainda não houve uma apresentação oficial da designação pois tem havido uma certa discussão na criação do logótipo, que ainda está a ser elaborado”. “Fazemos intenção de o lançar brevemente e só depois da portaria ser publicada em Diário da República. Aí faremos uma apresentação digna e relevante, aberta à comunicação social e com muitos convidados”.

Certificação e exportações
Quanto à certificação, o presidente da CVR explicou que “já há vários vinhos no mercado das colheitas de 2008 com o rótulo a referenciar Lisboa, seja com o selo seja referindo-se à comissão. O feedback dos produtores e dos próprios importadores dos mercados externos tem sido muito positivo, o que é muito importante a par do nível qualitativo e da excelente relação qualidade/preço. Apesar da crise as exportações têm aumentado e há um maior volume de vinho certificado este ano em relação ao mesmo período de 2008, bem como maior emissão de selos, especialmente a vinhos de mesa. O ano passado também houve agentes económicos de outras regiões que mostraram interesse em incluir nos seus portefólios vinhos de Lisboa embora o futuro seja de alguma incerteza”. Disse ainda que “futuramente vai ser permitido nos vinhos de mesa colocar indicação do ano de colheita e casta na rotulagem o que poderá ter alguma influência no volume de vinho regional certificado. Trata-se no entanto duma matéria que ainda não está perfeitamente clarificada e regulamentada”.
No que diz respeito às exportações “tem havido uma quantidade de vinho crescente exportado para a Austrália, Canadá, Brasil e países asiáticos”. “A CVR realiza acções próprias um pouco por todo o mundo, tendo sido feita este ano uma candidatura ao CREN e à OCM e estando em fase de preparação a candidatura direccionada ao mercado interno, numa verba que, na totalidade, ultrapassa o milhão de euros”.
Tal como referiu João Carvalho Ghira “habitualmente a comissão cria condições para os agentes económicos estarem presentes nas principais feiras internacionais, sendo que, ao contrário de outras CVR’s, nunca vai em representação dos produtores”. “Criamos apenas as condições e disponibilizamos a logística para a sua participação e até temos como condição que cada agente assegure a sua presença ou a de um representante pois a CVR não tem competências comerciais e ninguém melhor do que alguém da empresa para explicar o valor dos seus produtos”.

Acções pelo mundo
Alem da participação em feiras, a CVR tem promovido outro tipo de acções, como por exemplo em 2008 em Angola onde estiveram presentes 15 agentes económicos, numa acção totalmente suportada pela CVR com uma pequena contrapartida dos produtores. “É um mercado muito interessado ao qual já regressámos este ano, a par doutras realizações no Canadá, EUA, Benelux e Polónia. Também temos recebido delegações estrangeiras aqui, sendo que estão já agendadas representações da Rússia, Brasil, Angola e Polónia. Nessas acções são visitados alguns produtores e realizados percursos pelas vinhas e provas, culminando sempre com um jantar onde são também apresentadas as propostas das adegas cooperativas, que têm um enorme peso na produção da região”.

Vindimas de 2009
Região de Lisboa

Segundo o presidente da CVR, na região de Lisboa, ao contrário dos dados divulgados pelo Instituto da Vinha e do Vinho que previam um aumento de 5%, a produção é inferior à do ano passado, nomeadamente no que respeita à quantidade de uvas. Tal como refere João Carvalho Ghira, na realidade, o que se prevê é uma redução na ordem dos 5 a 10%, escassez que poderá afectar o preço do vinho, cujo valor tem descrescido devido à crise económica. Porém, o volume de vinho certificado deverá andar entre os 15 a 20% da produção total (valor superior em relação a 2008), o que permitirá manter o nível quantitativo. Em relação a vendas, e no que respeita ao mesmo período do ano transacto, registou-se um aumento de 6% pelo que deverá haver um número de certificações maior ou idêntico. Ligeiramente acima da média, a temperatura na região foi este ano superior, apesar das noites húmidas terem permitido uma maturação apurada, elevados níveis de açúcar, equilíbrio de acidez e graus de álcool à entrada das adegas na ordem dos 13,5º. As castas que dão origem ao vinho leve, brancos e espumantes começaram a ser vindimadas na zona de Alenquer em meados de Agosto e, mais próximo do mar no início de Setembro. Recorde-se que grande parte do vinho certificado na região é consumido no estrangeiro, até mesmo na Austrália, pelo que a boa quota de mercado deverá manter-se nos 50%.

João Carvalho Ghira
Natural do Cartaxo e engenheiro agrónomo pelo ISA, lembrou a antiguidade dos vinhos de Lisboa, referindo-se aos vinhos medievais de Ourém (da Ordem de Cister) e as denominações de origem centenárias Bucelas, Carcavelos e Colares. Recorde-se que o vinho
de Colares fazia parte dos mantimentos incluídos nas naus portuguesas em plenas Descobertas.