Herdade de Cadouços
A afirmação positiva dos vinhos do Tejo Interior

Alguns vinhos da distribuidora Ladies Wines provêm duma quinta em Abrantes que não produz só néctares de qualidade. A esplendorosa Herdade de Cadouços, pensada em comunhão com a natureza pela arquitecta paisagista Ana Cristina Ventura, é um projecto pessoal de afirmação do Ribatejo Interior, no qual coabitam em ambiente rural fauna, flora, produção vitícola, florestal, pecuária, gastronomia, arte, desporto e lazer.

Reportagem: Patrick Neves

Em Água Travessa, freguesia da Bemposta, na margem esquerda do rio Torto e numa zona de transição geográfica do Ribatejo para o Alentejo, os afluentes do rio que desagua na capital espraiam-se pelos azuis de 9 lagoas, com nascentes próprias e 7 barragens, que entram nos 600 hectares da Herdade de Cadouços. As albufeiras são emolduradas pelo verde dos campos, vinhas e montados de sobro e, em cada uma delas, é possível pescar diversas espécies (como truta, sável, carpa e achigã) ou observar a flora e fauna autóctone. Existem alternativas para conhecer a área em percursos pedestres, a cavalo ou num passeio em charrete e, os mais aventureiros podem optar pela canoagem, windsurf, balonismo e, até actividades mais radicais como escalada, slide e rappel. As crianças ficam entregues a ateliers lúdico-pedagógicos e dispõem de parque infantil, enquanto os pais podem, após um mergulho na piscina, desfrutar duma viagem enoturística ímpar, com passagem pelas vinhas ao redor das lagoas, provas na Casa do Vinho (onde os néctares estagiam em barricas ao som de música erudita) e refeições típicas da zona no restaurante (com capacidade até 500 lugares). As iguarias são confeccionadas por uma equipa de cozinheiras de Bemposta e, sempre que é necessário, Ana Cristina Ventura lança-se, sem pudores, ao fogão.

Natureza, arte e agricultura biológica
Com uma mentalidade completamente desestruturada em relação ao comum dos arquitectos e com profundos conhecimentos de arte japonesa e um enorme know-how no paisagismo, Ana Cristina Ventura apresenta-se quase como uma self made woman, embora não descure nunca o apoio e espírito empreendedor do marido. Aliás, a Herdade de Cadouços nasceu primeiro como empreendimento rural turístico pensado por ele, que queria aproveitar o velho casario duma propriedade agrícola, adquirida após o retorno de Ana Cristina Ventura das formações em Espanha e da sua actividade como professora e arquitecta em grandes empresas nacionais. “Daí até ao vinho foi um salto”, disse a proprietária que, com o apoio do enólogo David Baverstock, tem alguns dos melhores vinhos do Tejo, reconhecidos aqui e além fronteiras. No entanto, os seus interesses não ficam por aqui e tanto natureza, como arte e agricultura biológica (inclusive no fabrico dos vinhos) integram o projecto. A máxima expressão disso são talvez os enormes sobreiros mortos na margem dum dos paludes, preservados, pintados e reavivados com cores, e a capela em honra de Nossa Senhora dos Caminhantes, no cimo da quinta, primorosamente recuperada e com um enorme Cristo, feito em materiais da natureza, por um artista plástico portuense. Os vinhos, claro está, não são excepção.

Yes We Can – a afirmação do Ribatejo Interior
Lançado em 2008 e já reconhecido em alguns certames, o tinto regional Yes We Can 2007 (a que se seguiu o Yes We Can Reserve), feito à base de Touriga Nacional e Syrah, surge como uma afirmação do Ribatejo Interior no seio dos néctares ribatejanos. “Ainda não tinha pensado nisso” exclamou Ana Cristina Ventura “mas, de facto, aqui a paisagem e o terroir diferem dos restantes que existem na região e penso que a nossa dedicação e vertente principal é eminentemente local sim”, afirmou. “Desde o início que pretendemos que os nossos vinhos sejam o reflexo do enorme respeito pela Mãe Natureza e que reproduzam de forma elegante e harmoniosa o terroir onde, com toda a paixão e dedicação, são criadas as uvas”.
Concretizando este objectivo, o vinho provém duma agricultura biológica sem qualquer tipo de manipulação, sendo engarrafado com rolhas de cortiça natural, desinfectadas sem químicos, e utilizando na rotulagem papel reciclado e tintas vegetais. As tradicionais cápsulas plásticas foram substituídas por gargantilhas, também de papel ecológico.
Com vista à produção dos melhores tintos, as vinhas ocupam há 12 anos uma área em solos argilo-calcários de 52 hectares, distribuídos pelas castas Alicante Bouschet, Aragonês, Cabernet Sauvignon, Merlot, Petit Verdot, Souzão, Syrah, Tinta Francisca, Tinto Cão, Touriga Nacional e Trincadeira Preta. O cultivo, com um moderno sistema de rega automática (gota a gota), desenvolve-se em 4 vectores diferentes, aproveitando as melhores zonas de solo e a melhor orientação Nordeste/Sudoeste, com 20º de inclinação, potenciando maior rentabilidade solar. A quantidade é preterida em relação à qualidade, procedendo-se a uma monda criteriosa dos cachos, na parte final do pintor, complementada com uma vindima onde as uvas são suavemente recolhidas por sábias e cautelosas mãos duma equipa de senhoras. Depois são colocadas e transportadas em caixas de 15 Kg, sendo que o tempo desde a colheita até ao esmagamento é muito curto devido à próxima e excelente localização da adega. A vinificação é feita com desengace total, em pequenos lagares de inox com pisa a pé (processo robótico), sem machucar películas e sementes. A maceração é longa e controlada a frio. Na Casa do Vinho o estágio decorre numa sala com temperatura e humidade controladas, sem entrada de luz solar, onde repousam barricas de carvalho americano e francês e, garrafas em contentores especiais numa posição de 5º aguardando o momento de rotulagem, nunca inferior a 6 meses de estágio, ao som de cânticos gregorianos ou música clássica.

Vinhos biológicos e irreverentes
Criatividade, qualidade, personalidade e irreverência são adjectivos dos vinhos biológicos da Herdade de Cadouços que, para além do Yes We Can e o Reserve, dispõe de mais 3 marcas: Cadouços Natur (entrada de gama), Harmony Natur (gama média) e o reserva Memorium Natur (topo de gama). A nível de vendas, o mercado internacional tem sido o mais lucrativo (tendo mesmo esgotado as 15000 garrafas de Yes We Can), embora cada vez mais o mercado nacional ganhe terreno.
Segundo Ana Cristina Ventura, este ano, não se prevê a criação de nenhuma marca nova pelo que, “da colheita de 2008, vão ser mantidas as mesmas referências que, tal como disse o enólogo, ainda estão melhores do que as de 2007”. Ainda assim, “existem sempre ideias por explorar e a nossa maior aposta é nos reservas e nas castas Touriga Nacional e Syrah, que se adaptou lindamente a esta zona”. “As temperaturas médias aqui são sempre muito altas, no entanto, na vinha, plantada a 400 metros de altitude, corre sempre uma brisa fresca e a plantação aproveita isso mesmo. A vantagem de ter muita água também é uma das riquezas da nossa propriedade”, explicou a arquitecta, que acumula também a função de presidente da Associação das Casas de Turismo de Habitação em Espaços Rurais do Ribatejo. “Para 2009 prevemos incentivar cada vez mais o enoturismo pelo que estamos a trabalhar arduamente na promoção e divulgação da marca Cadouços”.