Quinta da Lagoalva de Cima
Enólogos da nova geração rumo ao sucesso

Na freguesia de Santo Eustáquio, Alpiarça, alongando-se pela margem sul a 500 metros do Tejo, a Quinta da Lagoalva de Cima é dos maiores domínios agrícolas ribatejanos, com uma área superior a 5000 hectares. Ultimamente, tem andado nas bocas do mundo, graças às realizações dos jovens e promissores enólogos Diogo Campilho e Pedro Pinhão, que muito contribuem para o sucesso do vinho português.

Reportagem: Patrick Neves

Aproximadamente a 2 km da vila de Alpiarça, a Lagoalva de Cima insere-se numa fantástica rede natural, na qual as zonas de regadio em grandes extensões planas contrastam com áreas de floresta em declive. Considerada uma das mais importantes da região, a quinta é uma comenda própria tutelada pela Ordem de Santiago na segunda metade do século XVIII, por um dos membros da família e Casa Lavre. Em 1776, procedem-se a vários investimentos e é aberta uma vala para obrigar o rio a seguir o seu leito natural, tendo sido edificado um dique em estacas para minimizar os efeitos das cheias. Terras maninhas e espargais são reduzidas a cultura agrícola e a edificação e reconstrução das casas da herdade encontra paredes ainda de adobe. Surge assim o palácio com as suas casas de apoio e capela, comprado em 1834 por Henrique Teixeira de Sampayo, 1º Conde da Póvoa. Sete anos depois, os bens passam para D. Maria Luísa Noronha de Sampaio que, em 1846, casa com D. Domingos António Maria Pedro de Souza e Holstein, 2º Duque de Palmeia, revertendo o património para esta Casa. Sucessivamente sempre em poder de descendentes do Duque, a quinta e as terras anexas são hoje pertença da Sociedade Agrícola da Quinta da Lagoalva de Cima S.A.

Os vinhos da Lagoalva
A actividade económica da quinta estende-se muito para além dos vinhos mas são eles que lhe têm dado protagonismo. Beneficiando dum moderno sistema de condução inspirado no legado australiano (com arames duplos), as cepas estão implantadas nos melhores terroirs, em 60 hectares, e incluem castas nacionais e mundiais, com as melhores aptidões enológicas. Nas brancas destacam-se Alvarinho, Arinto, Fernão Pires, Verdelho e Chardonnay e, nas tintas, Aragonez, Alfrocheiro, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet, Syrah e Tannat. À semelhança do Novo Mundo, a adega conjuga uma eficaz vinificação com uma grande versatilidade de opções enológicas, sendo os vinhos resultado da filosofia do produtor, das características das castas e de uma vincada personalidade impressa pelo microclima. As instalações são adjacentes à área residencial do proprietário, implantadas num amplo pátio rodeado por casas agrícolas, representando a arquitectura aristocrática rural do século XVIII.
Entre os vinhos, da gama de topo Lagoalva de Cima fazem parte os monocasta tintos Afrocheiro e Syrah, o Tinta Roriz/Touriga Nacional, o branco Arinto&Chardonnay e o Late Harvest, obtido com uvas de Gewurztraminer e Riesling. Existem também as referências Quinta da Lagoalva e Monte da Casta.

Rumo à consolidação da marca
Segundo Pedro Pinhão, com a nova forma de condução das vinhas “elas estão mais altas, a 1 metro do solo, o que permite um trabalho manual menos penoso e a mecanização integral. A exposição solar dos cachos e arejamento é muito mais vantajoso e faz com que todas as doenças – oídios, podridão e míldios – não ataquem a vinha”. “Apesar da zona ser quente, as noites são frescas e húmidas e, ao subir os cachos, as uvas tintas conseguem um amadurecimento mais regular e fácil”, revelou o enólogo. “Fazemos controle foliar, o chamado desladroamento, e nas uvas tintas fazemos desfolha. Nos brancos, como queremos manter a frescura e acidez, os cachos ficam mais ensombrados”.
Pedro Pinhão lembrou ainda que “não se pretende que a produção seja muito elevada para que a qualidade seja preservada”. “Nos anos em que isso acontece fazemos uma monda de cachos, atirando-os para o chão, tal como nalgumas parcelas que queremos ter quantidade muito pequena. Para além disso, o objectivo é rumar à consolidação da qualidade das marcas da Lagoalva e não pensar só em números”.

A produção e as novidades
Para produzir os seus vinhos, a Lagoalva de Cima celebrou um protocolo com o departamento de viticultura do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa que, através do professor Carlos Alves, controla uma vez por mês o estado fenológico das vinhas. As castas tintas estão implantadas em solos arenosos e são regadas, tal como as brancas (para equilibrar as uvas em grau de acidez e maturação) e, apenas as vinhas de tinto que estão em solos mais profundos dispensam a rega.
Com a vindima de 2008 foi produzido um espumante (talvez bruto) que se encontra em fase final de elaboração, pelo método tradicional, mas que só sairá para o mercado, possivelmente, dentro de 2 anos. “É o primeiro espumante com a marca Quinta da Lagoalva e posso adiantar que inclui Arinto, que lhe transmite acidez, e apresenta pouco álcool e um ph muito baixo. Dentro de 6 meses, também prevemos lançar um Colheita Tardia, já que o último que fizemos foi em 1997. Criámos também um licoroso da casta Tannat que, não sendo fantástico, tem algum potencial e foi feito pelo método e tabelas do vinho do Porto com a ajuda de amigos acerca do procedimento”.

As vendas
Em relação a vendas, “apesar de no primeiro trimestre do ano estarem um pouco más, o mês de Abril foi bom” disse Pedro Pinhão, salientando que “num ano complicado como este o objectivo é equilibrar a transacção em relação a 2008, que sofreu um grande aumento e atingiu as 205 mil garrafas (mais 40 mil do que em 2007)”. O aumento deve-se ao investimento que tem sido feito ao nível do marketing e distribuição, que mudou dum distribuidor nacional para a venda directa. “Com isso estamos a conseguir chegar mais perto do consumidor final e o feedback tem sido excelente, principalmente no que respeita às colheitas de 2008 de brancos e rosés. Em termos de adega, continuamos com as cubas de inox introduzidas em 2002 e os depósitos de cimento revestidos em 2004 a epoxi, aquando da remodelação do estágio em barricas”.
“Em termos de vinha temos feito algumas plantações e reenxertias de castas, principalmente porque os 20% de castas brancas começam a ser pouco para a quantidade de procura de vinhos brancos. Temos feito reenxertias em vinhas velhas de Castelão com Sauvignon Blanc, com raízes bem implantadas, e toda a introdução de cepas novas, por exemplo de Chardonnay, foram reenxertadas em vinhas com raízes de 30 anos. O Syrah, plantado em 2003 e, a casta tradicional do Dão, Alfrocheiro, plantada num só talhão de 2 hectares, têm produzido dois dos nossos melhores vinhos da gama premium”.

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