Companhia Agrícola do Sanguinhal
Passado grandioso, presente dinâmico e futuro em construção

Fundada por Abel Pereira da Fonseca no início do século XX, a Companhia Agrícola do Sanguinhal explora através da nova geração da família 3 quintas na região demarcada de Óbidos que se estendem desde o concelho do Bombarral até ao Cadaval, Torres Vedras e Alenquer. Situadas no coração duma das mais antigas zonas vinhateiras do país, nomeiam alguns dos mais prestigiados e conhecidos vinhos DOC da região Lisboa, dispondo também duma ampla oferta enoturística.

Reportagem: Patrick Neves

Nos anos 20, o inovador empresário, agricultor e político Abel Pereira da Fonseca criou a Companhia Agrícola do Sanguinhal para administrar as propriedades que possuía na região oeste de Lisboa: as Quintas das Cerejeiras e do Sanguinhal, no concelho de Bombarral, e a Quinta de São Francisco, que se estende do Cadaval a Torres Vedras e Alenquer.
Sedeada na Quinta das Cerejeiras, a empresa dedicou-se desde sempre à produção e comercialização de vinhos, embora o império mercantil erigido incluísse a produção industrial de cerâmica e a famosa Sociedade Comercial Abel Pereira da Fonseca, detentora da maior rede de estabelecimentos de venda ao público do país na altura (as lojas Val do Rio). Pioneira na cultura da vinha na região, com talhões experimentais e adopção de novas castas, práticas culturais e enológicas, é desde 1937 uma sociedade por quotas pertencente ao sócio fundador e aos seus filhos, sendo actualmente administrada pela 3ª e 4ª gerações da família, nomeadamente pelo neto Carlos João Pereira da Fonseca e a sua sobrinha, Ana Reis, responsável pelo marketing e enoturismo. Com mais cerca de 20 pessoas, incluindo os enólogos José António Fonseca e Miguel Móteo, a equipa é coesa e dinâmica e está, tal como no passado, empenhada em modernizar, inovar e, sobretudo, a agradar aos consumidores.

Situação presente
Junto à localidade de Outeiro da Cabeça (Cadaval), com uma área coberta de 1200 m2 e capacidade para 1,5 milhões de litros, a adega da Quinta de São Francisco vinifica, separadamente, a produção das 3 propriedades que, em conjunto, totalizam 95 hectares de vinha (20 hectares de castas brancas e 75 de tintas). Instalada numa propriedade de 90 hectares (50 dos quais são de vinha instalada em declive e os restantes eucaliptal e zona urbanizável), mantém os tonéis e balseiros de madeira de mogno, carvalho francês e americano na ordem dos 2 milhões de litros para fermentar, armazenar e envelhecer vinhos de mesa, licorosos e aguardentes e, ultimamente, a par do reestruturamento das vinhas (com castas tradicionais mas também novas), assiste a um processo contínuo de modernização. A zona de vinificação e engarrafamento foi melhorada (a linha foi deslocada dos antigos armazéns no Bombarral), têm sido feitos avultados investimentos a nível tecnológico e em equipamento e existem projectos de ampliação e aumento de capacidade, designadamente com a edificação de duas naves para armazenamento de produtos secos e acabados. As instalações foram equipadas com mais cubas em inox, novos sistemas de frio para controlo de temperatura de fermentação e estabilização, novos sistemas de filtração e engarrafamento e, para além da recepção de uvas, vinificação e armazenagem, permite destilar bagaços, em 4 vasos de cobre, e vinhos, numa coluna continuada. Anualmente, recebe uma média de 900 quilogramas de uva, principalmente das castas tintas Castelão, Aragonez, Tinta Miúda, Syrah, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional, Touriga Franca, Merlot, Alfrocheiro Preto, Petit Verdot, Trincadeira Preta e Tinta Barroca e, das castas brancas, Vital, Arinto, Fernão Pires, Moscatel, Chardonnay e Sauvignon Blanc. Seara Nova e Rabo de Ovelha já não fazem parte da produção.

Oferta enoturística
No centro do Bombarral, numa área de 20 hectares (dos quais 13 são de vinha plantada em suaves encostas expostas a sul de solos argilo-arenosos), a Quinta das Cerejeiras produz também, anualmente em pomares, 600 toneladas de pêra rocha, acolhendo parte do armazenamento, a área administrativa e alguma oferta enoturística. Logo à entrada, a loja de vinhos, paredes-meias com uma sala de provas e eventos instalada numa antiga adega, disponibiliza toda a gama da empresa, mas são talvez a capela do século XVIII (com painéis de azulejos seiscentistas) e a casa de Abel Pereira da Fonseca (onde foi rodada a série televisiva A Ferreirinha) os seus principais atractivos.
Vocacionada para o enoturismo, a Quinta do Sanguinhal, com uma área de 40 hectares (25 dos quais com vinha plantada em planaltos e encostas de solos de areia e argila), recuperou uma das mais antigas destilarias da firma (com 300 m2), os armazéns de envelhecimento de aguardentes e licorosos (com 36 tonéis), bem como as zonas de estágio de vinhos em barricas e engarrafados. Para a realização de eventos dispõe de parque de estacionamento privativo, 4 salas, incluindo uma com enormes lagares em pedra e 5 prensas de fuso e vara (a mais antiga datada de 1871), os jardins (com cedros centenários e um antigo poço de retenção de águas) e o bosque, ideal para fotografias de casamento ou eventos empresariais. Aliando a componente técnica à lúdica, permite a visita guiada de grupo (em português, inglês, francês, alemão ou espanhol), podendo também alugar espaços (alguns com capacidade até 500 lugares) fornecendo o serviço completo (com várias ementas de catering à disposição) e decoração. Ao conhecer a propriedade, obtém-se enquadramento sócio-cultural e histórico das quintas na região, conhecem-se os factores determinantes da qualidade do vinho produzido e as principais técnicas de prova e degustação profissional dos vinhos produzidos pela Companhia.

A Companhia era polivalente e autosuficiente
“A importância para a região da Estremadura da actividade de Abel Pereira da Fonseca na primeira metade do século XX é enorme”, advertiu o enólogo Miguel Móteo às portas da adega da Quinta de São Francisco, dizendo que “chegaram a trabalhar para ele mais de 400 pessoas”. “Aqui, por exemplo, pode ver-se como, aproveitando um declive, construiu a adega em 3 pisos, com recepção de uvas na parte superior, vinificação no segundo piso, e armazenamento no terceiro, e como o espaço era polivalente e autosuficiente. Aqui estão os antigos edifícios da casa dos caseiros, da fábrica, das serrações, tanoarias, fundições, das lojas de revenda com talho e padaria (actual laboratório) e até duma escola onde estudavam os filhos dos operários, com professora própria”. Revelou ainda que “existe um projecto na Câmara Municipal de Torres Vedras para recuperar o património, incluindo uma zona urbanizável que, futuramente, será uma área residencial de 74 lotes, com 12 campos de golf, onde o morador poderá partilhar das actividades da empresa e até fazer os seus próprios vinhos”.
Falando do grandioso passado da firma, lembrou “os armazéns de 2000m2 no Bombarral, em estilo art deco, vendidos há cerca de 8 anos a uma cadeia de supermercados”, o facto da Companhia Agrícola do Sanguinhal, antigamente, exportar para África, Ásia e ter um leque variado de produtos (como brandy, vermutes, azeites e vinagres), e o fabrico de telha, único em toda a região e que seguia através dos caminhos-de-ferro (que perspassam as 3 quintas) para a grande Lisboa. “No Bombarral, a Companhia detinha mesmo um cais privativo, conhecido como Desvio, que dispunha duma plataforma giratória através da qual os vagões entravam para dentro dos armazéns”.

24 castas produzidas
Tal como referiu o enólogo, “actualmente existem 24 castas nas quintas, algumas por clonagem, sendo que todas as vinhas estão certificadas e acolhem práticas de não mobilização que permitem controlar o vigor. Junto às cepas é feito um enrelvamento e não existe rega, sendo que as castas de produções mais baixas e com as quais trabalhamos há 10 anos, como Petit Verdot, Caladoc e Alicante Bouschet estão em ensaio de encepamento. Nas vinhas mais velhas, com 18 anos, estão a ser introduzidos novos clones enquanto que algumas castas, como a Seara Nova e Rabo de Ovelha, foram retiradas por dificuldade de maturação. Nos brancos, as castas com melhores resultados são Arinto, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Fernão Pires e, nos tintos, Syrah, Merlot e Touriga Nacional. O sistema mecanizado de colheita adequa-se à condução de vinhas e beneficia duma prepoda mecânica, seguindo-se o desbaste manual e situando-se a produção nas 8/10 toneladas por hectare. O clima é temperado e tem a vantagem de não ter grandes amplitudes térmicas pelo que as maturações são muito graduais, beneficiando de noites frescas e com alguma humidade”.
Em termos comerciais, “a exportação é na ordem dos 25% com tendência para aumentar, principalmente nos EUA e Alemanha que representam 60 a 70% do volume vendido, apesar de também estarmos presentes na Polónia, em Angola e, brevemente, em Singapura”, salientou Miguel Móteo. “A nível nacional não queremos abdicar da distribuição que fazemos na região, sendo também muito importante para nós a garrafeira que possuímos em Lisboa – a Internacional, e alguns pequenos distribuidores doutras regiões que contratámos”.

6000 visitantes por ano
Junto aos quadros pintados pela mãe, Mimi Fernandes, de 91 anos, e expostos sob os tonéis na adega que serve de sala de provas na Quinta das Cerejeiras, Carlos João Pereira da Fonseca recordou os 6000 visitantes anuais, muitos deles enviados pelos operadores turísticos, nomeadamente pelos hotéis. Evidenciou os mais de 500 mil euros já gastos na recuperação de património, o facto do único subsídio que recebeu de apoio ter sido de 7000 contos, as enormes áreas que ainda estão por recuperar e o aumento da exportação.
“Cada vez ambicionamos mais e estamos sempre à procura de novos mercados, nomeadamente no Reino Unido, e tentando recuperar outros, como é o caso da Irlanda. A nível nacional vendemos muito bem na região, embora em Lisboa ainda haja muito por explorar bem como na costa alentejana e Algarve. Como membro da direcção espero que a CVR tenha verbas para continuar a fazer acções promocionais, tão importantes para nós e para os produtores regionais”.

Em linha recta, a Quinta de São Francisco está a 10 Km do mar, pelo que as vinhas são arejadas e refrescadas por suaves brisas e alguns nevoeiros matinais que, nos últimos anos, têm desvanecido. Assim evitam-se as doenças e o sistema de drenagem, existente nos vales em espinha pelos declives, retém a água através de drenos. A empresa gasta cerca de 6 mil euros na recuperação de cada hectare de vinha embora na Quinta do Sanguinhal, por o relevo ser mais plano, minimize os custos.

Vinhos da companhia
Brevemente, a Companhia Agrícola do Sanguinhal, que só comercializa regionais Lisboa e DOC Óbidos, vai estar no El Corte Inglés com a primeira colheita de Sanguinhal branco, o Arinto/Chardonnay 2008. Levará também o Aragonês e o Touriga Nacional, ambos de 2006. A restante gama de vinhos é composta por: Cerejeiras Branco, Tinto e Rosé (vendidos também em meia garrafa e das quais são produzidas 300 mil), Cerejeiras Colheita Seleccionada Branco, Tinto e Rosé (vinho da ementa turística dos hotéis Marriot e Sheraton), Quinta de São Francisco Branco e Tinto (140 mil garrafas), Península (vinho de exportação) e os topos Quinta do Sanguilhal e Quinta das Cerejeiras (uma das mais antigas marcas de vinho portuguesas, comercializada desde 1928.