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Especial Vinhos Verdes
Quintas de Melgaço (PDF)
Lança Colheita Tardia e Vinhas Velhas

A inovação no sector dos vinhos resulta, muitas vezes, das exigências do mercado.
A empresa Quintas de Melgaço mostra saber adaptar-se aos novos tempos e prepara-se para lançar dois vinhos especiais: um Colheita Tardia e um Vinhas Velhas, ambos elaborados com base na casta rainha da região – o Alvarinho.

Reportagem: Marc Barros

A casta Alvarinho não cessa de surpreender todos aqueles que se dedicam às coisas do vinho. As potencialidades de exploração da versatilidade da casta são imensas, alicerçadas numa produção vitivinícola de cada vez maior qualidade e no trabalho de adega e experiência dos enólogos.
Desta forma, de quando em vez, o mercado é surpreendido com o lançamento de produtos inovadores à base da casta Alvarinho. A empresa Quintas de Melgaço (QM), situada na Sub-Região de Monção e Melgaço, sendo um dos produtores que melhor tem vindo a desenvolver e especializar-se na produção de vinhos verdes Alvarinho, não poderia ficar de fora deste movimento.
É sob este prisma que devemos observar o lançamento, no final de 2009, de um Colheita Tardia Alvarinho e um Vinhas Velhas, também elaborado nesta casta na sua totalidade. Segundo Pedro Soares, administrador das Quintas de Melgaço, esta inovação no portefólio da empresa corresponde a “um grande salto qualitativo, se pensarmos que há vários anos atrás poucos queriam ter esta casta plantada, e hoje há já uma grande pressão das grandes empresas para a liberalização da sua plantação”.
Mesmo a nível internacional, “o Alvarinho já se faz notar, com forte presença em concursos internacionais, podendo vir a ser, a breve prazo, um embaixador dos vinhos brancos portugueses, tal como a Touriga Nacional já o é para os tintos”, perspectiva. Daqui poderá resultar “uma enorme mais-valia comercial, no sentido da promoção e divulgação”, trabalho que cabe às empresas e às entidades oficiais portuguesas: “Temos que usar as nossas armas para potenciar os nossos produtos”, sentencia.

Novos vinhos, qualidade superior

Mas, antes de irmos aos mercados, vamos aos vinhos. O Colheita Tardia Alvarinho será o primeiro da região e “mostra a excepcional polivalência da casta”. Segundo Carmen Carvalho, enóloga residente da empresa, que recruta ainda os serviços, como consultora, do enólogo Jorge Sousa Pinto, “aquando da calendarização da vindima, foi feita uma selecção de parcelas para este vinho, tendo sido contratualizado com um produtor todo o acompanhamento até à vindima, numa área de meio hectare”. Esta área, em condições normais, renderia cerca de 4000 quilos de uvas. Porém, para a produção do vinho doce, as uvas passificaram na vinha até Dezembro, tendo sido colhidos 650 quilos de matéria-prima, dos quais foram obtidos 310 litros de vinho. Este néctar está em estágio em madeira, e o vinho será lançado antes do Natal.
Serão cerca de 900 garrafas de 0,37cl., a preços que rondarão os 20 a 25 euros PVP. Este vinho, que ainda não tem nome, será posicionado no segmento gourmet, em garrafeiras seleccionadas e restaurantes. “Caso haja boa aceitação do mercado, poderá haver um aumento de produção deste vinho, mas sempre em quantidades de nicho”, estima Pedro Soares.
Por seu turno, o Alvarinho Vinhas Velhas “é oriundo das vinhas mais antigas dos nossos accionistas do concelho de Melgaço, com cerca de 20 a 25 anos de idade”, explica Carmen Carvalho. O desafio dos enólogos, neste caso, passa por “tentar recuperar métodos tradicionais de vinificação, com fermentações em madeira e estabilização por métodos naturais”.
Em estágio estão 2500 litros de um vinho “com grande potencial de longevidade, uma vez que a fermentação e a estabilização do vinho são feitas de forma mais natural, não o sujeitando a tratamentos de choque”. Resultará desta forma um vinho “com algumas notas de madeira, notas varietais mais intensas, e untuoso na boca”. O objectivo, resume, “é fazer passar para o mercado a ideia de que a casta tem uma nobreza que a distingue no seio da região dos vinhos verdes e das próprias castas brancas nacionais”. Numa primeira fase, serão lançadas 3000 garrafas, a valores que rondarão 12 euros PVP.

Um projecto que veio do Brasil

A empresa Quintas de Melgaço nasceu em 1994, impulsionada por um melgacense emigrado no Brasil, Amadeu Abílio Lopes. A sua capacidade financeira foi suficientemente forte para congregar à volta deste projecto o interesse de algumas centenas de produtores do concelho de Melgaço, que se tornariam accionistas, bem como a própria autarquia, que assumiu a posição do fundador e hoje detém a maioria do capital. A empresa conta com 430 accionistas, dos quais 150 com alto grau de fidelização.
Com oito colaboradores directos, a Quintas de Melgaço é certificada pela ISO 32000, “a primeira a nível nacional no sector dos vinhos”, refere Pedro Soares. Trata-se, na sua óptica, de um “aspecto essencial na colocação dos vinhos, sobretudo em mercados estrangeiros, mas também a nível nacional”.
A empresa, que não tem produção própria, recebeu cerca de 700 mil quilos em 2008, com o branco a representar cerca de 80% das entregas. O ano registou uma quebra ligeira de produção, compensada com novas entradas e novos accionistas: “Implementamos uma política de pagamentos antecipados, em cerca de 50% do total, até 15 de Dezembro, o que potenciou a entrada de novos fornecedores de uva”, disse Pedro Soares. Os preços pagos nesta última campanha rondaram os 1,05 euros/kg para a uva Alvarinho e 0,50 euros/kg no caso da casta Trajadura.
Na entrega, é feita a separação de uvas entre brancas e tintas, calendarizada de acordo com a evolução das maturações, acompanhada pelos técnicos da QM. A entrega é feita por casta o que, como explica Carmen Carvalho, “beneficia a organização do trabalho, até porque trabalhamos com grandes volumes, e a qualidade dos vinhos”.

Mercado externo a crescer

A QM tem uma produção total de um milhão de garrafas, com um portefólio que inclui as marcas QM (100%Alvarinho), Castrus de Melgaço (igualmente 100% Alvarinho), Torre de Menagem (lote Alvarinho/Trajadura), e dois espumantes: QM 100% Alvarinho e Torre de Menagem Alvarinho/Trajadura.
Para além destas marcas fortes, a empresa possui ainda as referências São Rosendo verde tinto (este de consumo regional, mas que representa 2,5% das vendas), Terra Antiga rosé e Leira do Canhoto (Trajadura, Loureiro e Alvarinho). As duas últimas referências, com 50 mil garrafas cada, correspondem a marcas “de entrada de gama, com grande mercado sobretudo nos restaurantes da costa litoral até ao Porto”. Porém, nota Pedro Soares, “em anos de crise, a tendência do segmento é para crescer nas vendas”, o que acentua a sua relevância.
O mercado nacional representa “o grosso de vendas, sendo que, nos primeiros quatro meses do ano, as exportações quase triplicaram face ao total de 2008 (4% do total das vendas), fruto de uma política de aposta nestes mercados externos”. Por outro lado, reflecte Pedro Soares, esta aparente disparidade “pode explicar-se porque o grosso do mercado internacional de compras funciona até Maio, retomando apenas nos dois últimos meses do ano”. Alemanha, Reino Unido, Polónia, EUA, Japão, Grécia, Islândia e Eslováquia são os mercados principais de um vinho que “já não é apenas de consumo sazonal, mas apresenta uma tendência de uniformização, dada a sua aptidão gastronómica e a nobreza da casta”.