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Especial Vinhos Verdes
Quinta da Lixa (PDF)
Paixão pelos Vinhos Verdes

A paixão da família Meireles pelos vinhos verdes esteve na origem desta empresa vinícola e conduziu a Quinta da Lixa ao patamar actual. Essa mesma paixão pode ser encontrada em novos segmentos, como o enoturismo, que em breve dará um novo fôlego à região. 

Reportagem: Marc Barros

Um apelo mais forte da tradicional cultura de vinha e uma visão moderna e empresarial do sector materializaram a paixão que desde sempre norteou a família Meireles, pelo menos no que aos vinhos verdes se refere.
Presente em diversas áreas do mundo empresarial, esta família que já era proprietária de vinhedos localizados em redor da pequena vila da Lixa, em Felgueiras, decidiu, em 1986, apostar na criação de uma empresa de pequena dimensão capaz de dar destino adequado aos vinhos nascidos nas suas propriedades. A então Soporvin – Sociedade Portuguesa de Vinhos, foi criada numa lógica de aproveitamento de sinergias, dando corpo à visão empresarial que a família depositava no sector, à semelhança dos outros negócios em que estava envolvida.
Inicialmente, o vinho produzido era vendido a granel, sobretudo para a Adega Cooperativa de Felgueiras, mas também para outras empresas conceituadas da região. A percepção do elevado patamar de qualidade dos vinhos que comercializava mostrou que o caminho a seguir era outro: criar uma marca própria, engarrafar e comercializar os seus vinhos, numa lógica de aproveitamento das mais-valias que daí resultariam.
E resultaram. Criada a marca Quinta da Lixa, depois de adquirida a propriedade que dá o nome à empresa, foi decidido avançar para a renovação das suas instalações e adega, com o objectivo de aumentar a produção. A sua capacidade de vinificação actual ascende a três milhões de litros.

Gestão empresarial e responsabilidade social

Óscar Meireles é director geral da Quinta da Lixa e, dos irmãos Meireles, aquele que gere diariamente a empresa vitivinícola. Mas a tradição já passou para as gerações seguintes. Diana Meireles, filha do responsável da empresa e licenciada em Engenharia Alimentar, é a responsável pelo departamento de qualidade.
No total, a empresa detém 42 hectares de vinha, dos quais sete na própria Quinta da Lixa, 20 hectares na Quinta de Sanguinhedo, adquirida em 1999, e os restantes dispersos pelas várias propriedades localizadas na Lixa, nas franjas da própria sede, como a Quinta de Tarrio, Quinta da Corredoura, Quinta de Coveiros e Quinta das Maias. Esta rede de proximidade deve-se à vontade de “aproveitar sinergias”, mantendo a capacidade “de rodar pessoal entre as várias quintas”, contribuindo para a redução de custos, explica o seu gestor.
A empresa continua a aprofundar a sua estratégia, pretendendo adquirir novas propriedades e plantar vinhas novas. “Este ano serão oito hectares e no próximo está previsto arrancar com a replantação de mais oito hectares”. Desta forma, resume, “alargamos a área de produção”. Dentro de três anos, a empresa espera deter 60 hectares de vinhas próprias, sendo que a área actual representa 35% da produção total.
A Quinta da Lixa tem por isso contratos estabelecidos com alguns produtores da região para fornecimento de uvas. Todo o apoio técnico é dado pela empresa, que controla assim a qualidade das uvas que adquire e vinifica.
E se, no que toca à viticultura, a aposta nas castas autóctones da região, como a Azal, Avesso ou Loureiro seria inevitável, a Quinta da Lixa alberga já, nas suas propriedades, algumas castas que poderão, a curto prazo, ditar novos vinhos ou novos lotes, para juntar à diversidade de referências que coloca no mercado. Assim, a um hectare de Riesling – plantado para estudar a adaptação da casta e o seu perfil ao terroir da Lixa, como explica o enólogo Carlos Teixeira, juntam-se seis hectares de Alvarinho (para lotear, dada a sua complexidade, estrutura e longevidade), e dois hectares de Touriga Nacional, entre outras experiências.
A produção média da Quinta da Lixa ronda os 2,5 a 3 milhões kgs/uva anuais, de onde surgem 2 a 2,5 milhões de litros/ano. Óscar Meireles recorda que 2008 foi um ano “difícil em termos quantitativos, com uma quebra assinalável que teve que ser compensada com idas ao mercado”, mas em termos qualitativos foi um ano de excelente nível.
Sobre este tema, frisa, “temos que ter consciência que os preços praticados no viticultor eram desequilibrados. O produtor precisava de mais dinheiro” e, com este cenário de quebra, “houve um equilíbrio de preços” e, aspecto mais importante, disse, “começámos a criar condições ao viticultor para melhorar a sua matéria-prima”.
Esta visão de responsabilidade social acompanha a gestão da empresa: “É esse o nosso objectivo, de forma que, no final, os nossos vinhos possam ombrear com quaisquer vinhos brancos do mundo. Hoje, vemos que qualquer produtor da região tem condições para competir de igual para igual em qualquer concurso do mundo”. Com efeito, no espaço de cinco anos, a Quinta da Lixa arrecadou mais de 200 prémios internacionais.

O desafio dos monocasta

Às marcas inicialmente lançadas – Terras do Minho, Quinta da Lixa, Monsenhor, Vinha Real e QL -, juntaram-se no virar do século novas referências que demonstram o arrojo da empresa e a paixão com que encaram o negócio: a diversificação dos seus vinhos recai no lançamento dos primeiros vinhos varietais da vindima de 2000, assim como nos vinhos datados. Uma vez que as “vinificações são feitas por casta”, desde logo ficou assente que “a sua qualidade poderia fazer-se valer por si no mercado”, explica Óscar Meireles.
Reconhecendo que esta não é uma tradição na região, o lançamento dos monocasta “surge depois da conversão da vinha feita em 1987 e 1992, quando nos apercebemos que várias castas como a Azal, Arinto, Trajadura e Loureiro, tinham capacidade para se fazerem valer por si”. Estes monocasta foram primeiramente lançados em 1993, “para testes junto do consumidor”, mantendo-se no mercado três monocasta brancos” – Alvarinho (este vinificado em parceria com um produtor de Melgaço), Loureiro e Trajadura nos brancos e Vinhão nos tintos.
Actualmente, são colocadas no mercado 250 a 300 mil garrafas de Quinta da Lixa Loureiro e 150 mil de Quinta da Lixa Trajadura. “São vinhos de nicho, mas temos aumentado ligeiramente neste segmento. É um mercado muito recente, exceptuando o Alvarinho”. O Loureiro, afirma, tem já um grande reconhecimento no mercado, sobretudo a nível internacional. Por sua vez, o Trajadura, “juntamente com o Treixadura espanhol, está a crescer”. Falta saber, questiona Óscar Meireles, “quem puxa por quem”.
Em 2004 é lançado o Espumante Quinta da Lixa, fruto do reconhecimento das capacidades da região na espumantização dos seus vinhos verdes. Este é produzido com base nas castas Arinto e Avesso. Trata-se de “um produto que está a crescer, mas é ainda um mercado muito jovem”.

Diversificar os mercados

As marcas da Quinta da Lixa são direccionadas para vários segmentos: algumas exclusivas para o canal Horeca, como o QL e o Quinta da Lixa. Por outro lado, nota Óscar Meireles, “é necessário efectuar um reforço da presença na grande distribuição, pois uma grande quota do consumo de vinhos está a ser transferida dos restaurantes para as casas dos consumidores”.
Portugal representa cerca de 60% das vendas da empresa. “Em algumas zonas temos sentido dificuldades em evoluir, sobretudo a sul, pois as marcas mais fortes têm uma presença mais vincada. Estamos a tentar inverter essa tendência, mas temos que reconhecer que é um crescimento muito lento”. Uma das apostas da empresa passa pela ligação à gastronomia, com receitas preparadas pelo chefe Hélio Loureiro especificamente para cada vinho e disponibilizadas no seu portal de Internet e nos contra-rótulos das garrafas.
Por seu turno, os mercados externos absorvem 40% das vendas. Trata-se de “uma aposta ganha e que muito nos satisfaz”. O início deste trabalho, recorda Óscar Meireles, “foi difícil, com retorno muito lento, e só nos últimos quatro anos temos vindo a receber os frutos desse esforço”. Isto porque “há dez anos atrás os vinhos portugueses eram mal trabalhados no exterior, onde cada qual agia por si, sem união de esforços. Creio que essa mentalidade tem vindo a mudar, com maior profissionalismo, e sentimos que a imagem de Portugal e dos vinhos verdes está a melhorar muito”, realça.
Entre os mercados mais importantes contam-se os EUA, Canadá, Brasil, França, Alemanha, Holanda, Suécia, Dinamarca e China, que “poderá vir a ser importante se for criada uma maior continuidade nas vendas”. Angola também evoluirá, assegura, mas actualmente “está a crescer muito nos tintos”. Neste segmento podem ser importantes os vinhos do Douro que a Quinta da Lixa engarrafa e comercializa, para juntar às suas sinergias na vertente comercial, com a marca Heitor. Mas para já estes são direccionados sobretudo para o mercado nacional, “para juntar aos nossos pacotes, juntamente com outros produtos, como mel, compotas ou queijos”. Actualmente são lançadas cerca de 30 mil garrafas, a que se junta uma nova marca do Douro, Muxagata.
Um esforço de diversificação onde as palavras-chave são, segundo Óscar Meireles, “sinergia” e “paixão”, em que uma não pode ser dissociada da outra. Só assim se conseguem resultados positivos, como o exemplo que a Quinta da Lixa tem dado. •