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Especial Vinhos Verdes
Adega Cooperativa de Ponte de Lima (PDF)
Na encruzilhada do futuro

Em plena comemoração do seu cinquentenário, a Adega Cooperativa de Ponte de Lima ambiciona virar uma página e trilhar novos caminhos, assente numa cultura mais voltada para o mercado. Protagonista dessa missão é a casta Loureiro.

Reportagem: Marc Barros

A sub-região do Lima é talvez a localização, no conjunto da região dos vinhos verdes, a que a casta Loureiro melhor se adaptou e encontrou as condições para expressar todas as suas características (ver caixa). Não será por isso de estranhar que esta casta constitua uma das armas preferenciais da Adega Cooperativa de Ponte de Lima (ACPL) para enfrentar os desafios do mercado. A outra será, como nos disse a presidente daquela entidade, Maria Celeste Patrocínio, uma “cultura empresarial” mais vincada, sem no entanto descurar a sua componente social.
Os desafios que se colocam são tanto maiores quanto a longevidade desta instituição de referência no próprio concelho de Ponte de Lima, mas também na região dos vinhos verdes. Em ano de comemoração, a Adega de Ponte de Lima encontra-se numa encruzilhada, perspectivando novos caminhos mas sem perder de vista as lições do passado.
Maria Celeste Patrocínio frisou isso mesmo, ao dizer que “a adega tem uma componente social importante, pois é talvez um dos maiores empregadores do concelho”, com 30 colaboradores, mas também fonte de rendimento para os cerca de 2000 produtores associados que aí entregam uvas, sendo que a esmagadora maioria pratica uma agricultura de minifúndio. Não obstante, sustenta, a Adega de Ponte de Lima “é uma empresa e tem que ser gerida como tal”. Assim sendo, “é fundamental que a adega possa adoptar uma cultura empresarial”, algo que, reconhece, “demora um pouco”.
Até porque aquela responsável iniciou funções há pouco mais de um ano, depois de convidada para liderar um projecto de renovação da instituição, e foi já sujeita a um processo eleitoral que deu ainda mais força à sua equipa e à estratégia que pretende implementar. Os primeiros resultados estão à vista: depois de vários anos consecutivos com resultados negativos, a ACPL registou, no exercício de 2008, um resultado positivo de 620 mil euros e, talvez mais importante, uma substancial redução da dívida aos cooperadores.
Como foi possível essa inversão em tão curto espaço de tempo? Por um lado, explicou a responsável da adega, “pelo crescimento das vendas nos produtos engarrafados e pelo aumento do seu valor” em detrimento do vinho a granel (que, em 2007, representara ainda mais de 50% das vendas) e, por outro, por uma redução de custos que envolveu um feroz combate ao desperdício.
Em termos gerais, a Adega de Ponte de Lima vendeu 3,39 milhões de litros pelo valor final de 3,84 milhões de euros. Destes, 858 mil litros corresponderam a vendas de vinho a granel, pelo valor de 196 mil euros, contra 2,53 milhões de litros de vinho engarrafados, num volume de 3,64 milhões de euros. Face a 2007, segundo os dados da ACPL, verificou-se um crescimento de 17% em valor na garrafa e um aumento do preço médio por litro de 25,6%, passando de 1,15 euros/litro para 1,44 euros/litro. O preço médio global subiu dos 0,61 euros para 1,13 euros/litros, num crescimento de 86,9%.

Os vinhos como segredo do sucesso

Números à parte, ficam os dados de uma importante recuperação e da viabilização económica e financeira da adega. Para além do papel da direcção, são os vinhos os principais responsáveis por este “pequeno milagre”.
Com as marcas da Adega Cooperativa de Ponte de Lima são colocados vinhos de grande qualidade e, sobretudo, de forte notoriedade no mercado, como o branco clássico e o branco adamado, ambos elaborados com base na casta Loureiro e beneficiados com harmonia organoléptica pelas castas Trajadura e Pedernã (nome regional do Arinto).
No caso do vinho adamado, com um teor de açúcar mais elevado, a adega vai ao encontro de um segmento de mercado cada vez mais importante – o feminino. Daí não ser de estranhar o contínuo crescimento das suas vendas. Para os apreciadores das virtudes da casta Loureiro, a adega coloca ainda no mercado um monocasta Loureiro, que encontra “um terroir de excepção em Ponte de Lima”, refere Celeste Patrocínio.
Para além destes brancos, a Adega engarrafa ainda um verde tinto de grande fama, elaborado a partir de uvas das castas Vinhão, Borraçal e Espadeiro, entre outras, e o monocasta Vinhão, este para um segmento mais elevado. Este último fez parte do lançamento de novas referências lançadas pela Adega de Ponte de Lima em 2005/2006, data em que a sua imagem foi renovada, bem como o Loureiro colheita seleccionada. A presidente da empresa adiantou ainda que, tanto o tinto como o monocasta Vinhão têm “bom acolhimento nos mercados fora da região, com presença na distribuição a nível nacional e na restauração”.
Também num segmento de nicho, mas de importante valor acrescentado, situa-se a aguardente vínica da adega, estando previsto o enchimento de duas mil garrafas para uma edição comemorativa dos 50 anos.

A importância das “pequenas coisas”

Com uma área coberta de 12.500 m2, a ACPL tem capacidade instalada para vinificar mais de 15 milhões de litros, sendo que a média actual ronda os cinco milhões, dos quais 1,75 milhões de tintos. Assim sendo, existe potencial para uma nova área de negócio, que passa pela vinificação de vinhos de outras empresas, aproveitando possíveis sinergias e rentabilizando os seus equipamentos.
A exportação representa apenas 5% do volume global, com destaque para EUA, Canadá, Noruega, França e Suíça. Neste último, aliás, Celeste Patrocínio ressalta os bons resultados obtidos em 2008, sobretudo por altura da realização do Campeonato Europeu de Futebol. E não tem dúvidas ao afirmar: “Quanto mais longe fosse Portugal na competição, mais vinho a adega exportava para a Suíça”.
O optimismo e a perseverança são, aliás, característicos nesta limiana com fortes vínculos às suas origens, mesmo quando o seu percurso académico e profissional a levou para outras paragens. Licenciada em Direito pela Universidade de Lisboa, fez o seu percurso profissional ligado à gestão no ensino superior, tendo sido, entre outros, administradora da Universidade do Algarve. A ligação a Ponte de Lima e o desafio que lhe foi colocado para presidir aos destinos da ACPL levou-a ainda a cursar Comunicação Internacional Vinícola no Instituto Politécnico de Viana.
A tarefa que tem entre mãos é, assegura, árdua mas compensadora: “É um trabalho de persistência, um esforço do quotidiano”, onde o mais difícil, revela, é “mudar a cultura, as pequenas coisas”. Por isso, dá grande enfoque à redução de custos, que passam, entre outros, “pelo corte nas despesas de vindima com pessoal e outras, já implementada no ano anterior”, e pela “valorização das nossas uvas, que continuou este ano, em função do grau e da casta”.
E é com indisfarçável orgulho que nos conta que a ACPL foi a primeira certificada a nível nacional e que nos apresenta as medalhas conquistadas pelos seus vinhos, como os últimos bronzes para o Loureiro Selecção 2008 no Challenge International du Vin e no Wine Masters Challenge. •