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Especial Vinhos Verdes
Associação de Produtores de Alvarinho de Monção e Melgaço (APA) (PDF)
Em defesa do Alvarinho

A criação de mecanismos que defendam o Alvarinho de Monção e Melgaço da “cobiça” de que vem sendo alvo é um dos objectivos desta nova entidade. Mas os seus projectos não se esgotam aqui.

Entrevista: Marc Barros

A criação de uma nova associação unificada de produtores de Alvarinho dos concelhos de Monção e Melgaço é encarada por José Aleixo, dirigente da APA e produtor de vinho Alvarinho, como um projecto que, a curto prazo, dará “mais força aos produtores, sobretudo os de menor dimensão, pois podemos fazer valer os nossos interesses a uma voz só”.
Entre estes contam-se a necessidade de “fazer face às ameaças” que surgem, pois “o Alvarinho está em perigo de perder a sua independência”, disse. A disseminação da casta pela região dos Vinhos Verdes e mesmo fora dela é encarada com apreensão por estes produtores: “O vinho branco nacional mais cotado é o Alvarinho, e daí o interesse de outros produtores não só da região, mas mesmo de outras regiões. Na nossa perspectiva, com pouco mais de 40 empresas, colocamos várias marcas entre os melhores vinhos do mundo; não nos provaram ainda que os vinhos produzidos fora da sub-região atinjam o mesmo grau de qualidade”.
Ou seja, está em causa a própria noção de especificidade da sub-região de Monção e Melgaço e do seu terroir. Por outro lado, acrescenta José Aleixo, o Alvarinho “envolve uma população inteira destes dois concelhos”. As características regionais de produção fragmentada desta casta em regime de minifúndio levantam problemas de ordem social e económica. “Estamos a falar de um total de 2700 produtores, com um rácio de 0,7 hectares por cada um”.

Em risco de banalização

O interesse que a casta Alvarinho desperta e que provoca “a cobiça desses agentes económicos” deve-se não à casta em si, refere José Aleixo, mas ao “estatuto e notoriedade” que atingiu. Aliás, reconhece, “esse foi o nosso erro inicial, ao utilizarmos a designação Alvarinho como o nome do nosso vinho, ao invés da sub-região Monção e Melgaço”.
A defesa desta particularidade deve ser uma missão da nova entidade associativa. “É preciso que a CVR proteja estes dois concelhos como ex-libris da região”. Porém, recorda, “fora da região dos vinhos verdes a CVRVV não tem influência para proteger o Alvarinho do interesse dos grandes grupos, com forte capacidade económica e de promoção”. A APA Monção e Melgaço deve assim desenvolver estratégias nesse sentido, que poderão “passar por uma denominação de origem própria da sub-região”.
Em última análise, frisou, poder-se-á correr o “risco de disseminação e banalização da casta”, algo que “já se verifica na Galiza, com a denominação Rias Baixas a sofrer algum desgaste, provocada com a diminuição da qualidade do vinho dada a elevada produção de uva”.

O Alvarinho nos modernos mercados

Um outro problema que a sub-região poderá enfrentar está relacionado com o facto de, nos últimos anos, terem surgido várias novas marcas de Alvarinho no mercado, atomizando um segmento que poderá perder capacidade de negociação face ao peso da grande distribuição.
José Aleixo recorda que a sub-região tem já várias marcas de maior dimensão, mas acredita que o mercado terá capacidade para absorver produtores de várias dimensões, pois “o Alvarinho é também um vinho de nicho”. “Podemos chegar a quase todos os mercados, faltando apenas a dimensão e estrutura financeira para aposta no marketing e promoção”.
Neste ponto, “a associação pode ter um papel fundamental na alavancagem de novos mercados internacionais” e na adopção de estratégias de “promoção, levando pequenas produções a mercados que actualmente não atingem”, disse. Ou seja, dotar a sub-região dos mecanismos essenciais ao moderno mercado dos vinhos mas, ao mesmo tempo, proteger a sua especificidade e matriz cultural. •