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Especial Vinhos Verdes
Adega Cooperativa de Guimarães (PDF)
Um exemplo de renovação

Foi com os olhos postos no futuro que a Adega Cooperativa de Guimarães encetou uma profunda renovação, fruto de um intenso trabalho na relação com os viticultores, na melhoria da qualidade dos seus vinhos e na reformulação da imagem. Os próximos investimentos envolvem a aquisição de área vitícola e a produção própria.

Reportagem: Marc Barros

A profunda renovação imprimida à operação da Adega Cooperativa de Guimarães é um exemplo para o sector cooperativo português e a prova que, com empenho e dedicação de todos os seus responsáveis, desde técnicos a cooperantes, o sector pode ter um futuro risonho pela frente.
Quando a Nectar visitou pela primeira vez esta adega (ver edição Ed. 46/47 Nov./Dez 2006), estava em fase de conclusão um investimento que a dotou da capacidade de vinificar um milhão de quilos de uva, no total de 750 mil litros anuais de vinhos, mas passível de aumentar esta produção em 320 mil litros.
Deste investimento resultou uma nova marca – Praça de S. Tiago -, cujo sucesso ficou patente logo no seu arranque, ao arrecadar várias medalhas no concurso da CVRVV. O mercado correspondeu da melhor maneira a este desafio. À marca Praça de S.Tiago, direccionada para um segmento superior, nas vertentes branco, Vinhão e rosado feito com a casta Espadeiro, juntou-se mais tarde o Praça de S.Tiago Reserva.
Este resulta da fermentação de Arinto em carvalho, “com excelentes resultados mas que pretende apenas ser a nossa bandeira. É uma aposta ganha e para continuar, mas em regime de pequenas produções”, explicou Sequeira Braga, presidente da instituição. Esta casta foi a escolhida “pela sua nobreza, de maior complexidade e que atinge maior grau alcoólico, servindo bem as exigências da madeira”. O seu lançamento teve como objectivo “ser uma referência que possa ombrear com outros brancos do mundo, mantendo as principais características do que é um vinho verde”.
Quanto aos rosés, o mercado “tem recebido muito bem este novo produto, com crescimentos assinaláveis, mas parte de uma base muito reduzida. Julgamos ser uma excelente alternativa aos tintos, num futuro próximo mas não imediato”.
O futuro próximo, porém, não passará pelo lançamento de novas marcas: “Julgamos que o caminho não é dispersar a oferta em múltiplas referências, mas concentrar todo o esforço na consolidação das actuais marcas e referências cujo lançamento foi focado em dois canais: distribuição e Horeca e dois mercados alvo, consumidor médio e médio/alto. Nessa linha, procedemos a um refreshing da rotulagem do nosso Praça de S. Tiago Colheita Seleccionada branco, para uma imagem mais leve, jovem e moderna, respondendo assim à procura”.
A Adega de Guimarães é ainda associada da Vercoope, através da qual comercializa um volume substancial da sua produção. Aliás, Sequeira Braga é membro do corpo directivo daquela entidade e não descura o papel importante que joga na região, pela capacidade de aglutinação de vários parceiros cooperativos e de comercialização dos seus vinhos.

A experiência Alvarinho

A ambição da Adega de Guimarães em crescer e a vontade de experimentar novos rumos não se fica por aqui. A Adega Cooperativa de Guimarães está a implementar “as primeiras plantações de Alvarinho, pelo que teremos que aguardar pelas primeiras uvas lá para 2012”. No entanto, refere Sequeira Braga, “estamos certos de que esta casta que tão bons resultados tem dado na Estremadura, no Alentejo, na Nova Zelândia e na vizinha Galiza, também será capaz de produzir excelentes vinhos na região dos Vinhos Verdes. Será com certeza uma extraordinária mais-valia para a região”, confia.
Os investimentos sucederam-se e, “depois do investimento inicial de cerca de 2,5 milhões de euros entre 1999 a 2001, tivemos uma segunda fase de investimentos, mais reduzidos, entre 2004 e 2007, na ordem dos 100 mil euros, para atingir a actual capacidade de laboração com total conforto e garantindo elevados padrões de qualidade na vinificação”.

Renovação vitícola

A Adega de Guimarães possui 120 associados activos, englobando uma área de produção que ronda os 250 hectares. O trabalho desenvolvido na viticultura prossegue, através de “um departamento técnico para acompanhar e apoiar todas as fases da viticultura desde a plantação”. Desde 2000, a adega apoiou a reconversão de 140 ha de vinha através do VITIS.
A este esforço, junta-se a formação profissional dos operadores nas diversas tarefas (poda, fitossanidade, determinação de data de colheita) e a introdução nos associados de conceitos como o enrelvamento da vinha e a difusão da condução através do cordão simples. “Fundamentalmente”, esclarece Sequeira Braga, “a produção passou a ser feita com a preocupação de fornecer ao mercado, através da cooperativa, o que o mercado está disposto a comprar”. Não obstante, “ainda se mantêm alguns produtores com sistemas de condução tradicionais”, nomeadamente em altura, mas “em quantidade residual e sobretudo com tintos. O VITIS alterou substancialmente esta realidade. Economicamente são inviáveis, embora etnograficamente muito interessantes”.
Foi ainda introduzido um procedimento de recepção de uvas e calendário de entregas por castas, sendo hoje “um pilar da nossa política”. Também a fixação de preço e prazo de pagamento antes da vindima faz parte da política desta empresa cooperativa, “estando todas as nossas obrigações perante produtores e demais fornecedores cumprida”.
Os preços pagos por kg/uva são variáveis “em função do tipo e qualidade da uva entregue”. Em 2008, oscilaram entre 0,25 e 0,45euros/kg. O ano passado foi ainda introduzido um “Bónus de Fidelidade“ a ser pago por quilo de uva entregue pelo associado em função da entrega, ou não, de uvas na campanha anterior. “Aqueles que o fizeram contribuíram para o enriquecimento da organização e têm assim uma descriminação positiva em relação àqueles que optaram por dar outro destino às suas produções”, explicou o presidente da adega.

Recorde de resultados

Os resultados desta estratégia estão à vista: “Em termos nacionais, 2008 foi outro ano de recordes de vendas. Passamos largamente a “barreira psicológica” das 100 mil unidades. A exportação é ainda residual mas representa já cerca de 5% das vendas de engarrafados”. Este segmento “tem crescido sustentadamente e, em 2009, abrimos uma nova frente na Alemanha, país onde julgamos ter grande potencial de crescimento, não só pelo mercado, mas também pela qualidade do parceiro no terreno”.
O volume de negócios global em 2008 foi ligeiramente superior aos 400 mil euros, um novo recorde da empresa, e as perspectivas para 2009 “apontam num crescimento de 6% em facturação”.
Para além disto, a Adega de Guimarães continua a pensar realizar um investimento em enoturismo, com o plantio de vinha na propriedade e a recuperação de várias casas agrícolas para realização de provas, museu, auditório, bar de apoio e esplanada. “Embora não esteja esquecido, de momento está adormecido”. Mas, pelo que vemos do trabalho desenvolvido nesta adega, pode despertar a qualquer momento. Tal como o fez, com enorme sucesso, a própria Adega Cooperativa de Guimarães. •

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