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Especial Vinhos Verdes
Quinta de Carapeços (PDF)
A nobreza dos vinhos

A nobreza da uva Alvarinho e a surpresa da casta Vinhão foram as notas principais da visita à Quinta de Carapeços. Depois do lançamento, em 2008, de uma gama de espumantes, poderá estar na calha um novo Late Harvest.

Reportagem: Marc Barros

Em Amarante, terra de Pascoes e Souza Cardoso, conhecida pela sua beleza natural, pela frescura do rio Tâmega, mas também pela qualidade dos seus vinhos, pudemos visitar a Quinta de Carapeços, produtor de vinho verde de altíssima qualidade e com uma estratégia comercial interessante. Tal como Amarante e os seus vinhos, com ligações aos tempos da fundação da nacionalidade, também as referências históricas da quinta são longínquas, remontando ao século XIV, mais concretamente ao ano de 1338.
No entanto, tradição e passado não antagonizam com os valores de modernidade e futuro, como pudemos comprovar com o nosso guia, Miguel Abreu, que representa já a quarta geração desta família produtora de vinhos.
Com base nos 20 hectares de vinhedo distribuídos por duas propriedades, a Quinta do Logarinho e a Quinta de Carapeços, dos quais quatro hectares recentemente adquiridos e estão a ser replantados, são elaborados vinhos que desmistificam todos os preconceitos existentes em redor dos vinhos verdes. Desde logo a produção de uvas da casta Alvarinho, numa zona que não lhe é tradicional, o que, por essa razão, implica que os vinhos brancos da Quinta de Carapeços sejam colocados no mercado com a designação Regional Minho. Algo que Miguel Abreu não vê, necessariamente, com maus olhos…

O papel do enólogo
O objectivo inicial destes produtores, quando decidiram lançar uma nova marca no mercado, o que aconteceu em 2003, foi desde logo a sua inclusão em nichos de elevada qualidade, direccionada para o segmento alto. Daí que, tenham optado pela casta branca que, naturalmente, adaptar-se-ia com toda a sua nobreza e versatilidade ao terroir de Carapeços, ou seja, a casta Alvarinho.
Todos os vinhos da Quinta de Carapeços são “produzidos com uvas próprias”, pelo que o conceito original, segundo Miguel Abreu, visa “apostar na qualidade dos vinhos, com boa aceitação no mercado”. Nesse sentido, refere, “o papel do enólogo Jorge Sousa Pinto foi fundamental”, pelo seu conhecimento e experiência não apenas na casta, mas igualmente pelo papel desempenhado no que podemos designar uma renovada vaga de vinhos verdes. A experiência e o carácter do enólogo assentaram como uma luva no conceito que os produtores pretendiam oferecer, conseguindo obter uma excepcional regularidade dos seus vinhos desde o lançamento da marca.
Para além disso, foi dada especial atenção à sua “imagem, incluindo a garrafa e o rótulo, que traduz a qualidade do vinho”, até porque, frisou Miguel Abreu, “se o vinho não vale a pena, não há imagem que lhe valha”.

A diversidade do Alvarinho
A Quinta de Carapeços possui um portefólio bastante vasto, incluindo um Alvarinho Escolha, um monocasta Alvarinho e um lote de Alvarinho e Trajadura, nos brancos. A marca serve ainda de guarda-chuva para um rosé, elaborado a partir da casta Espadeiro, bem como um tinto Vinhão. Mais recentemente, em 2008, a empresa decidiu lançar três espumantes: um branco Alvarinho, um rosado Espadeiro e um tinto Vinhão, todos estes Reserva Bruto.
O leque de vinhos baseados em Alvarinho prova a versatilidade da casta, podendo resultar em vinhos complexos, elegantes e untuosos no caso do Escolha, vinhos de grande exuberância aromática e de grande genuinidade e tipicidade regional como o Quinta de Carapeços Alvarinho, ou mesmo vinhos de grande jovialidade e frescura, sem descurar a nobreza que a casta Alvarinho oferece, em conjugação com a irreverência da casta Trajadura.
Mas a grande qualidade do trabalho do enólogo não se fica por aqui. É amplamente merecido o destaque para o tinto Quinta de Carapeços Vinhão, um vinho de grande nível e exuberância aromática. Com notas de frutos bem vincadas no nariz, belíssima cor sangue e grande profundidade e macieza na boca, é um vinho nada adstringente, antes com taninos salientes, fortes, mas bem polidos, exactamente o inverso do que torna o verde tinto, por vezes, imbebível. É com alegria que vemos o lançamento de vinhos com esta qualidade, provando que é possível afastar os estigmas que ainda pendem sobre os consumidores, relegando-os de um produto que pode ser extremamente compensador.
Já o rosé, por sua vez, é um vinho despretensioso, onde brilham as características aromáticas da casta Espadeiro. De reduzido teor alcoólico e nada doce, antes com um bom equilíbrio entre a acidez e o açúcar, este vinho é pontilhado com um leve gás natural, que lhe confere alegria e vivacidade. Um típico – e bem conseguido – vinho de Verão.
A Quinta de Carapeços produz um total médio anual de 34 mil garrafas, das quais 3800 do Escolha, 3400 garrafas do Alvarinho 100%, 12 mil do lote Alvarinho/Trajadura, 10 mil do Rosé e 1200 do tinto.

Novas aventuras em Carapeços
A Quinta de Carapeços apostou no lançamento de uma gama de espumantes, todos eles da colheita de 2005. Segundo Miguel Abreu, esta aventura “começou por ser uma experiência que veio a ter bons resultados”, sendo lançados para o mercado no Natal de 2008. O seu desempenho é visto como “muito positivo”, apesar da sua curta presença no mercado. Elaborado totalmente com uvas da sua produção, segundo o método tradicional, os espumantes da colheita de 2005 sofreram um estágio de 26 meses em garrafa.
Mas a visão dos proprietários da Quinta de Carapeços, juntamente com a capacidade técnica do enólogo, motivaram a realização de uma outra experiência, que terminou no lançamento, em 2005, do primeiro Late Harvest da região e um dos primeiros, se não mesmo o primeiro, rosé. “Foram 1000 garrafas de um vinho obtido a partir de Espadeiro, casta muito resistente à passificação”, com resultados considerados satisfatórios. Por esse motivo, a experiência poderá ser repetida ainda este ano, caso as condições climatéricas assim o proporcionem.
Eventualmente, o futuro poderá trazer a produção e lançamento de um vinho monocasta Azal, típica daquela área, caso “obtenha os patamares de qualidade necessários, para entrar num mercado que possa exigir maiores quantidades”. A produção total da Quinta de Carapeços ronda os 75 mil litros anuais, dos quais cerca de 35 mil são já da casta Azal.

Exportação em crescimento
A segmentação dos vinhos da Quinta de Carapeços está sempre presente na mente dos seus responsáveis, que dessa forma decidiram tomar em mãos a difícil tarefa da distribuição. Apostando no mercado da restauração e garrafeiras seleccionadas, a empresa excluiu “a grande distribuição, apesar de termos recebido algumas propostas, pois é uma guerra onde não queremos entrar, devido ao esmagamento de preços”.
O próprio Miguel Abreu exerce funções sobretudo nos mercados externos. A exportação representa actualmente apenas uma fatia residual das vendas, na ordem dos 3%, com Suíça e Alemanha a serem os mercados principais.
Porém, as perspectivas de curto prazo apontam para o aumento desta quota para Inglaterra, “apesar de ser um mercado complicado, sobretudo devido às elevadas taxas aí praticadas, que encarecem sobremaneira os vinhos”, bem como os mercados asiáticos, nomeadamente o Japão, “onde a aceitação dos vinhos verdes tem crescido de forma importante”, revelou. Novos destinos para um conjunto de vinhos de grande nível, onde a herança familiar não se apresenta incompatível com uma visão optimista do futuro. •