espverdeprovam_76

Especial Vinhos Verdes
PROVAM (PDF)
Os 10 de Monção

Uma sociedade por quotas que reúne dez produtores é a base de sustentação de uma das empresas mais dinâmicas da sub-região de Monção e Melgaço. A Provam continua a dar mostras da qualidade e irreverência passíveis de obter na produção de vinhos com base em Alvarinho.

Reportagem: Marc Barros

Uma aposta arrojada na produção de vinhos baseados na casta Alvarinho esteve na base da criação da Provam – Produtores de Vinho Alvarinho de Monção – em 1992. Decididos a produzir apenas vinhos brancos num volume considerável, numa altura em que o mercado estava a descobrir as virtudes da casta e apenas a Adega Cooperativa de Monção trabalhava grandes quantidades, dez viticultores daquela sub-região uniram esforços. Desta forma, sob a batuta do enólogo Anselmo Mendes, avançaram para a constituição de uma sociedade por quotas e a construção de uma adega moderna e funcional para produção de vinhos elaborados com base nas castas Alvarinho e Trajadura.
O enólogo José Augusto Domingues acompanhou os últimos anos deste já rico percurso, que conheceu algumas mudanças. A certo ponto, um dos produtores decidiu entregar a quota à sua filha pelo que, actualmente, entre os mesmos dez sócios, conta-se já uma senhora.
Assim, com uma capacidade instalada de 460 mil litros, são das vinhas dos sócios que são colhidas 25% das uvas laboradas pela Provam, sendo as restantes adquiridas a viticultores da sub-região. Todas estas vinhas “foram seleccionadas pelo seu potencial vitícola e enológico e durante cinco anos foram também estudadas de modo a serem escolhidas as melhores para construção de bons e diversificados vinhos Alvarinho”.
O conceito da Provam abrange não apenas a vinificação de uvas dos seus produtores, mas também a aquisição de uvas. José Augusto Domingues destaca, porém, as virtudes do conceito adoptado pois, “aquando da entrega da uva, desde que esta cumpra todos os requisitos fitossanitários e de qualidade, o produtor é imediatamente pago”. Na última colheita, o preço da uva Alvarinho ascendeu a 1,05 euros/kg e a Trajadura a 0,55 euros/kg. Esta diferença explica-se pelo facto de “o rendimento por quilo de uva e mosto por hectare” ser mais reduzido no Alvarinho. “É um grande esforço que a empresa faz, mas resulta para todos os envolvidos”.
A tecnologia da adega permite potenciar o valor enológico das castas desde a marcação das vindimas vinha a vinha, passando por colheita feita exclusivamente em caixas furadas de 20 quilos, até prensagem suave com opção de maceração pelicular, arrefecimento do mosto e temperatura de fermentação controlada.
Com uma área própria de 40 hectares, a Provam vinifica anualmente cerca de 400 mil litros de Alvarinho e Trajadura, num total de 500 mil garrafas. Deste volume, cerca de 100 mil litros de Alvarinho são direccionados para a marca Portal do Fidalgo, 10 mil para base de espumante, para além de um pequeno lote de 6 mil litros para fermentar em madeira, a que se juntam outros 100 mil litros de Alvarinho e Trajadura. “Há ainda um outro lote, cuja percentagem de Alvarinho é mais reduzida, que ronda os 200 mil litros”, explica José Augusto Domingues.

O segredo dos vinhos
Nasce assim um leque diversificado de produtos, “a pensar nos diferentes gostos e diferentes mercados”. A marca mais emblemática é o Portal do Fidalgo. Elaborado com 100% Alvarinho, é um vinho “que não sai muito cedo para o mercado, ao contrário da tendência geral do vinho verde. Fica seis meses em batonnage regular em inox, de cariz semanal. A evolução lenta dá-nos a certeza de um vinho mais encorpado, com estrutura, untuoso, mas com um carácter frutado e floral”.
Por sua vez, o Varanda do Conde resulta de “um lote de 70% Alvarinho e 30% Trajadura”. Este é um vinho direccionado “para a gama do vinho verde, mais fácil e fresco”, mas sofre também “seis meses de estágio em borras para lhe conferir estabilidade”.
Direccionado para a restauração, surge a marca P. Elaborado com cerca de 30% Alvarinho e 70% Trajadura. Trata-se de “um vinho fresco e frutado, com excelente relação preço/qualidade, nada ácido, não é enjoativo nem doce”. Desta marca saem anualmente cerca de 260 mil garrafas.
Porém, a grande “coqueluche”, como lhe chama o enólogo, é o Vinha Antiga, um Escolha feito a partir de uvas dos sócios, “vinificadas separadamente, com decantação em inox a partir de mosto de lágrima e fermentado em madeira durante cerca de cinco a seis meses”. O enólogo explica que este período nunca é definitivo, variando “em função da qualidade do vinho e da sua relação com a madeira”. Por outro lado, é feita uma selecção de barricas, “a partir de ensaios de barricas de carvalho velho, com cinco anos de utilização. Evitamos barricas novas, que não marquem o vinho em demasia, procurando a melhor conjugação entre a fruta e o aroma com os taninos da madeira. Por isso, dos seis mil litros estagiados, são feitas cerca de seis mil garrafas, resultando alguma perda”.

O prazer do espumante
Com o crescente reconhecimento da valia da casta Alvarinho e da sua polivalência enquanto “matéria-prima” ao dispor dos enólogos, foi inevitável o aparecimento no mercado de várias propostas em torno da espumantização destes vinhos. A Provam não constituiu excepção, com o lançamento, em 2000, do espumante Coto de Mamoelas. Segundo José Augusto Domingues, o objectivo principal foi o de “estimular a vocação gastronómica do espumante, mais do que um mero vinho de celebração”. E refere que “o mercado já começa a aceitar este tipo de produtos, como se pode ver pelo aumento do número de espumantes que os produtores da região lançaram nos últimos anos”.
O Coto de Mamoelas resulta de “um dos primeiros ensaios feitos na região de espumantização da casta” e é elaborado com 100% Alvarinho. Trata-se, explicou, “de um espumante diferente de todos os outros, pois possui uma frescura muito particular, com notas frutadas da casta, oriundas do estágio com as borras, a que se juntam algumas notas mais confitadas características do espumante, e com um volume de boca maior”.
Em 2002, a Provam entrou num outro segmento de mercado, “mais económico, com uma versão do Varanda do Conde”. Trata-se do espumante Castas de Monção, com 70% Alvarinho e 30% Trajadura, “mais simples em boca, mas muito agradável e fácil, com a frescura da Trajadura, mas um bruto muito equilibrado”. Destes dois espumantes são lançadas anualmente 35 mil garrafas, revelando o ecletismo de uma empresa que se assume como vocacionada para os mercados onde se insere, mas não esquece as suas origens nem, muito menos, a nobreza dos vinhos que produz. •

Mercados diversificados
O mercado, sublinha José Augusto Domingues, tem respondido da melhor forma aos vinhos que a Provam coloca, não apenas em Portugal, mas também no exterior. A exportação representa já cerca de 15% do volume de vendas global. “Temos registado um crescimento sustentado mas com uma estagnação no ano passado, dada a conjuntura”. A diversificação de destinos é evidente: Canadá, EUA, Brasil, Macau, Espanha, Andorra, França, Inglaterra, Noruega, Luxemburgo, Holanda ou Suíça contam-se entre os países de exportação. “Já este anos entramos em Cabo Verde, no sector da hotelaria”, adianta o enólogo. “Não exportamos a quantidade desejada, mas temos uma diversidade de mercados que nos agrada”.
Por sua vez, no mercado nacional destacam-se o canal Horeca. “Fazemos a nossa distribuição na zona Norte e temos distribuidores no resto do país”. A Provam tem ainda presença na grande distribuição com uma marca própria onde consegue, com um vinho Alvarinho de excelente relação qualidade/preço, obter uma parte significativa dos seus proveitos económicos. •