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Especial – Vinhos Verdes
Entrevista a Manuel Pinheiro (PDF)
 – Presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV)

“É preferível uma vitória em equipa que uma derrota em solidão”

O aumento da presença nos mercados externos e a captação de investidores de outras regiões nacionais contam-se entre os desígnios do presidente da região dos vinhos verdes.
Manuel Pinheiro revela ainda as principais alterações introduzidas pelo novo estatuto da região.

Entrevista: Marc Barros

É uma região em franco crescimento
A região dos vinhos verdes tem melhorado anualmente o seu desempenho, o que não a isenta de algumas contradições. Os últimos dados divulgados pelo índice AC Nielsen referem que, em 2008, a quota de mercado dos vinhos verdes foi de 22,7%, num total de 20 milhões de litros transaccionados, e 19,6% em valor, que representa 71,5 milhões de euros. O presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), Manuel Pinheiro, sublinha que este índice não cobre todos os estabelecimentos do país, mas demonstra que a região está firme na segunda posição a nível nacional e, curiosamente, em primeiro a nível de vinhos com Denominação de Origem, já que o Alentejo arrebata a liderança à custa dos vinhos regionais.
Esta performance tem sido de “crescimento nos últimos cinco anos”. Porém, regista uma quebra de produção nos últimos anos e, consequentemente, baixa de stocks. “Devemos ser das poucas regiões europeias onde se verifica falta de vinho”, o que acarreta várias consequências: desde logo, o “aumento dos preços – há dois anos o vinho a granel era vendido a 20 cêntimos/litro e hoje está a quase um euro”, afiança. “A região tem uma falta estrutural de vinho”, de onde resulta importância acrescida ao novo estatuto da região (ver caixa).
Por outro lado, as candidaturas ao programa Vitis, que financia a reconversão da vinha, na região dos vinhos verdes, foram “quase metade do total nacional”, num conjunto de 1100 hectares. Ou seja, esclarece aquele responsável, ”a produção valorizou-se imenso e há interesse crescente em investir na região”. Em 2009, apesar da conjuntura, “não se antevê qualquer razão para que o preço da uva possa baixar”. Ao contrário, o programa de arranque de vinha “teve pouco impacto”.

Apelo à união
Em contrapartida, alerta, poderá verificar-se o risco de o viticultor, ao ver a sua produção valorizada, possa cair na tentação de criar a sua própria marca, atomizando ainda mais um mercado com cerca de 2000 marcas diferentes e 600 produtores/engarrafadores.
“A região precisa de menos marcas e marcas mais fortes – por isso apelamos a um entendimento entre produtores. A região tem já uma importante união de cooperativas (Vercoope), sendo que as restantes estão a tentar integrar-se num segundo grupo, o que me parece positivo. Ao mesmo tempo, as sociedades comerciais terão que se juntar, pois a distribuição está cada vez mais concentrada e temos que responder a esse movimento com força”.
No que se refere às cooperativas, num total de 20, assiste-se a “um movimento tendente à criação de parcerias e há projectos que unem estruturas nas áreas comercial, marketing e de compras”. Manuel Pinheiro recorda que “o movimento cooperativo faz 50 anos, com união de produtores e consolidação, mas é preciso dar um novo passo, no sentido do ganho de massa crítica de gestão e capacidade comercial”. Por outro lado, desaconselha a criação de novos centros de vinificação. “É preciso investir no início e no fim da fileira, ou seja, em novas vinhas e melhores vinhas e na vertente comercial”, aponta.
Quanto aos privados, o presidente da CVRVV reconhece que o número de engarrafadores diminuirá, seja por força do mercado (com consequências mais dolorosas), seja através de concentração de esforços. “Incentivamos os produtores à união; nas acções de marketing que desenvolvemos promovemos presenças comuns, pois acreditamos que é melhor uma vitória em equipa que uma derrota em solidão. Mas essa é uma análise que terá que ser feita pelos produtores”.

A necessidade de exportar
Apesar da posição confortável que a região detém a nível interno, “esta não crescerá em termos estruturais. Por isso, quem quiser crescer terá que o fazer no exterior, o que implica uma visão mais profissional e de rigor, respondendo às exigências que os mercados externos colocam, que são diferentes do mercado interno”, disse Manuel Pinheiro.
O vinho verde é a segunda região que mais exporta em Portugal. Em 2008, o valor das exportações ascendeu a 26 milhões de euros, representando 18% do volume global de vendas da região, para mais de 60 países. Ou seja, trata-se de “um volume interessante que mostra que o vinho verde não é um desconhecido no Mundo”.
Por outro lado, “mais de metade do nosso orçamento de marketing destina-se a promoção externa, mas infelizmente poucos agentes económicos participam e poucos encaram a exportação como uma necessidade”. Porém, disse, “os primeiros três meses de 2009 deram-nos uma lição admirável”, pois o fraco desempenho a nível interno foi compensado com “um forte crescimento em valor na exportação”.
Ou seja, “as empresas que estão dependentes de um só cliente, que é Portugal, devem diversificar”. Manuel Pinheiro acredita que a região pode ser uma “locomotiva de exportação do país”, mas é preciso um maior volume de investimento. Daí que a CVRVV esteja a desenvolver esforços no sentido da captação de investimentos na região dos vinhos verdes por parte de empresas oriundas de outras regiões do país.
Até porque, nos mercados externos, o vinho verde é visto como um produto único, leve, fresco, jovem, pouco calórico e responsável, inscrevendo-se numa tendência de consumo global de vinhos brancos que pode alavancar um crescimento das vendas nesses países, mesmo englobando conjuntos de vinhos de produtores de outras regiões nacionais. “Não vejo por que razão uma empresa do Alentejo, do Dão ou do Douro não possa ter um vinho verde no seu portefólio, como complemento de oferta”. Deu o exemplo da empresa José Maria da Fonseca, que “regressou ao vinho verde e, no primeiro ano no mercado americano, entrou para o top de vendas”. •

Vinhos Verdes – Uma região heterogénea
A actual Região Demarcada dos Vinhos Verdes estende-se por todo o noroeste do país, na zona tradicionalmente conhecida como Entre-Douro-e-Minho. Tem como limites a norte o rio Minho (fronteira com a Galiza), a nascente e a sul zonas montanhosas que constituem a separação natural entre o Entre-Douro-e-Minho Atlântico e as zonas do país mais interiores de características mais mediterrânicas, e por último o Oceano Atlântico que constitui o seu limite a poente.
Orograficamente, a região apresenta-se como “um vasto anfiteatro que, da orla marítima, se eleva gradualmente para o interior”, no dizer de Amorim Girão, expondo toda a zona à influência do oceano Atlântico, fenómeno reforçado pela orientação dos vales dos principais rios que, correndo de nascente para poente, facilitam a penetração dos ventos marítimos.
As vinhas, que se caracterizam pela sua grande expansão vegetativa, em formas diversas de condução, ocupam uma área de 35 mil hectares e correspondem a 15% da área vitícola nacional. A maior parte da região assenta em formações graníticas, constituindo excepções duas estreitas faixas que a atravessam no sentido NO-SE, uma do silúrico, onde aparecem formações carboníferas e de lousa, e outra de xistos do arcaico.
O solo tem, na maior parte da região, origem na desagregação do granito. Caracteriza-se, regra geral, por apresentar pouca profundidade, texturas predominantemente arenosas a franco-arenosas (ligeiras), acidez naturalmente elevada e pobreza em fósforo.
Os níveis de fertilidade são naturalmente baixos, como facilmente se depreende das características apontadas acima. No entanto, dada a natureza dos sistemas agrários praticados desde tempos recuados na região, os solos apresentam uma fertilidade adquirida considerável, que permitiu durante séculos suportar as mais altas densidades populacionais do país.
O segredo desta fertilidade pode resumir-se a dois principais tipos de intervenções do homem nas condições naturais: o controlo do relevo pela construção de socalcos e as incorporações intensivas e persistentes de matéria orgânica no solo.
A região dos vinhos verdes, como a maior do país em termos territoriais, engloba nove sub-regiões: Monção e Melgaço, Lima, Basto, Cávado, Ave, Sousa, Paiva, Amarante e Baião. Cada uma destas sub-regiões apresenta grandes diversidades, quer ao nível climatérico, quer de solos, quer de castas e mesmo (mas numa perspectiva etnográfica), de sistemas de condução. Daí que as palavras mais adequadas para descrever (e descobrir) a região sejam heterogeneidade e tipicidade.•

Concurso de gastronomia e vinho verde
A Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) lançou a segunda edição do Concurso de Gastronomia e Vinhos Verdes. Esta iniciativa pretende promover as harmonizações do vinho verde com a gastronomia regional, portuguesa e internacional e incentivar o consumo de vinhos da região.
As inscrições decorrem até ao dia 30 de Junho, data até quando todos os restaurantes de Portugal Continental podem apresentar-se a concurso, escolhendo uma das três categorias: cozinha de autor, em que a “assinatura” do cozinheiro chefe está patente na elaboração da ementa; cozinha internacional, cozinha específica de uma região do mundo; ou cozinha tradicional, cozinha típica portuguesa/regional.
A missão dos concorrentes é criar um menu – entrada, prato principal e sobremesa – que combine na perfeição com o sabor do vinho verde. São admitidas harmonizações com vinho verde branco, tinto, rosado, espumante, aguardente de vinho da Região dos Vinhos Verdes e aguardente bagaceira da Região dos Vinhos Verdes.
A avaliação das candidaturas será dividida em duas fases. Numa primeira fase, todas as ementas serão avaliadas de acordo com critérios como a diversidade dos Vinhos Verdes Recomendados, a harmonização gustativa e a apresentação (por fotografia).
As seis ementas melhor classificadas por categoria de restaurante passam à segunda fase, na qual a avaliação é efectuada por um júri. Este desloca-se até aos restaurantes apurados, onde avalia a ementa preparada com base em critérios como a apreciação gustativa, a harmonia com o vinho (temperatura do vinho, adaptação e equilíbrio da comida com os vinhos) e a harmonia total da ementa. Os prémios são atribuídos de acordo com a pontuação que os restaurantes obtêm nesta segunda fase – Diploma de Ouro (100 a 95 pontos), Diploma de Prata (94 a 85 pontos), Diploma de Bronze (84 a 75 pontos) e Diploma de Participação (menos de 75 pontos). •

Aprovado aumento de produção de vinhas novas e reconvertidas
No âmbito da reforma das Comissões Vitivinícolas Regionais, onde a CVRVV assumiu papel pioneiro, ao ter sido a primeira entidade certificadora aprovada (com a possibilidade de apoiar a CVR de Trás-os-Montes ainda em aberto), a região dos vinhos verdes está prestes a dar o segundo passo.Este envolve a aprovação e publicação do novo estatuto da região, o qual estabelece as regras de produção. Manuel Pinheiro espera ver esta legislação publicada e em vigor ainda em Junho. Entre as novidades, contam-se o lançamento da categoria Colheita Tardia, “um produto de nicho, mas que pode ser relevante”.
Porém, a principal alteração envolve a possibilidade de subida do rendimento por hectare das vinhas novas ou reconvertidas, passando dos actuais 10.600 Kgs/ha para 13.500 kgs/ha. Este aumento, garantiu Manuel Pinheiro, poderá diminuir o défice de vinhos que a região padece e tornar as vinhas mais rentáveis.
O risco de diminuição da qualidade da uva “tem sido discutido, mas os técnicos apontam para que este valor está dentro do aceitável qualitativamente”. Poderão, no entanto, ocorrer variações em função de localizações e castas. Desta forma, as vinhas que “queiram entrar nesse primeiro escalão terão que ser fiscalizadas anualmente”, processo que poderá incluir a contratação externa de técnicos para proceder a este trabalho extra. Em sentido inverso, as vinhas tradicionais verão a sua capacidade reduzida para 7.500 kgs/ha. •