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Garrafeira D’Almada
Uma pequena loja repleta de grandes vinhos

O espaço é curto, mas a oferta é grande e de qualidade. A Garrafeira D’Almada dispõe de cerca de 900 referências de vinhos, boa parte deles de gama alta, e alguns difíceis de encontrar noutros locais. Por isso, há quem não se importe de atravessar o Tejo para a visitar.

Reportagem: Nuno Xavier

Tal como os homens, também as lojas não se medem aos palmos. A prova disso é a Garrafeira D’Almada, um estabelecimento com escassos 16 metros quadrados que, apesar das reduzidas dimensões, alberga um valioso espólio de vinhos e bebidas espirituosas que o faz ser visitado regulamente por muitos e exigentes apreciadores, alguns dos quais provenientes da margem norte do Tejo.
O responsável pela proeza é Alexandre Elbling, que no final da década de 1980 criou a empresa Garrafeira D’Almada, inicialmente dedicada em exclusivo à venda de vinho a retalho, sobretudo para restaurantes. Em 1996, abria a loja de venda ao público, na Avenida Prof. Egas Moniz, situada na zona central da cidade que dá o nome à garrafeira.
Desde então, a loja angariou um conjunto de centenas de clientes fiéis, devido à política posta em prática pelo proprietário: praticar preços inferiores aos dos estabelecimentos semelhantes, estar atento às novidades que vão surgindo no mercado e dar uma atenção especial a cada cliente – o que implica, por exemplo, conhecer os seus gostos e preferências, ou empenhar-se em satisfazer todos os pedidos, por mais difícil que seja encontrar um determinado vinho.
Graças a esta política, há muito que a Garrafeira D’Almada expandiu o seu universo de clientes para além da Margem Sul do Tejo. “Temos clientes de Cascais, do Estoril, de Lisboa… Alguns vêm cá há anos”, afirma Alexandre Elbling. Há ainda muitos clientes que já nem precisam de deslocar-se à garrafeira, uma vez que recebem regulamente por e-mail informações sobre as novidades disponíveis. Estas informações são enviadas para uma lista com centenas de contactos de clientes, parte dos quais opta por fazer as suas compras também através do correio electrónico.

Topos de gama mais procurados

Embora pequena, a Garrafeira D’Almada, com as suas quatro paredes literalmente forradas de garrafas, aloja “entre 800 e 900 referências, só de vinhos”. A estas juntam-se mais umas largas dezenas de marcas de outras bebidas, com destaque para uma notável selecção de uísques de malte, composta por cerca de 50 referências, algumas das quais raras no mercado português – o que justifica que esta seja outra área em que o estabelecimento tem clientes fiéis. Na loja, há ainda espaço para uma prateleira dedicada aos produtos gourmet, como azeites, ovas de sardinha, doce de figo ou flor de sal.
Dos vinhos, “o que se vende melhor são os ‘mitos’”, diz Alexandre Elbling, referindo-se ao Pêra-Manca, ao Barca Velha e ao Redoma Reserva. Também os outros topos de gama registam boas vendas, porque “quem se habitua a uma certa qualidade depois não quer vinhos com menos qualidade”. A garrafeira também dispõe de uma grande selecção de vinhos de gama média, mas as vendas são menores. A este propósito, e tendo em conta a crise económica que Portugal e a generalidade dos países do mundo atravessam, o proprietário resume o que se passou nos meses mais recentes:
“Os clientes não deixam de comprar vinhos de gama alta, mas compram em menores quantidades”.
Este cenário tem, no entanto, tendência a alterar-se devido à política de preços praticada por produtores e distribuidores. “Pinta-se demais a manta sobre os custos de produção e os produtores e distribuidores aproveitam para subir os preços”. O resultado é que se encontram à venda “vinhos a 30 e 40 euros que não têm qualidade” que justifique este valor. Alexandre Elbling deixa, por isso, um aviso: “Por enquanto, os vinhos que aumentam mais de preço são os que se vendem mais depressa. Mas um dia destes isto acaba!”.
Aliás, prossegue o empresário, há já casos de “vinhos que se vendiam bem há quatro ou cinco anos e hoje ninguém os quer”. Uma situação que resulta do aumento exagerado dos preços, mas mais ainda da “degradação da imagem do produto”. Também esta degradação é,
na opinião de Alexandre Elbling,
da responsabilidade de produtores e distribuidores, que “metem os vinhos em tudo quanto é sítio” – nomeadamente nas grandes superfícies, onde a forma como os produtos são expostos e tratados leva a que dificilmente uma marca consiga manter uma imagem diferenciada das restantes.
As criticas do fundador da Garrafeira D’Almada dirigem-se em particular ao que acontece com os preços dos vinhos brancos, que não correspondem à qualidade da maioria dos produtos. “Temos cinco ou seis brancos realmente bons”, afirma, justificando o facto de a esmagadora maioria dos vinhos presentes na sua loja serem tintos. E, ainda sobre os preços, desabafa: “Há produtores que parece que nunca beberam os brancos da Nova Zelândia ou de França” – vinhos que, aliás, a garrafeira também tem para venda.

Douro lidera procura

No que toca a regiões, a mais procurada é a do Douro, embora a garrafeira se situe a sul do Tejo. De resto, Alexandre Elbling não tem dúvidas de que o Douro é a região que, pelo seu terroir, tem potencial para produzir melhores vinhos. Sobre o Alentejo, diz que as características do solo e o clima levam a que a maioria dos vinhos sejam “parecidos uns com os outros”. Excluem-se deste cenário os topos de gama, que são precisamente os que mais se vendem, já que os clientes da garrafeira são, na generalidade, pessoas exigentes e informadas. Outra região que regista uma boa procura, também ao nível dos topos de gama, é a do Dão.
Nas prateleiras mais elevadas da Garrafeira D’Almada pode admirar-se uma interessante colecção de garrafas de vinho do Porto, outro produto que se vende em boas quantidades, e mais uma vez com destaque para os topos de gama.
O mesmo se passa com os moscatéis, categoria de que a garrafeira conserva alguns exemplares que já dificilmente se encontram no mercado.
Além das garrafas em exposição, Alexandre Elbling tem ainda, na sua colecção particular, “mais de 1000 garrafas de moscatel e 2000 de Porto”, todas de gama alta, que em princípio não se destinam à venda. O que não significa que possam ser transaccionadas, caso apareça algum interessado. •