catralvos

Sociedade Agrícola Casal do Tojo
Quinta de Catralvos

Um empreendimento modelar

Manuel Beatriz, um engenheiro civil bem sucedido, procurava uma segunda casa na zona de Azeitão. Encontrou uma que, por acaso, incluía terrenos com vinha. Daí até à paixão pela vitivinicultura foi apenas uma questão de tempo. E assim nasceu a Quinta de Catralvos.

Reportagem J. E. Aparício e Nuno Xavier • texto Nuno Xavier

Enquadrada pela magnífica paisagem do Parque Natural da Arrábida, na zona de Azeitão, encontra-se a Quinta de Catralvos, um empreendimento que alia a produção de vinho ao enoturismo e à organização de eventos vários. Para quem visita a propriedade, torna-se evidente que se trata de um projecto modelar, em cuja concepção e execução foi dada atenção a cada pormenor. Mas, curiosamente, a existência da Quinta de Catralvos resulta de “um acidente”, como conta o seu proprietário, Manuel Arroja Beatriz.
Formado em engenharia civil, Manuel Beatriz dedicou grande parte da sua vida a este sector. Fundou a primeira empresa em 1958, antes ainda de acabar o curso, e desde então criou várias outras, sempre ligadas à área dos materiais, como isolamentos e pré-fabricados. Duas das suas empresas chegaram mesmo a ser líderes de mercado, afirma, sem esconder algum orgulho pelo feito. Até que, na década de 1980, decidiu adquirir uma segunda casa de habitação. A zona eleita foi, desde o início, a de Azeitão, pela qual o engenheiro civil há muito sentia uma particular atracção. Informado sobre uma propriedade que se encontrava à venda precisamente nesta zona, Manuel Beatriz adquire-a em 1984. Quis o destino que a propriedade em questão, além da casa, integrasse uma vasta área de terreno com vinha. E assim começava, sem que sequer o seu proprietário o soubesse, a história do actual empreendimento da Quinta de Catralvos.

Oito anos à espera de aprovação

Vendo-se na posse, ano após ano, de várias toneladas de uvas, Manuel Beatriz optou inicialmente por vender a produção à empresa José Maria da Fonseca. Mas, com o decorrer do tempo, foi desenvolvendo gradualmente um gosto pela vinha. Um “entusiasmo” – como o próprio o qualifica – que fermentou até o levar a decidir-se por uma alteração radical na sua área de negócios, com a criação da Sociedade Agrícola Casal do Tojo, detentora da marca Quinta de Catralvos.
Tomada a decisão, pensados os pormenores do empreendimento, realizados os estudos de mercado, Manuel Beatriz entregou em 1992 às autoridades o processo para obter as licenças necessárias à concretização do seu novo projecto. No entanto, devido aos habituais entraves burocráticos – mais complexos ainda neste caso particular, por se tratar de um empreendimento situado numa área protegida -, a aprovação só chegaria oito anos depois. No ano 2000, o empresário pôde finalmente dar início às obras de adaptação e ampliação do edifício, que ficaram concluídas em 2002 – ano em que as uvas colhidas na propriedade se destinaram já à produção dos seus próprios vinhos.
Sobre o longo período em que aguardou pelo licenciamento, Manuel Beatriz diz que teve um aspecto positivo: “Deu-me tempo para maturar o projecto”. Mas teve também um aspecto negativo: “Perdi uma grande oportunidade por não ter começado na década de 90”. Explicitando, o empresário afirma que o projecto, “concebido para muita qualidade, hoje não é rentável”, uma vez que “arrancou com os mercados completamente alterados em relação ao previsto nos estudos” efectuados na época em que foi pedido o licenciamento.
Por outro lado, Manuel Beatriz descobriu que há uma diferença abissal entre o sector dos materiais de contrução e o mundo dos vinhos. “Tive um choque tremendo ao ver os números, a diferença em termos de produção per capita”, confessa o produtor, referindo-se à comparação entre as duas áreas de negócio. Uma diferença que passa, em grande medida, pela questão da comercialização, que no caso dos vinhos “está concentrada nas grandes superfícies” – as quais detêm, como é do conhecimento público, um enorme poder negocial na relação com os fornecedores.
A solução para rentabilizar o comércio dos vinhos passa, assim, por procurar novos clientes, nomeadamente no mercado externo. Depois de já o ter tentado isoladamente em 2006, sem grande sucesso, Manuel Beatriz aposta agora numa parceria com o conceituado médico dentista Paulo Malo para fazer chegar as suas marcas a diversos países (ver caixa).

Controlar todo o processo para garantir a qualidade

Classificadas como DOC ou Vinho Regional Terras do Sado, são cinco as marcas do portfólio de vinhos Catralvos: Monte da Charca (branco e tinto), Lisa (branco, tinto e rosé), Amo-te (tinto), Catralvos (branco e tinto) e Marquês de Lavradio (tinto). Aos vinhos de mesa junta-se ainda um generoso, o Catralvos Moscatel de Setúbal DOC 5 Anos, que foi engarrafado pela primeira vez em 2008, depois de ter cumprido os cinco anos de estágio em barricas que anteriormente serviram para envelhecer whisky. Todas com a assinatura dos enólogos Jorge Rosa Santos (residente) e Nuno Cancela de Abreu (consultor), estas marcas totalizam anualmente uma média de 700 a 750 mil litros de vinho, número que este ano – tal como aconteceu por todo o país – caiu para cerca de 500 mil.
As uvas que dão origem aos vinhos brancos são produzidas na própria Quinta de Catralvos, que dispõe de 20 hectares de vinha com as castas Moscatel de Setúbal, Fernão Pires, Arinto e Chardonnay. A propriedade tem ainda algumas uvas tintas, mas está em curso um plano de reconversão que levará à sua substituição por castas brancas, uma vez que, de acordo com Manuel Beatriz, o microclima existente no local proporciona às uvas brancas “uma acidez fantástica”.
No âmbito deste plano, elaborado com base em experiências em laboratório para avaliar a aptidão de diversas castas, foram já feitas em 2008 enxertias de Verdelho e serão feitas no corrente ano outras de Alvarinho.
Os vinhos tintos são elaborados com uvas provenientes do Monte da Charca, situado na freguesia de Canha, Montijo, onde se cultivam as castas Castelão (ou Piriquita, como é conhecida na zona), Syrah, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional, Aragonês e Alicante Bouschet. Esta propriedade, com 50 hectares de vinha, resulta da junção de vários terrenos que Manuel Beatriz foi adquirindo ao longo do tempo. O primeiro dos terrenos foi comprado em 1999 (antes ainda, portanto, do arranque do empreendimento da Quinta de Catralvos) e a ele se juntaram outros nos anos seguintes. Desta forma, Manuel Beatriz cumpria um dos objectivos traçados desde o início: não comprar uvas a outros produtores. “Queria controlar o processo todo, para garantir a qualidade, e precisava de ter um milhão de quilos de uvas, que era a dimensão optimizada para atingir os objectivos, segundo os estudos de mercado”.
Visitar a Quinta de Catralvos permite perceber que, como era seu desejo, o produtor controla todo o processo. As instalações – que foram já ampliadas duas vezes desde a inauguração – incluem uma ampla zona de vinificação, equipada com moderna tecnologia e com capacidade para fermentar um milhão de kg de uvas, um armazém que pode albergar 1,2 milhões de litros de vinho, uma (também ampla) zona de estágio e uma linha de engarrafamento. Quanto à zona de estágio (onde envelhecem o Moscatel, em barricas já usadas para whisky e para Armagnac, e alguns tintos, em barricas novas), Manuel Beatriz valeu-se da sua experiência como engenheiro civil para situá-la no subsolo, sob um prado criado para o efeito e que é regado nos dias mais quentes, garantindo assim uma variação térmica mínima ao longo de todo o ano.
Mas para garantir a qualidade do vinho não basta investir numa boa adega. O controlo do processo começa logo no fruto, pelo que as vinhas estão equipadas com o sistema de rega gota-a-gota, a vindima é mecanizada e a cultura obedece aos requisitos da protecção integrada.

Diferentes espaços para diferentes necessidades

As actividades da Quinta de Catralvos não se resumem, porém, à produção de vinho. O empreendimento tem também, desde 2005, uma valência de enoturismo, disponibilizando cinco quartos para quem queira conhecer de perto o dia-a-dia de uma exploração vitivinícola, e ainda uma piscina ao ar livre destinada aos hóspedes. O edifício, com dois pisos, integra ainda uma loja para venda de vinho aos visitantes e um salão, com capacidade para 500 pessoas sentadas e vista para o interior da adega, onde se realizam diversos tipos de eventos, de casamentos a reuniões de quadros de empresas ou apresentações de novos produtos. Defronte da entrada do salão, pode desfrutar-se de um simpático terreiro (o Pátio das Ânforas) enquadrado por um alpendre, e de um relvado, ambos igualmente disponíveis para os mais diversos eventos. Por último, há também uma sala mais pequena, onde já funcionou um restaurante e que actualmente é utilizada para realizar provas e cursos de vinho ou para reuniões de grupos mais reduzidos (até cerca de 70 pessoas).
O serviço destes espaços é garantido pela equipa de cozinha, que, além de várias ementas específicas destinadas a eventos de maior dimensão, oferece os chamados “menus enogastronómicos”, que consistem em cinco pratos e cinco vinhos ou sete pratos e sete vinhos.
Também o Monte da Charca, no concelho do Montijo, tem uma valência turística, com um total de oito quartos, neste caso dedicados ao turismo rural. •

Catralvos na via da internacionalização parceria com… um dentista

A principal razão pela qual o projecto da Quinta de Catralvos não conseguiu ainda atingir os seus objectivos é a actual conjuntura, pouco favorável à comercialização dos vinhos em condições de assegurar a rentabilidade do empreendimento. Num mercado em larga medida dominado pelas grandes superfícies, Manuel Arroja Beatriz (tal como muitos outros produtores) vê-se forçado a aceitar as leis impostas por estas empresas, uma vez que a quantidade de vinho que produz não lhe permite entrar no catálogo das distribuidoras que operam a nível nacional.
Desde a sua fundação, a Sociedade Agrícola Casal do Tojo (detentora do empreendimento e da marca Quinta de Catralvos) tem tentado fazer face à situação valendo-se da venda directa (através da sua própria equipa de comerciais) e de contratos com pequenos distribuidores locais, que fazem chegar os produtos a clientes do canal Horeca (hotelaria, restauração e cafés). A empresa participou ainda, juntamente com outros quatro produtores de outras tantas regiões vinícolas, na criação da distribuidora Discover, que não viria, porém, a atingir os objectivos inicialmente delineados.
Neste cenário, Manuel Beatriz entende que a solução passa pela exportação. Já em 2006 fez uma primeira tentativa de penetração em mercados externos, nomeadamente nos Estados Unidos e em Angola, e também, em menor escala, em França e no Reino Unido. Mas, exceptuando o caso de Angola – onde os vinhos Catralvos estão “bem implantados” -, a experiência ficou mais uma vez aquém dos resultados pretendidos.
O empresário gizou então uma nova estratégia para contornar as dificuldades de penetrar em mercados distantes e, na generalidade dos casos, com características muito diferentes do português. “Comecei a pensar num parceiro. Alguém de fora do mundo dos vinhos, mas que estivesse internacionalizado e tivesse preocupação com a qualidade”. Acabou por encontrá-lo num amigo de há muito, o médico dentista Paulo Malo, proprietário da Malo Clinic, o maior centro de implantologia e reabilitação oral fixa do mundo, situado em Lisboa. Com o seu Malo Group, o médico está presente – através de clínicas, centro de spa e outros estabelecimentos – em 13 países, entre os quais os Estados Unidos, Marrocos, Brasil, China, Rússia e Austrália.
Sobre a circunstância de ter escolhido um parceiro de uma área de actividade tão distinta da vinicultura, Manuel Beatriz explica: “Naturalmente, não quero que as clínicas vendam vinho”. A intenção do empresário é tirar partido do facto de Paulo Malo ter nos diferentes locais equipas que conhecem os respectivos mercados, e por isso podem ter um papel determinante na internacionalização dos vinhos Catralvos.
O primeiro passo da parceria foi já dado em Dezembro, com a criação da firma Malo-Tojo Estates, Lda., à qual a Sociedade Agrícola Casal do Tojo cedeu os direitos de exploração das suas marcas, da sua adega, do enoturismo, etc. Agora, resta esperar que “a revolução” – como lhe chama Manuel Beatriz – comece a dar frutos. •