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A experiência e sabedoria do Vinho do Porto
É um prazer e um privilégio conversar com alguém assim. Só a experiência e dedicação ao sector do vinho do Porto podem criar o distanciamento e a sabedoria necessárias para convicções e opiniões tão profundas. O enólogo Martins Alves, director técnico da Gran Cruz e consultor da Sogevinus, que engloba as casas Calém, Barros, Burmester e Kopke, é um fervoroso adepto das potencialidades do Douro, que acredita poder evoluir ainda mais, não apenas no que se refere ao vinho do Porto, mas sobretudo na criação de vinhos DOC Douro de ainda maior qualidade. Para alguém que já fez de tudo no sector, Martins Alves prima pela modéstia e pela exigência em fazer ainda mais e melhor, que acredita dever ser apanágio de todos os enólogos. Ficamos a saber quais os segredos que estão por trás da produção de vinhos do Porto de qualidade e por que razão, como nos disse, os Vintage são os melhores. Mas Martins Alves não é só vinho do Porto. Herdeiro e descendente de viticultores, também os vinhos verdes merecem uma atenção particular a este enólogo.
Texto: Marc Barros
Nectar – Há quantos anos trabalha no sector dos vinhos?
Martins Alves – Comecei há 33 anos, depois de concluído o curso de Enologia na Escola Superior Agrária de Coimbra, com um colega que trabalhava na Sandeman. Na sala de provas estavam alguns vinhos, que provei e referenciei. Fui-me aperfeiçoando e fazendo vários estágios, desde a Facudade de Economia, passando pela casa Poças, e depois fui convidado para a Quinta do Noval, em 1978. Era na altura propriedade da família Vanzeller, onde trabalhei com os irmãos Fernando e Luís e o primo Frederico, que era o provador. Os provadores não tinham um curso específico à época mas tinham imensa prática de provas.
Ao fim de meio ano assumi a direcção técnica da casa, com apoio eventual na viticultura. Declarei o meu primeiro Vintage em 1980, do Noval Nacional, e depois em 1982, que tem um significado muito especial para mim pois, para além de ter sido muito bem classificado, foi o ano de nascimento da minha filha. Mais tarde, em 1988, saí do Noval e fui convidado para presidente da Câmara de Provadores do Instituto do Vinho do Porto. Comecei a dar cursos para provadores, ficando com um grupo de oito provadores e eu como presidente.
- À época a Câmara de Provadores funcionava de forma um pouco diferente…
- Funcionava em dois turnos, um de manhã e outro à tarde. Os vinhos eram provados em prova cega, por todos os provadores.
Hoje verifica-se (e ainda bem), que os vinhos são provados apenas da parte da manhã, o que não acontecia no meu tempo, como eu tentei. As provas devem ser feitas entre as dez e o meio-dia, e à tarde, se tiverem que ser feitas, só depois da 15h30. O provador deve ter cuidado com a alimentação, pois se tem um almoço com certos alimentos, estraga o paladar e prejudica as provas.
Ainda no Instituto dei um curso para escanções de 11 hotéis do Porto, e cursos de formadores para o quadro de provadores do IVP. De todos os cursos, estes foram os que tiveram as mais altas classificações de sempre. Dois ainda estão lá e outro numa firma exportadora.
- O que representa um grau de exigência muito elevado…
- Quem fez os exames foi a Junta Consultiva, que era composta por cinco elementos provenientes do sector, pessoas com muita prática e idoneidade, com 30 a 40 anos de serviço. Havia uma prova escrita, sobre as vinificações e outros aspectos dos vinhos, e uma prova prática, cega, com vinhos novos, velhos, com ou sem defeitos, para identificação.
- Quando recomeçou a trabalhar no sector privado?
- Comecei a trabalhar como consultor na Rozès, até que esta adquiriu a São Pedro das Águias. Enquanto a firma tinha os seus armazéns em Gaia, continuei, até ser convidado para director técnico da Gran Cruz, que inclui a marca C. Da Silva, e fiquei ainda como consultor da Calém, hoje propriedade do grupo Sogevinus, do qual ainda sou consultor.
A importância de criar um bébé
- No sector do vinho do Porto já fez tudo – director técnico, provador, formador. De todas estas actividades, qual lhe dá mais gozo?
- O que me dá mais prazer é fazer o vinho. É um desafio, ao fim de três meses após a vindima, saber orientar os vinhos, através das suas características analíticas e organolépticas, para as respectivas categorias. Esta é a parte mais importante, pois o vinho do Porto tem categorias muito distintas. Dou-lhe um exemplo: o Colheita só é comercializado a partir de Janeiro depois de sete anos passados após a sua vindima e de aprovado pelo Instituto. Mas, para isso, é preciso, sete anos antes, saber que aquele vinho, com três meses de idade, depois de concluídas as fermentações, dará um vinho daquela categoria. Mas, para além disso, é preciso acondicioná-lo na vasilha mais apropriada, acompanhá-lo, rectificá-lo, em suma, saber envelhecer o vinho. É quase como criar um bébé.
No caso dos tawnies com indicação de idade é preciso acompanhar o envelhecimento e fazer os lotes. Já o LBV é engarrafado quatro a seis anos após a vindima, acondicionado entre inox e madeira, por forma a obedecer aos regulamentos do Instituto, que pede vinhos tintos e encorpados, com aromas e paladares finos.
Os Vintage são os vinhos mais nobres, são os mais estruturados, com mais corpo, mais cor e que, desde a vindima até ao 3.º ou 4.º mês, temos que escolhê-los e dar-lhes a estabilização mais adequada àquele tipo de vinho. É engarrafado a partir da sua aprovação, dois anos depois da vindima, até Junho do terceiro ano, sendo que o envelhecimento é feito em garrafa, por redução.
- Há uma dupla tendência no consumo dos Vintage, entre os que preferem bebê-los desde logo, ou aqueles que preferem esperar alguns anos. Qual a sua perspectiva?
- Qualquer uma das alturas pode ser boa, consoante o gosto do consumidor. Na minha opinião, um Vintage com mais de 10 anos será ideal. Claro que podemos ter algumas surpresas, por exemplo provocadas por defeitos de rolha. Mas, para ser aprovado no IVDP, um Vintage tem que ter uma classificação de Excelente.
- Consegue definir um perfil de vinhos que seja mais ao seu gosto?
- Os vinhos que mais gosto são os Vintage, de onde procuro extrair alguns aromas especiais, como o aroma a esteva, e que seja encorpado e bem estruturado. Os aromas a frutos vermelhos, por exemplo, aparecem nos vinhos novos mas, com a idade, dão lugar a outros. Há mercado para vinhos novos, com quatro ou cinco anos, como o britânico ou norte-americano. Mas nestas idades são ainda um pouco pesados ao paladar e agressivos. Têm que aveludar com a idade, arredondando os taninos e tornando-se mais agradáveis.
O acompanhamento é também importante. Costumo dizer que o melhor é o Queijo da Serra, que ainda por cima é nosso, mas outros queijos, como o Camembert ou o Brie, são igualmente propícios.
- Dentro das categorias especiais, alguns enólogos preferem fazer Tawnies com indicação de idade a Vintage ou LBV devido ao desafio do loteamento. Partilha dessa preferência?
- Não, pois o Vintage não deve ser feito todos os anos. Há firmas que o fazem anualmente e o Douro tem condições para declarar Vintage todos os anos. Mas três ou quatro por década é o ideal, até para não banalizar a categoria. É, na minha opinião, o melhor vinho. Costuma-se dizer que o Vintage é um dom de Deus com a ajuda dos técnicos. Quanto aos outros, o lote é feito pelos enólogos mas também é feito na vindima. A vinificação pode ser feita com orientações distintas, com maiores ou menores quantidades. Mas o lote deve ser feito por forma a manter a estabilidade qualitativa. A Gran Cruz faz, nas três firmas, 20 milhões de garrafas de tawnies e é preciso saber escolher bem os vinhos, dar-lhes o tratamento adequado e mais tarde fazer os lotes. Fazer lotes de pequeno volume é fácil.
A exigência do enólogo
- Qual a quantidade de vinho do Porto produzida anualmente sob a sua supervisão?
- Cerca de 22 milhões de litros. Mas repare, é tudo um trabalho de equipa. Na Gran Cruz sou director técnico e nas outras firmas sou consultor, mas em qualquer dos casos não trabalho sozinho. Cada qual tem a sua função, todos conhecem os vinhos, fazem as análises, as correcções, conforme as indicações, consoante certos parâmetros que devem ser preservados.
- Mas é um trabalho exigente…
- Esta última vindima percorri 4500 quilómetros, num espaço de três semanas, só na região do Douro. Convidaram-me para orientar uma vindima em seis centros de vinificação – Régua, Lamego, S. João da Pesqueira, Sanfins, Alijó, Pegarinhos e Vila Flor, com um enólogo em cada adega.
- A Gran Cruz compra os vinhos e a Sogevinus tem produção própria, apesar de também adquirir vinhos a outros produtores. Há diferença no que toca ao controlo de qualidade dos vinhos?
- O controlo é idêntico, pois na Gran Cruz temos fornecedores contratados há muitos anos e fazemos o seu acompanhamento e orientação. Não quero dizer que não haja um acompanhamento mais próximo no caso de a firma possuir propriedades, mas esta tem sempre que adquirir vinhos a fornecedores.
- O consumo de vinho do Porto está ainda associado a datas especiais, como aniversários ou festas. Como se pode contrariar esses hábitos?
- São hábitos errados, pois o vinho do Porto tem lugar a qualquer altura, dada a diversidade de categorias. É preciso saber seleccionar o tipo de vinho em função do momento, e mesmo a melhor forma de o servir. Por outro lado, costumo dizer que o vinho roda: o médico, que não cobrou a consulta, foi presenteado com o vinho, e este mais tarde oferece a alguém por qualquer razão, mas o vinho não é aberto. Isto é mau, para as firmas e para o próprio vinho.
Por outro lado, o vinho do Porto não é uma bebida da noite, e fica para trás em relação a outras bebidas, como as bebidas brancas e os «shots», muito mais alcoólicas e prejudiciais à saúde. A idade do consumidor de vinhos do Porto é avançada, e é preciso fazer os jovens regressarem ao vinho do Porto. Talvez as novas categorias, como o Pink, possam ser importantes, mas é preciso fazer um trabalho mais profundo no que toca à promoção e elucidação dos consumidores.
É preciso também apostar na formação dos que trabalham com o vinho, sobretudo na hotelaria. Os escanções tem um papel muito especial nesse sentido. Vemos que restaurantes e hotéis têm, na sua maioria, garrafas de bebidas brancas e, ao lado, quase escondida, uma garrafa de vinho do Porto. É preciso contrariar a ideia de que o vinho do Porto só se abre na Páscoa ou pelo Natal.
- Tem ideia de quantos prémios já arrecadou ao longo do seu percurso como enólogo?
- Na Gran Cruz só participamos em concursos há cerca de seis anos. Não havia esse hábito no sector até tempos recentes, mas creio que é importante, até para testarmos as nossas capacidades. Um enólogo deve ser ambicioso, deve querer fazer mais e melhor. Até porque os vinhos nunca são semelhantes, mas o técnico tem a responsabilidade de fazer o melhor possível com as colheitas que tem. Na Gran Cruz foram arrecadados 240 prémios em seis anos, inclusivé o Tawny Cruz, do qual são feitas sete milhões de garrafas, foi galardoado com ouro. No conjunto, creio que serão cinco ou seis centenas de prémios que ganhei, em todo o mundo. Mas é tudo um trabalho de equipa. Aliás, também fiz parte do júri de alguns concursos, como o Cidade do Porto e do Wine Masters Challenge, onde fui convidado para ser presidente do júri em 2007.
- Que região gostaria que o Douro pudesse vir a ser no futuro?
- A região está em franco progresso e dentro de poucos anos, com os investimentos que estão a ser realizados nas vinhas, o futuro do sector do vinho do Porto está assegurado, e os vinhos de mesa podem ir mais além. Muitas casas estão a apostar neste segmento, com firmas que vêm de fora a investir na região. São criadas novas formas de vinificação, novos sistemas de condução. Por isso a qualidade será cada vez melhor. O Douro tem capacidade para produzir melhores vinhos e de competir com outros vinhos de todo o mundo. Fico contente porque o Douro vai ser melhor do que já é. •
Uma herança de vinhos verdes
- Como se o trabalho não lhe chegasse, tem ainda a sua propriedade, na região dos vinhos verdes, mais propriamente em Gondomar.
- É uma propriedade familiar com quatro hectares de vinha que vai na terceira geração, já que eu próprio descendo de viticultores. Está plantada com as castas recomendadas, como o Loureiro, Trajadura e um pouco de Azal, para além de um pequeno pomar. A plantação foi feita por mim, reconvertendo as ramadas, do tempo do meu pai, em cordão simples e, em alguns casos, cordão duplo. Resolvi ainda mecanizar a vinha e fazer uma adega equipada. É um hobby que tenho, tento fazer algo com qualidade, pois se não fosse assim a propriedade teria outra estrutura.- Mas não lançou uma marca…
- Não, pois a quinta não produz a quantidade suficiente para tal, já que saem cerca de 30 mil litros por ano. Por outro lado, teria que fazer um grande investimento. Tinha também que optar entre o vinho do Porto e aquela propriedade, pois não teria tempo para tudo. O vinho verde também não é tão rentável. Desta forma, vendo a uva a um vinificador.- Sendo filho de viticultores, há alguém na família disposto a continuar a tradição?
- Tenho uma filha, professora licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, que está a tirar um mestrado, e um filho que está no 12.º ano. Ficará como hobby para eles. Tenho pena, pois é uma propriedade muito antiga, mas ao mesmo tempo tenho que concordar que o vinho verde não é rentável na minha zona e há muitas vinhas abandonadas e cortadas.
Por isso a cultura deverá ser alterada no futuro, mas enquanto eu puder, vai-se manter. •
O futuro da região
- Conhece o sector como poucos e acompanhou as evoluções da região, incluindo a recente explosão dos vinhos DOC. Foram também lançados novos tipos de vinho do Porto. Acredita que o Douro tem espaço, a longo prazo, para estes dois tipos de vinho?
- Quando comecei a trabalhar vendia-se muito vinho a granel, sendo que o Instituto não tinha grande controlo sobre esses vinhos no exterior, onde eram engarrafados. À época, o actual proprietário da Gran Cruz, Jean Caiard, comprava aqui os vinhos e engarrafava-os em Paris. Depois teve a feliz ideia de comprar uma firma antiga, a Ramos Assunção, que se converteu em Gran Cruz, acabando com o granel. Desta forma, o consumidor tem total garantia do produto que compra e este é feito em Portugal. A Gran Cruz foi pioneira nesta política, que teve bons resultados e situação.
No caso do Douro, não havia vinhos de mesa, que eram apenas para «a destilação e para a beberagem do pessoal», como se dizia. Na década de 90 tivémos uma explosão de marcas, algumas com muito sucesso e vinhos extraordinários, até porque a região, com as suas características e castas, presta-se a esta produção. Há marcas, com pequenos volumes, que passam por dificuldades, mas a região está a ser cobiçada por firmas e enólogos de outras regiões para aí fazerem vinhos – o exemplo mais recente veio do Esporão, que comprou a Quinta dos Murças, entre outros.- Não teme que, por exemplo, ao se fazerem vinhos DOC, está-se a retirar matéria-prima para a produção de vinhos do Porto?
- Não, porque o vinho do Porto é muito valorizado pelos exportadores. Os produtores e viticultores sabem que vão vender vinhos do Porto a 1000 ou 1200 euros a pipa e os vinhos de mesa a 200 ou 300 euros. Há espaço para ambas as produções.
O importante é que se faça um bom trabalho na vinha, com castas adequadas, e nas vinificações. Veja-se o ano passado, que foi um ano regular, e tivémos vinhos espectaculares.- Há vozes que pedem reformas no Douro, casos do sistema de benefício ou da Lei do Terço. Que lhe parece?
- Estão a ser estudadas formas de acabar com os quantitativos do benefício, cabendo aos produtores e adegas fazerem vinhos da melhor qualidade possível, para que os exportadores possam também adquirir vinhos de qualidade. É ao Instituto que cabe fazer o controlo de qualidade dos vinhos, desde o princípio até ao consumidor; tanto tira amostras nas linhas de engarrafamento como vai aos pontos de venda, seja em Portugal, seja no exterior, e compara com as amostras registadas no Instituto. Se não estiver conforme, pode cancelar a venda desses vinhos. Creio que isso é que é importante, que seja feito um controlo cada vez mais apertado sobre a qualidade dos vinhos, preservando uma estabilização das características organolépticas e analíticas dos vinhos. •

Garrafeira Mood for Wine
Diversidade no centro de negócios do Porto
A criação de um espaço integrado de gastronomia no Porto Palácio Congress Hotel & Spa exigiu uma oferta de vinhos diversa e, sobretudo, um conceito de garrafeira deveras inovador. A Mood for Wine nasceu para dar resposta a esse desafio.
Texto: Marc Barros
A remodelação, em 2007, do Porto Palácio Congress Hotel & Spa, que integra o universo Sonae, deu origem a cinco restaurantes com propostas tão diversas que vão desde a cozinha japonesa ou italiana, passando por uma oferta gourmet ou mesmo as típicas francesinhas. Daí que os seus responsáveis tenham decidido criar uma garrafeira que fosse capaz não apenas de servir todos os espaços de restauração, mas também de criar um leque diversificado de oferta vínica, num espaço atraente e funcional. Em suma, este é o conceito da garrafeira Mood for Wine.
O Porto Palácio Congress Hotel & Spa, localizado na central e exclusiva Avenida da Boavista, o grande centro de negócios da cidade, avançou com um conceito de restauração inovador na cidade, promovendo a experimentação de várias propostas gastronómicas, conduzidas pela mão firme e sabedora do chef Hélio Loureiro, pelo que decidiu criar o conceito de garrafeira “com um variado leque de opções, gerando a necessidade de acompanhar essa oferta gastronómica com uma renovada e ampliada carta de vinhos”, recorda Miguel Ribeiro, director de F&B do Porto Palácio.
No seu conjunto, os restaurantes gourmet-grill Le Coin, o italiano Grappa,
o restaurante sushi Góshô, o wellness corner Vita Pura e o Porto Beer, sem esquecer o VIP Lounge, privilegiadamente situado no terraço do hotel, proporcionam um conjunto único de sabores que requerem um adequado acompanhamento de vinhos, com cartas variadas e, sobretudo, «democráticas». A selecção foi movida pela preocupação de “ter vinhos disponíveis para todos, com preços desde os 12 euros aos 3100 euros, dinâmica, com grande capacidade de rotatividade mas com preocupações de qualidade”.
Porto e Douro dominam
Acompanhado pela formação e consultoria de Carlos Magalhâes, produtor e professor na Escola Superior de Hotelaria do Porto, o projecto resultou numa selecção de produtos efectuada por outros três responsáveis: o então sommellier Abílio Nogueira e Miguel Ribeiro e Ricardo Ferreira na direcção de F&B.
E, como não poderia deixar de ser, é composta em cerca de 70% por vinhos do Douro e Porto. Neste capítulo, a selecção “procurou fazer um esforço no sentido de incluir todas as casas produtoras. Começámos pelos tawny mais recentes, seguindo-se os vinhos com indicação de idade” – 20, 30 e mais de 40 anos
(a categoria mais procurada, confidencia Miguel Ribeiro), e “prolongámos a oferta pelos LBV e Vintage”, estes também muito procurados mas mais caros (sobretudo os mais velhos), numa selecção dos melhores anos. Ao todo, são 128 referências de vinho do Porto, sendo que “a região do Douro foi também contemplada com uma abordagem mais exaustiva”, que vai desde a marca Vila Régia aos topo de gama Quinta da Leda, Vale Meão e Barca Velha.
Porém, as outras regiões nacionais não foram descuradas. Depois de ter as referências mais representativas das várias regiões, a selecção pretendeu ainda incidir sobre os vinhos monocasta. Trata-se, segundo Miguel Ribeiro, de apostar na “divulgação das castas autóctones”, trabalho esse “que não é fácil e tem maior aceitação junto dos estrangeiros, que estão habituados a beber vinhos das chamadas castas internacionais e aqui encontram algo novo”. Nas diversas regiões nacionais, o director de F&B do Porto Palácio destaca como regiões mais procuradas o Alentejo e ressalta o Dão, “esquecida durante muitos anos e que agora produz óptimos vinhos a preços muito bons, tornando estes produtos muito competitivos”.
Também as mais representativas regiões mundiais não foram esquecidas, “resultado do próprio histórico do hotel”, quedando-se por algumas das regiões mais características e conhecidas do público, desde Espanha, França, Itália, Nova Zelândia (Villa Maria e Framingham), Austrália, EUA (Napa Valley), Chile (Alma Viva) ou Argentina, com os clássicos representantivos de cada região produtora. “Não queremos alargar muito esta oferta, porque falamos de grandes investimentos, mas temos os mais representativos. Até porque, como estamos no Porto, fará mais sentido optar por vinhos da região”. Segundo Miguel Ribeiro, “não é normal um estrangeiro pedir vinhos internacionais, pois prefere provar e conhecer os vinhos do Porto e Douro”. Aliás, curiosamente, são os clientes nacionais quem mais pede e escolhe vinhos estrangeiros, sobretudo Cava e Champagnes.
Actualmemente com 390 referências e 1700 garrafas, a selecção inicial “ultrapassou em muito o investimento previsto de 80 mil euros, pelo que houve necessidade de efectuar muitas correcções, sobretudo ao nível dos vinhos do Porto e em alguns anos de colheita, nomeadamente nos Prémier Crú”. Como curiosidade, registe-se que, dos três vinhos mais caros, apenas um é português, um vinho do Porto Vintage da Real Companhia Velha, que se fica por uns «modestos» 2700 euros, não muito distantes dos 3100 pedidos pelo branco biológico Montrachet Romanée Conti 2002 ou dos 1900 euros que custa uma garrafa de Château Petrus 2001.
O dinamismo das cartas de vinhos afere-se pela regularidade da sua modificação, de periodicidade mensal, e na “introdução de novas colheitas ou novas referências”, através de provas também elas mensais. Estas são provas cegas, em que o vinho é provado pela equipa e no final é feita uma sugestão de preço de compra e de venda. Por vezes “surgem surpresas, com vinhos tendencialmente mais em conta a serem classificados como vinhos caros e vice-versa, com vinhos caros no mercado e que, na prova, não justificam esse preço”, explica Miguel Ribeiro.
Preço vs. serviço
Uma questão sempre delicada prende-se com a fixação de preços dos vinhos nos restaurantes, tema polémico e sobre o qual incidem fortes queixas, quer por parte dos consumidores, quer mesmo dos produtores, que reclamam das elevadas margens apostas pelos estabelecimentos de restauração e que induzem à quebra no consumo do vinho.
Os preços estabelecidos pelo Porto Palácio são fixados “em função do preço de compra, com um vinho caro com tendência para ter margens mais reduzidas”, enquanto que no segmento chamado preço/qualidade “as margens são multiplicadas em média por 1,5 ou 2”. Na perspectiva de Miguel Ribeiro, este dado é importante “se pensarmos que, há uns anos atrás, estas margens poderia ir até cinco vezes mais num hotel de cinco estrelas”.
Por outro lado, continua, “o cliente não paga apenas um vinho – paga um serviço, copos, formação adequada dos funcionários, sistemas de armazenamento e climatização dos vinhos guardados. Procuramos estabelecer uma prática de valor justo” face a outros estabelecimentos com um nível de serviço “inferior mas cujos preços se equiparam aos nossos”. E, como assegura aquele responsável, “os clientes valorizam cada vez mais esses pormenores”. Por outro lado, “caso optem por não pedir uma garrafa, podem sempre recorrer ao serviço de vinho a copo, dentro de uma carta de 20 referências das várias regiões nacionais”.
Porém, vinhos há na Mood for Wine em que esse percentual médio é mais baixo. “No caso dos vinhos do Porto, um Vintage 2005 que custe no mercado 80 euros não poderá ter um preço de garrafeira acima dos 125 ou 130 euros, porque a nossa política privilegia sobretudo a rotatividade dos vinhos que temos em stock”.
As tendências de consumo
A diversificação da oferta gastronómica permite ainda estabelecer padrões tendencias de consumo dos vinhos em função dos restaurantes. E se “a maioria dos clientes procura vinhos relativamente jovens, das colheitas mais recentes, frutados, frescos e com madeira, mais exuberantes e que apostam na relação qualidade /preço”, trabalho esse que os enólogos têm vindo a desenvolver na produção de vinhos de consumo mais imediato, já “os vinhos mais velhos, os reserva ou os monocasta necessitam claramente do trabalho da equipa, com uma sugestão ou uma boa combinação com os pratos, até porque os clientes são mais conhecedores. É óbvio que algumas referências, por serem mais conhecidas, não precisam desse trabalho, vendem-se por si, ou seja, o marketing já está feito”. Com efeito, “quem pede um Barca Velha ou um Pêra Manca já sabe ao que vai”.
Assim, o restaurante gourmet Le Coin percorre toda a carta, pois tem uma oferta gastronómica mais abrangente. Os restantes possuem a sua própria carta de vinhos, com algumas das referências consideradas mais apropriadas às comidas: “o Grappa procura, para além das referências italianas, vinhos mais jovens e frutados, com produtos de fácil consumo, adequada para a hora de almoço”. Por sua vez, “o restaurante sushi tem uma tendência para os espumantes, brancos ou rosés”.
A conjugação entre as cartas de vinhos
e a oferta gastronómica é igualmente um apanágio do chef Hélio Loureiro, conhecido pelas harmonizações que produz com os vinhos, com maior destaque para os vinhos do Douro, Porto, Moscatéis e vinhos verdes. A formação da equipa, feita numa base semanal, vai igualmente nesse sentido. Mais ainda,
o Porto Palácio promove regularmente jantares vínicos, de base mensal no Porto Beer e bimensal no Le Coin. •
Uma oferta variada
A garrafeira Mood for Wine contou com um custo de construção de cerca de 35 mil euros e um investimento inicial de 54 mil euros na aquisição de 1500 garrafas, contando com doze variedades de champanhes e espumantes, cerca de 35 opções de vinhos brancos e 145 de tintos, para além das 128 referências de vinho do Porto. Ainda no portfólio de produtos nacionais, aquela garrafeira dispõe de mais de trinta referências de vinhos que vão desde o Moscatel (incluindo o cada vez mais raro Moscael Roxo) ao vinho da Madeira, passando ainda pelas aguardentes vínicas.
Uma vez que se trata de uma oferta voltada para apreciadores e para clientes estrangeiros – estes com forte incidência na taxa de ocupação do Porto Palácio -, a Mood for Wine conta com uma selecção de cerca de seis dezenas de vinhos estrangeiros, onde pontificam o já referido Montrachet Romanée Conti 2002 (Bourgogne – França), os bordaleses Château Lafite Rothschild 2001, Château Latour 2001, Château Margaux 1998 ou Château Petrus 2001. Flor de Pingus 2003 – Ribera del Duero (Espanha), Opus One 2000 Robert Mondavi – Napa Valley (E.U.A.) ou Almaviva 2004 – Concha y Toro (Chile), estão também incluídos.
Para além de apoiar todos os restaurantes do espaço integrado de gastronomia, a Mood for Wine permite aos clientes a aquisição dos néctares mais apreciados com a vantagem de um desconto de 10% sobre o preço da carta. Decanters, copos, termómetros e outros acessórios vínicos estão também disponíveis naquele espaço, que inclui área de conservação climatizada de vinhos tintos e vinho do Porto e três gabinetes de refrigeração para vinhos brancos, espumantes e champanhes, podendo albergar cerca de 3500 garrafas. Com a assinatura de Paulo Lobo, o design da Mood for Wine incide em materiais como o vidro para permitir o acesso visual a clientes e apreciadores que frequentam a área comum do espaço integrado de gastronomia. Para completar a gama de produtos da garrafeira, o Porto Palácio oferece ainda uma carta de águas com cerca de duas dezenas de origens distintas e mais de quarenta referências no que respeita a Whisky, Cognac e Armagnac. •
