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Especial Vinhos Verdes
Vercoope (PDF)
Dimensão nos Vinhos Verdes
Enquanto pólo aglutinador do movimento cooperativo na região dos vinhos verdes, a missão da Vercoope tem ganho uma relevância preponderante. Por isso, novas parcerias se perfilam, num mercado cada vez mais exigente. Esse crescimento obriga ainda à realização de investimentos de fundo.
Reportagem: Marc Barros
A criação de economias de escala na região dos vinhos verdes, através da agregação das adegas cooperativas, tem sido um dos papéis mais relevantes que a Vercoope vem desempenhando, na senda da sua missão original. A União das Adegas Cooperativas da Região dos Vinhos Verdes foi criada em 1964, com o objectivo de concentrar os esforços necessários, em primeiro lugar, ao engarrafamento, distribuição e venda dos vinhos dos seus associados, proporcionando uma valorização justa pelo seu esforço, mas igualmente, por outro lado, apoiar a conservação e tipicidade dos vinhos verdes, a preços considerados acessíveis pelos consumidores.
Situada em Agrela, Santo Tirso, a Vercoope é hoje uma das maiores empresas da região, com 50 colaboradores, e representa entre 4000 a 5000 viticultores, numa área total de produção vitícola que ronda a mesma dimensão.
Englobando as Adegas Cooperativas de Amarante, Braga (Cavagri), Guimarães, Famalicão, Felgueiras, Paredes e Vale de Cambra, a Vercoope constitui-se hoje como um dos pilares essenciais na estrutura das associadas, ao criar um importante canal de comercialização para os seus vinhos, quer através de marcas próprias (Via Latina, Pavão e Vercoope), quer das marcas das suas associadas.
O presidente daquela entidade, Basto Gonçalves, destacou este papel aglutinador, que foi recentemente posto à prova com o processo de fusão da Adega Cooperativa de Vila Verde, Amares, Póvoa de Lanhoso e Terras de Bouro com a Cavagri, numa estrutura que integra a Vercoope. Como importante mais-valia está o facto de “a Cavagri ter apostado na construção de uma adega de raiz, que está já concluída, de forma a permitir que a última vindima fosse realizada nas novas instalações”. Esse aspecto revela-se de grande importância na qualidade dos vinhos recepcionados. O presidente da Vercoope assinala a inevitabilidade deste movimento, que poderá “alargar-se a outras adegas, mas que ainda não se concretizou”.
Investimentos em nova linha de engarrafamento
A Vercoope levou ainda a cabo avultados investimentos nas suas infra-estruturas e equipamentos, traduzidos num volume global de 3,5 milhões de euros, dos quais 830 mil euros comparticipados pelo Estado. Desta forma, nas suas instalações com cerca de 7500 m2 de área coberta, foram totalmente renovados o piso e o telhado, bem como adquirida e instalada uma moderna e completa linha de engarrafamento de brancos, a qual, segundo Casimiro Alves, director comercial da empresa, permite “uma maior capacidade de resposta para grandes volumes”, ao permitir engarrafar 8 a 10 mil garrafas por hora.
Este investimento, salienta Basto Gonçalves, incluiu ainda a adopção do sistema HACCP, estando ainda em curso o processo de certificação segundo a norma ISO 9001:2005, o qual deverá estar concluído “até final do ano” e abrangerá todos os procedimentos da adega, quer a nível produtivo, quer administrativo.
Desta forma, a Vercoope possui, nas suas instalações, capacidade para engarrafar 10 a 12 milhões de litros anuais, sendo que “o volume de vinho trabalhado actualmente ronda os sete milhões de litros”, disse Basto Gonçalves. Ou seja, a empresa tem a possibilidade de aumentar consideravelmente o volume de vinhos que recebe e labora, estando assim preparada para receber novos associados no seu seio.
Aposta na marca Via Latina
A Vercoope ocupa actualmente uma quota de mercado de 12 a 14% no sector dos vinhos verdes, referiu Casimiro Alves. As suas três marcas encontram diferentes posicionamentos no mercado, sendo que a marca Via Latina é aquela que garante “maior valor acrescentado por garrafa”. Revelando que a nova imagem, adoptada em 2006, “foi muito bem aceite pelo mercado, depois de um reajuste do preço e a adopção de uma garrafa mais nobre”, Casimiro Alves sublinhou que anualmente são lançadas cerca de um milhão de garrafas em três referências: dois monocasta, Alvarinho e Loureiro, e um vinho verde de lote.
E, se do vinho varietal Loureiro são produzidas cerca de 300 mil unidades, quanto ao Alvarinho o volume engarrafado é substancialmente inferior, na ordem das 20 mil garrafas. Contudo, o seu valor vai muito para além do número de unidades, esclarece Basto Gonçalves, pois este “é engarrafado sobretudo por uma questão de imagem”, já que “todos nos pedem Alvarinho e consegue abrir portas para colocarmos outras referências”. Como prova, está o facto de 50% deste vinho ser exportado. No seu conjunto, a marca Via Latina representa 1,6 milhões de euros no volume de vendas da Vercoope que, em 2008, registou uma facturação de 7,5 milhões de euros.
Por outro lado, a importância do vinho engarrafado tem vindo a crescer substancialmente nas contas desta união, uma vez que “crescemos as vendas na garrafa de 0,75l, por substituição na garrafa de litro e no garrafão”, disse Casimiro Alves. Por seu turno, as vendas de bag in box rondam já 10% do volume global. Porém, Basto Gonçalves sublinhou a dificuldade para crescer neste segmento, uma vez que a própria embalagem cria dificuldades ao acondicionamento destes vinhos, dada a presença natural do gás.
Se, no global, Basto Gonçalves reconhece que a região poderá sofrer quebras nas vendas no decurso de 2009, por outro lado salienta que ainda é cedo para avançar previsões. Porém, no caso da Vercoope, as vendas têm-se mantido regulares, sustenta.
Para esse facto contará certamente o desempenho nos mercados externos, que representam já 10% do volume de vendas e onde a Vercoope pretende continuar a crescer. Segundo Casimiro Alves, os mercados mais importantes são “EUA, Angola e Noruega, graças ao excelente desempenho da marca Via Latina, sobretudo o monocasta Loureiro”. No que se refere ao mercado norueguês, o responsável comercial enfatiza o desempenho no posicionamento desta marca pois, por se tratar de um país cuja importação de vinhos é decidida pelo Estado, a sua continuidade no mercado deve-se às performances nas vendas. E, nesse campo, o Via Latina “foi a marca portuguesa mais vendida a nível de vinhos brancos em 2008”, disse Casimiro Alves, num exemplo de sustentabilidade e visão que tornaram a Vercoope num dos maiores players da região dos vinhos verdes. •

Especial Vinhos Verdes
Quinta da Lixa (PDF)
Paixão pelos Vinhos Verdes
A paixão da família Meireles pelos vinhos verdes esteve na origem desta empresa vinícola e conduziu a Quinta da Lixa ao patamar actual. Essa mesma paixão pode ser encontrada em novos segmentos, como o enoturismo, que em breve dará um novo fôlego à região.
Reportagem: Marc Barros
Um apelo mais forte da tradicional cultura de vinha e uma visão moderna e empresarial do sector materializaram a paixão que desde sempre norteou a família Meireles, pelo menos no que aos vinhos verdes se refere.
Presente em diversas áreas do mundo empresarial, esta família que já era proprietária de vinhedos localizados em redor da pequena vila da Lixa, em Felgueiras, decidiu, em 1986, apostar na criação de uma empresa de pequena dimensão capaz de dar destino adequado aos vinhos nascidos nas suas propriedades. A então Soporvin – Sociedade Portuguesa de Vinhos, foi criada numa lógica de aproveitamento de sinergias, dando corpo à visão empresarial que a família depositava no sector, à semelhança dos outros negócios em que estava envolvida.
Inicialmente, o vinho produzido era vendido a granel, sobretudo para a Adega Cooperativa de Felgueiras, mas também para outras empresas conceituadas da região. A percepção do elevado patamar de qualidade dos vinhos que comercializava mostrou que o caminho a seguir era outro: criar uma marca própria, engarrafar e comercializar os seus vinhos, numa lógica de aproveitamento das mais-valias que daí resultariam.
E resultaram. Criada a marca Quinta da Lixa, depois de adquirida a propriedade que dá o nome à empresa, foi decidido avançar para a renovação das suas instalações e adega, com o objectivo de aumentar a produção. A sua capacidade de vinificação actual ascende a três milhões de litros.
Gestão empresarial e responsabilidade social
Óscar Meireles é director geral da Quinta da Lixa e, dos irmãos Meireles, aquele que gere diariamente a empresa vitivinícola. Mas a tradição já passou para as gerações seguintes. Diana Meireles, filha do responsável da empresa e licenciada em Engenharia Alimentar, é a responsável pelo departamento de qualidade.
No total, a empresa detém 42 hectares de vinha, dos quais sete na própria Quinta da Lixa, 20 hectares na Quinta de Sanguinhedo, adquirida em 1999, e os restantes dispersos pelas várias propriedades localizadas na Lixa, nas franjas da própria sede, como a Quinta de Tarrio, Quinta da Corredoura, Quinta de Coveiros e Quinta das Maias. Esta rede de proximidade deve-se à vontade de “aproveitar sinergias”, mantendo a capacidade “de rodar pessoal entre as várias quintas”, contribuindo para a redução de custos, explica o seu gestor.
A empresa continua a aprofundar a sua estratégia, pretendendo adquirir novas propriedades e plantar vinhas novas. “Este ano serão oito hectares e no próximo está previsto arrancar com a replantação de mais oito hectares”. Desta forma, resume, “alargamos a área de produção”. Dentro de três anos, a empresa espera deter 60 hectares de vinhas próprias, sendo que a área actual representa 35% da produção total.
A Quinta da Lixa tem por isso contratos estabelecidos com alguns produtores da região para fornecimento de uvas. Todo o apoio técnico é dado pela empresa, que controla assim a qualidade das uvas que adquire e vinifica.
E se, no que toca à viticultura, a aposta nas castas autóctones da região, como a Azal, Avesso ou Loureiro seria inevitável, a Quinta da Lixa alberga já, nas suas propriedades, algumas castas que poderão, a curto prazo, ditar novos vinhos ou novos lotes, para juntar à diversidade de referências que coloca no mercado. Assim, a um hectare de Riesling – plantado para estudar a adaptação da casta e o seu perfil ao terroir da Lixa, como explica o enólogo Carlos Teixeira, juntam-se seis hectares de Alvarinho (para lotear, dada a sua complexidade, estrutura e longevidade), e dois hectares de Touriga Nacional, entre outras experiências.
A produção média da Quinta da Lixa ronda os 2,5 a 3 milhões kgs/uva anuais, de onde surgem 2 a 2,5 milhões de litros/ano. Óscar Meireles recorda que 2008 foi um ano “difícil em termos quantitativos, com uma quebra assinalável que teve que ser compensada com idas ao mercado”, mas em termos qualitativos foi um ano de excelente nível.
Sobre este tema, frisa, “temos que ter consciência que os preços praticados no viticultor eram desequilibrados. O produtor precisava de mais dinheiro” e, com este cenário de quebra, “houve um equilíbrio de preços” e, aspecto mais importante, disse, “começámos a criar condições ao viticultor para melhorar a sua matéria-prima”.
Esta visão de responsabilidade social acompanha a gestão da empresa: “É esse o nosso objectivo, de forma que, no final, os nossos vinhos possam ombrear com quaisquer vinhos brancos do mundo. Hoje, vemos que qualquer produtor da região tem condições para competir de igual para igual em qualquer concurso do mundo”. Com efeito, no espaço de cinco anos, a Quinta da Lixa arrecadou mais de 200 prémios internacionais.
O desafio dos monocasta
Às marcas inicialmente lançadas – Terras do Minho, Quinta da Lixa, Monsenhor, Vinha Real e QL -, juntaram-se no virar do século novas referências que demonstram o arrojo da empresa e a paixão com que encaram o negócio: a diversificação dos seus vinhos recai no lançamento dos primeiros vinhos varietais da vindima de 2000, assim como nos vinhos datados. Uma vez que as “vinificações são feitas por casta”, desde logo ficou assente que “a sua qualidade poderia fazer-se valer por si no mercado”, explica Óscar Meireles.
Reconhecendo que esta não é uma tradição na região, o lançamento dos monocasta “surge depois da conversão da vinha feita em 1987 e 1992, quando nos apercebemos que várias castas como a Azal, Arinto, Trajadura e Loureiro, tinham capacidade para se fazerem valer por si”. Estes monocasta foram primeiramente lançados em 1993, “para testes junto do consumidor”, mantendo-se no mercado três monocasta brancos” – Alvarinho (este vinificado em parceria com um produtor de Melgaço), Loureiro e Trajadura nos brancos e Vinhão nos tintos.
Actualmente, são colocadas no mercado 250 a 300 mil garrafas de Quinta da Lixa Loureiro e 150 mil de Quinta da Lixa Trajadura. “São vinhos de nicho, mas temos aumentado ligeiramente neste segmento. É um mercado muito recente, exceptuando o Alvarinho”. O Loureiro, afirma, tem já um grande reconhecimento no mercado, sobretudo a nível internacional. Por sua vez, o Trajadura, “juntamente com o Treixadura espanhol, está a crescer”. Falta saber, questiona Óscar Meireles, “quem puxa por quem”.
Em 2004 é lançado o Espumante Quinta da Lixa, fruto do reconhecimento das capacidades da região na espumantização dos seus vinhos verdes. Este é produzido com base nas castas Arinto e Avesso. Trata-se de “um produto que está a crescer, mas é ainda um mercado muito jovem”.
Diversificar os mercados
As marcas da Quinta da Lixa são direccionadas para vários segmentos: algumas exclusivas para o canal Horeca, como o QL e o Quinta da Lixa. Por outro lado, nota Óscar Meireles, “é necessário efectuar um reforço da presença na grande distribuição, pois uma grande quota do consumo de vinhos está a ser transferida dos restaurantes para as casas dos consumidores”.
Portugal representa cerca de 60% das vendas da empresa. “Em algumas zonas temos sentido dificuldades em evoluir, sobretudo a sul, pois as marcas mais fortes têm uma presença mais vincada. Estamos a tentar inverter essa tendência, mas temos que reconhecer que é um crescimento muito lento”. Uma das apostas da empresa passa pela ligação à gastronomia, com receitas preparadas pelo chefe Hélio Loureiro especificamente para cada vinho e disponibilizadas no seu portal de Internet e nos contra-rótulos das garrafas.
Por seu turno, os mercados externos absorvem 40% das vendas. Trata-se de “uma aposta ganha e que muito nos satisfaz”. O início deste trabalho, recorda Óscar Meireles, “foi difícil, com retorno muito lento, e só nos últimos quatro anos temos vindo a receber os frutos desse esforço”. Isto porque “há dez anos atrás os vinhos portugueses eram mal trabalhados no exterior, onde cada qual agia por si, sem união de esforços. Creio que essa mentalidade tem vindo a mudar, com maior profissionalismo, e sentimos que a imagem de Portugal e dos vinhos verdes está a melhorar muito”, realça.
Entre os mercados mais importantes contam-se os EUA, Canadá, Brasil, França, Alemanha, Holanda, Suécia, Dinamarca e China, que “poderá vir a ser importante se for criada uma maior continuidade nas vendas”. Angola também evoluirá, assegura, mas actualmente “está a crescer muito nos tintos”. Neste segmento podem ser importantes os vinhos do Douro que a Quinta da Lixa engarrafa e comercializa, para juntar às suas sinergias na vertente comercial, com a marca Heitor. Mas para já estes são direccionados sobretudo para o mercado nacional, “para juntar aos nossos pacotes, juntamente com outros produtos, como mel, compotas ou queijos”. Actualmente são lançadas cerca de 30 mil garrafas, a que se junta uma nova marca do Douro, Muxagata.
Um esforço de diversificação onde as palavras-chave são, segundo Óscar Meireles, “sinergia” e “paixão”, em que uma não pode ser dissociada da outra. Só assim se conseguem resultados positivos, como o exemplo que a Quinta da Lixa tem dado. •

Especial Vinhos Verdes
Quintas de Melgaço (PDF)
Lança Colheita Tardia e Vinhas Velhas
A inovação no sector dos vinhos resulta, muitas vezes, das exigências do mercado.
A empresa Quintas de Melgaço mostra saber adaptar-se aos novos tempos e prepara-se para lançar dois vinhos especiais: um Colheita Tardia e um Vinhas Velhas, ambos elaborados com base na casta rainha da região – o Alvarinho.
Reportagem: Marc Barros
A casta Alvarinho não cessa de surpreender todos aqueles que se dedicam às coisas do vinho. As potencialidades de exploração da versatilidade da casta são imensas, alicerçadas numa produção vitivinícola de cada vez maior qualidade e no trabalho de adega e experiência dos enólogos.
Desta forma, de quando em vez, o mercado é surpreendido com o lançamento de produtos inovadores à base da casta Alvarinho. A empresa Quintas de Melgaço (QM), situada na Sub-Região de Monção e Melgaço, sendo um dos produtores que melhor tem vindo a desenvolver e especializar-se na produção de vinhos verdes Alvarinho, não poderia ficar de fora deste movimento.
É sob este prisma que devemos observar o lançamento, no final de 2009, de um Colheita Tardia Alvarinho e um Vinhas Velhas, também elaborado nesta casta na sua totalidade. Segundo Pedro Soares, administrador das Quintas de Melgaço, esta inovação no portefólio da empresa corresponde a “um grande salto qualitativo, se pensarmos que há vários anos atrás poucos queriam ter esta casta plantada, e hoje há já uma grande pressão das grandes empresas para a liberalização da sua plantação”.
Mesmo a nível internacional, “o Alvarinho já se faz notar, com forte presença em concursos internacionais, podendo vir a ser, a breve prazo, um embaixador dos vinhos brancos portugueses, tal como a Touriga Nacional já o é para os tintos”, perspectiva. Daqui poderá resultar “uma enorme mais-valia comercial, no sentido da promoção e divulgação”, trabalho que cabe às empresas e às entidades oficiais portuguesas: “Temos que usar as nossas armas para potenciar os nossos produtos”, sentencia.
Novos vinhos, qualidade superior
Mas, antes de irmos aos mercados, vamos aos vinhos. O Colheita Tardia Alvarinho será o primeiro da região e “mostra a excepcional polivalência da casta”. Segundo Carmen Carvalho, enóloga residente da empresa, que recruta ainda os serviços, como consultora, do enólogo Jorge Sousa Pinto, “aquando da calendarização da vindima, foi feita uma selecção de parcelas para este vinho, tendo sido contratualizado com um produtor todo o acompanhamento até à vindima, numa área de meio hectare”. Esta área, em condições normais, renderia cerca de 4000 quilos de uvas. Porém, para a produção do vinho doce, as uvas passificaram na vinha até Dezembro, tendo sido colhidos 650 quilos de matéria-prima, dos quais foram obtidos 310 litros de vinho. Este néctar está em estágio em madeira, e o vinho será lançado antes do Natal.
Serão cerca de 900 garrafas de 0,37cl., a preços que rondarão os 20 a 25 euros PVP. Este vinho, que ainda não tem nome, será posicionado no segmento gourmet, em garrafeiras seleccionadas e restaurantes. “Caso haja boa aceitação do mercado, poderá haver um aumento de produção deste vinho, mas sempre em quantidades de nicho”, estima Pedro Soares.
Por seu turno, o Alvarinho Vinhas Velhas “é oriundo das vinhas mais antigas dos nossos accionistas do concelho de Melgaço, com cerca de 20 a 25 anos de idade”, explica Carmen Carvalho. O desafio dos enólogos, neste caso, passa por “tentar recuperar métodos tradicionais de vinificação, com fermentações em madeira e estabilização por métodos naturais”.
Em estágio estão 2500 litros de um vinho “com grande potencial de longevidade, uma vez que a fermentação e a estabilização do vinho são feitas de forma mais natural, não o sujeitando a tratamentos de choque”. Resultará desta forma um vinho “com algumas notas de madeira, notas varietais mais intensas, e untuoso na boca”. O objectivo, resume, “é fazer passar para o mercado a ideia de que a casta tem uma nobreza que a distingue no seio da região dos vinhos verdes e das próprias castas brancas nacionais”. Numa primeira fase, serão lançadas 3000 garrafas, a valores que rondarão 12 euros PVP.
Um projecto que veio do Brasil
A empresa Quintas de Melgaço nasceu em 1994, impulsionada por um melgacense emigrado no Brasil, Amadeu Abílio Lopes. A sua capacidade financeira foi suficientemente forte para congregar à volta deste projecto o interesse de algumas centenas de produtores do concelho de Melgaço, que se tornariam accionistas, bem como a própria autarquia, que assumiu a posição do fundador e hoje detém a maioria do capital. A empresa conta com 430 accionistas, dos quais 150 com alto grau de fidelização.
Com oito colaboradores directos, a Quintas de Melgaço é certificada pela ISO 32000, “a primeira a nível nacional no sector dos vinhos”, refere Pedro Soares. Trata-se, na sua óptica, de um “aspecto essencial na colocação dos vinhos, sobretudo em mercados estrangeiros, mas também a nível nacional”.
A empresa, que não tem produção própria, recebeu cerca de 700 mil quilos em 2008, com o branco a representar cerca de 80% das entregas. O ano registou uma quebra ligeira de produção, compensada com novas entradas e novos accionistas: “Implementamos uma política de pagamentos antecipados, em cerca de 50% do total, até 15 de Dezembro, o que potenciou a entrada de novos fornecedores de uva”, disse Pedro Soares. Os preços pagos nesta última campanha rondaram os 1,05 euros/kg para a uva Alvarinho e 0,50 euros/kg no caso da casta Trajadura.
Na entrega, é feita a separação de uvas entre brancas e tintas, calendarizada de acordo com a evolução das maturações, acompanhada pelos técnicos da QM. A entrega é feita por casta o que, como explica Carmen Carvalho, “beneficia a organização do trabalho, até porque trabalhamos com grandes volumes, e a qualidade dos vinhos”.
Mercado externo a crescer
A QM tem uma produção total de um milhão de garrafas, com um portefólio que inclui as marcas QM (100%Alvarinho), Castrus de Melgaço (igualmente 100% Alvarinho), Torre de Menagem (lote Alvarinho/Trajadura), e dois espumantes: QM 100% Alvarinho e Torre de Menagem Alvarinho/Trajadura.
Para além destas marcas fortes, a empresa possui ainda as referências São Rosendo verde tinto (este de consumo regional, mas que representa 2,5% das vendas), Terra Antiga rosé e Leira do Canhoto (Trajadura, Loureiro e Alvarinho). As duas últimas referências, com 50 mil garrafas cada, correspondem a marcas “de entrada de gama, com grande mercado sobretudo nos restaurantes da costa litoral até ao Porto”. Porém, nota Pedro Soares, “em anos de crise, a tendência do segmento é para crescer nas vendas”, o que acentua a sua relevância.
O mercado nacional representa “o grosso de vendas, sendo que, nos primeiros quatro meses do ano, as exportações quase triplicaram face ao total de 2008 (4% do total das vendas), fruto de uma política de aposta nestes mercados externos”. Por outro lado, reflecte Pedro Soares, esta aparente disparidade “pode explicar-se porque o grosso do mercado internacional de compras funciona até Maio, retomando apenas nos dois últimos meses do ano”. Alemanha, Reino Unido, Polónia, EUA, Japão, Grécia, Islândia e Eslováquia são os mercados principais de um vinho que “já não é apenas de consumo sazonal, mas apresenta uma tendência de uniformização, dada a sua aptidão gastronómica e a nobreza da casta”. •

Especial Vinhos Verdes
Adega Cooperativa de Guimarães (PDF)
Um exemplo de renovação
Foi com os olhos postos no futuro que a Adega Cooperativa de Guimarães encetou uma profunda renovação, fruto de um intenso trabalho na relação com os viticultores, na melhoria da qualidade dos seus vinhos e na reformulação da imagem. Os próximos investimentos envolvem a aquisição de área vitícola e a produção própria.
Reportagem: Marc Barros
A profunda renovação imprimida à operação da Adega Cooperativa de Guimarães é um exemplo para o sector cooperativo português e a prova que, com empenho e dedicação de todos os seus responsáveis, desde técnicos a cooperantes, o sector pode ter um futuro risonho pela frente.
Quando a Nectar visitou pela primeira vez esta adega (ver edição Ed. 46/47 Nov./Dez 2006), estava em fase de conclusão um investimento que a dotou da capacidade de vinificar um milhão de quilos de uva, no total de 750 mil litros anuais de vinhos, mas passível de aumentar esta produção em 320 mil litros.
Deste investimento resultou uma nova marca – Praça de S. Tiago -, cujo sucesso ficou patente logo no seu arranque, ao arrecadar várias medalhas no concurso da CVRVV. O mercado correspondeu da melhor maneira a este desafio. À marca Praça de S.Tiago, direccionada para um segmento superior, nas vertentes branco, Vinhão e rosado feito com a casta Espadeiro, juntou-se mais tarde o Praça de S.Tiago Reserva.
Este resulta da fermentação de Arinto em carvalho, “com excelentes resultados mas que pretende apenas ser a nossa bandeira. É uma aposta ganha e para continuar, mas em regime de pequenas produções”, explicou Sequeira Braga, presidente da instituição. Esta casta foi a escolhida “pela sua nobreza, de maior complexidade e que atinge maior grau alcoólico, servindo bem as exigências da madeira”. O seu lançamento teve como objectivo “ser uma referência que possa ombrear com outros brancos do mundo, mantendo as principais características do que é um vinho verde”.
Quanto aos rosés, o mercado “tem recebido muito bem este novo produto, com crescimentos assinaláveis, mas parte de uma base muito reduzida. Julgamos ser uma excelente alternativa aos tintos, num futuro próximo mas não imediato”.
O futuro próximo, porém, não passará pelo lançamento de novas marcas: “Julgamos que o caminho não é dispersar a oferta em múltiplas referências, mas concentrar todo o esforço na consolidação das actuais marcas e referências cujo lançamento foi focado em dois canais: distribuição e Horeca e dois mercados alvo, consumidor médio e médio/alto. Nessa linha, procedemos a um refreshing da rotulagem do nosso Praça de S. Tiago Colheita Seleccionada branco, para uma imagem mais leve, jovem e moderna, respondendo assim à procura”.
A Adega de Guimarães é ainda associada da Vercoope, através da qual comercializa um volume substancial da sua produção. Aliás, Sequeira Braga é membro do corpo directivo daquela entidade e não descura o papel importante que joga na região, pela capacidade de aglutinação de vários parceiros cooperativos e de comercialização dos seus vinhos.
A experiência Alvarinho
A ambição da Adega de Guimarães em crescer e a vontade de experimentar novos rumos não se fica por aqui. A Adega Cooperativa de Guimarães está a implementar “as primeiras plantações de Alvarinho, pelo que teremos que aguardar pelas primeiras uvas lá para 2012”. No entanto, refere Sequeira Braga, “estamos certos de que esta casta que tão bons resultados tem dado na Estremadura, no Alentejo, na Nova Zelândia e na vizinha Galiza, também será capaz de produzir excelentes vinhos na região dos Vinhos Verdes. Será com certeza uma extraordinária mais-valia para a região”, confia.
Os investimentos sucederam-se e, “depois do investimento inicial de cerca de 2,5 milhões de euros entre 1999 a 2001, tivemos uma segunda fase de investimentos, mais reduzidos, entre 2004 e 2007, na ordem dos 100 mil euros, para atingir a actual capacidade de laboração com total conforto e garantindo elevados padrões de qualidade na vinificação”.
Renovação vitícola
A Adega de Guimarães possui 120 associados activos, englobando uma área de produção que ronda os 250 hectares. O trabalho desenvolvido na viticultura prossegue, através de “um departamento técnico para acompanhar e apoiar todas as fases da viticultura desde a plantação”. Desde 2000, a adega apoiou a reconversão de 140 ha de vinha através do VITIS.
A este esforço, junta-se a formação profissional dos operadores nas diversas tarefas (poda, fitossanidade, determinação de data de colheita) e a introdução nos associados de conceitos como o enrelvamento da vinha e a difusão da condução através do cordão simples. “Fundamentalmente”, esclarece Sequeira Braga, “a produção passou a ser feita com a preocupação de fornecer ao mercado, através da cooperativa, o que o mercado está disposto a comprar”. Não obstante, “ainda se mantêm alguns produtores com sistemas de condução tradicionais”, nomeadamente em altura, mas “em quantidade residual e sobretudo com tintos. O VITIS alterou substancialmente esta realidade. Economicamente são inviáveis, embora etnograficamente muito interessantes”.
Foi ainda introduzido um procedimento de recepção de uvas e calendário de entregas por castas, sendo hoje “um pilar da nossa política”. Também a fixação de preço e prazo de pagamento antes da vindima faz parte da política desta empresa cooperativa, “estando todas as nossas obrigações perante produtores e demais fornecedores cumprida”.
Os preços pagos por kg/uva são variáveis “em função do tipo e qualidade da uva entregue”. Em 2008, oscilaram entre 0,25 e 0,45euros/kg. O ano passado foi ainda introduzido um “Bónus de Fidelidade“ a ser pago por quilo de uva entregue pelo associado em função da entrega, ou não, de uvas na campanha anterior. “Aqueles que o fizeram contribuíram para o enriquecimento da organização e têm assim uma descriminação positiva em relação àqueles que optaram por dar outro destino às suas produções”, explicou o presidente da adega.
Recorde de resultados
Os resultados desta estratégia estão à vista: “Em termos nacionais, 2008 foi outro ano de recordes de vendas. Passamos largamente a “barreira psicológica” das 100 mil unidades. A exportação é ainda residual mas representa já cerca de 5% das vendas de engarrafados”. Este segmento “tem crescido sustentadamente e, em 2009, abrimos uma nova frente na Alemanha, país onde julgamos ter grande potencial de crescimento, não só pelo mercado, mas também pela qualidade do parceiro no terreno”.
O volume de negócios global em 2008 foi ligeiramente superior aos 400 mil euros, um novo recorde da empresa, e as perspectivas para 2009 “apontam num crescimento de 6% em facturação”.
Para além disto, a Adega de Guimarães continua a pensar realizar um investimento em enoturismo, com o plantio de vinha na propriedade e a recuperação de várias casas agrícolas para realização de provas, museu, auditório, bar de apoio e esplanada. “Embora não esteja esquecido, de momento está adormecido”. Mas, pelo que vemos do trabalho desenvolvido nesta adega, pode despertar a qualquer momento. Tal como o fez, com enorme sucesso, a própria Adega Cooperativa de Guimarães. •

Especial Vinhos Verdes
Adega Cooperativa de Monção (PDF)
Prossegue estratégia de investimento
Depois de comemorados os 50 anos de existência, a Adega Cooperativa de Monção prepara-se para outros desafios. Novos investimentos e novas referências no mercado marcam a estratégia deste gigante dos vinhos verdes.
Reportagem: Marc Barros
Quando o tema é “casos de sucesso” no sector cooperativo, a Adega Cooperativa de Monção é um dos exemplos que salta de imediato à mente. É um caso paradigmático de gestão e profissionalismo, sem nunca perder de vista as suas origens e, bem assim, a responsabilidade social para com a comunidade em que se insere.
Depois da viragem dos 50 anos, a Adega Cooperativa de Monção olha com optimismo para o futuro. Mas, como este está apenas ao virar da esquina (e sabendo que, neste mundo dos vinhos, as mudanças são rápidas como um piscar de olhos), novos projectos e estratégias estão a ser definidos, e novos rumos e mercados estão a ser traçados.
Com a conclusão e entrada em operação da quarta fase de ampliação das instalações da adega, num investimento de 6,5 milhões de euros que foi inaugurado no decurso das comemorações do seu cinquentenário, o presidente da Adega Cooperativa de Monção, Antonino Barbosa, confidenciou que está previsto um novo projecto “para aquisição de novas cubas de fermentação”, bem como de “uma nova linha de engarrafamento para espumantes e restante maquinaria para a sua elaboração”. O presidente daquela instituição revelou ainda aguardar “o reembolso de 70% do investimento realizado em 2007, na ordem dos dois milhões de euros”.
A candidatura ao Programa de Desenvolvimento Rural do Instituto de Financiamento de Agricultura e Pescas, no valor de 2,6 milhões de euros, “visa a construção de um armazém de produto acabado, linha completa para espumantes, melhorias no frio, investimentos em equipamento de laboratório e em fermentação de vinho branco”. O objectivo do investimento é iniciar a produção de espumante em escala e dotar a Adega Cooperativa de Monção de maior flexibilidade produtiva, explica.
Ou seja, a compra de cubas vem no sentido, “não do aumento de capacidade de produção de vinhos”, mas na resolução de dificuldades levantadas aquando das fermentações pois, “embora tenhamos cubas para fermentação de 20 milhões de litros, nunca utilizamos em pleno esta capacidade, pois convém que, durante as vinificações, as cubas nunca sejam cheias na sua totalidade”.
Nesse aspecto, adiantou Antonino Barbosa, “podemos ter dificuldades em alguns anos de muita produção, algo que não se verificou em 2008 e 2007”, dada a quebra verificada. Na última campanha, a Adega de Monção produziu 4,5 milhões de litros, menos dois milhões que em 2007. Exportação em crescimento
Há 51 anos atrás, a Adega Cooperativa de Monção foi fundada por iniciativa de 24 viticultores. A evolução foi positiva e constante, ao longo dos anos. Em 1962 contava com 62 associados, em 1992 com 855, em 1993 ultrapassou a fasquia dos mil, em 2006 com 1585 associados e em 2009 com 1800.
A adesão cada vez maior de cooperantes da sub-região de Monção, incluindo os concelhos de Monção e Melgaço, levou os viticultores ao plantio de vinhas em terrenos mais apropriados e a uma mais criteriosa selecção de porta enxertos e das castas recomendadas para a sub-região: o Alvarinho e a Trajadura para os brancos e o Vinhão, o Pedral e o Alvarelhão para os tintos.
Actualmente, a Adega de Monção representa cerca de 65% do vinho Alvarinho produzido na região. Dada a crescente dimensão deste universo, aquela cooperativa tem encorajado a reconversão das vinhas, com o consequente aumento de produção.
Como antigo funcionário das Finanças, Antonino Barbosa garante que as contas da estrutura a que preside “estão em dia”, algo que não é muito comum no panorama cooperativo nacional. Tal fenómeno deve-se a “uma gestão profissional, mantendo a vocação social” que desde sempre norteou estas empresas.
A evolução tecnológica e social reflectiu-se também na produção, representando um crescimento contínuo. Se em 1990 a Adega de Monção facturava 1,5 milhões de euros, em 2008, as vendas atingiram o maior valor de sempre, com 12,4 milhões de euros.
Do volume total de vendas, 20% devem-se aos mercados externos. “Tivemos em 2008 um ligeiro crescimento na exportação, com a penetração em novos mercados, mas também o crescimento de quota nos mercados onde já estávamos implantados”. Nestes casos incluem-se Angola (onde a marca Muralhas de Monção se destaca), França, Brasil, EUA, Alemanha e Andorra. Antonino Barbosa destaca a importância do mercado angolano pela sua taxa de crescimento, como “um bom mercado que tem que ser bem aproveitado, pois encontra-se fortemente capitalizado e paga antecipadamente”.
Muralhas diversifica
As inovações da Adega de Monção alastram-se igualmente à oferta de novos produtos. Aproveitando o sucesso e notoriedade da marca, foram lançados em 2008, como parte de uma experiência, 10 mil garrafas do primeiro espumante da sua leva, com a marca Muralhas de Monção. Trata-se de um espumante 100% Alvarinho, que surge na senda de uma crescente espumantização desta casta. Também por essa razão, “este ano engarrafamos 30 mil garrafas e queremos continuar a crescer ano após ano, até respondermos aos pedidos do mercado”. Para além deste espumante branco, a cooperativa colocou no mercado o Adega de Monção Tinto.
Com a mesma base de vinhos, a adega lançou ainda, em 2008, com grande sucesso, o rosado da marca Muralhas de Monção, “elaborado a partir dos lotes tintos que produzimos na adega e que contrabalançam a quebra que se vem sentido ano após ano nas vendas de tinto”, este de consumo eminentemente regional. Aliás, a marca Muralhas de Monção continua a ser o grande ex-libris da Adega de Monção, com “uma produção anual de três milhões de garrafas de 0,75 l e 500 mil de 0,37l”, resume Antonino Barbosa.
Mas como a produção da Adega de Monção não se esgota na marca Muralhas, outras referências merecem igualmente destaque, como o Alvarinho Deu-La-Deu estagiado em casco de carvalho, o Alvarinho Deu-la-Deu e as marcas Danaide branco e tinto e Adega de Monção branco e tinto. De fora, pela sua qualidade e tipicidade, não poderiam ficar as aguardentes, como prova da capacidade de diversificação e perspectiva de um dos melhores exemplos do cooperativismo nacional. •

Especial Vinhos Verdes
PROVAM (PDF)
Os 10 de Monção
Uma sociedade por quotas que reúne dez produtores é a base de sustentação de uma das empresas mais dinâmicas da sub-região de Monção e Melgaço. A Provam continua a dar mostras da qualidade e irreverência passíveis de obter na produção de vinhos com base em Alvarinho.
Reportagem: Marc Barros
Uma aposta arrojada na produção de vinhos baseados na casta Alvarinho esteve na base da criação da Provam – Produtores de Vinho Alvarinho de Monção – em 1992. Decididos a produzir apenas vinhos brancos num volume considerável, numa altura em que o mercado estava a descobrir as virtudes da casta e apenas a Adega Cooperativa de Monção trabalhava grandes quantidades, dez viticultores daquela sub-região uniram esforços. Desta forma, sob a batuta do enólogo Anselmo Mendes, avançaram para a constituição de uma sociedade por quotas e a construção de uma adega moderna e funcional para produção de vinhos elaborados com base nas castas Alvarinho e Trajadura.
O enólogo José Augusto Domingues acompanhou os últimos anos deste já rico percurso, que conheceu algumas mudanças. A certo ponto, um dos produtores decidiu entregar a quota à sua filha pelo que, actualmente, entre os mesmos dez sócios, conta-se já uma senhora.
Assim, com uma capacidade instalada de 460 mil litros, são das vinhas dos sócios que são colhidas 25% das uvas laboradas pela Provam, sendo as restantes adquiridas a viticultores da sub-região. Todas estas vinhas “foram seleccionadas pelo seu potencial vitícola e enológico e durante cinco anos foram também estudadas de modo a serem escolhidas as melhores para construção de bons e diversificados vinhos Alvarinho”.
O conceito da Provam abrange não apenas a vinificação de uvas dos seus produtores, mas também a aquisição de uvas. José Augusto Domingues destaca, porém, as virtudes do conceito adoptado pois, “aquando da entrega da uva, desde que esta cumpra todos os requisitos fitossanitários e de qualidade, o produtor é imediatamente pago”. Na última colheita, o preço da uva Alvarinho ascendeu a 1,05 euros/kg e a Trajadura a 0,55 euros/kg. Esta diferença explica-se pelo facto de “o rendimento por quilo de uva e mosto por hectare” ser mais reduzido no Alvarinho. “É um grande esforço que a empresa faz, mas resulta para todos os envolvidos”.
A tecnologia da adega permite potenciar o valor enológico das castas desde a marcação das vindimas vinha a vinha, passando por colheita feita exclusivamente em caixas furadas de 20 quilos, até prensagem suave com opção de maceração pelicular, arrefecimento do mosto e temperatura de fermentação controlada.
Com uma área própria de 40 hectares, a Provam vinifica anualmente cerca de 400 mil litros de Alvarinho e Trajadura, num total de 500 mil garrafas. Deste volume, cerca de 100 mil litros de Alvarinho são direccionados para a marca Portal do Fidalgo, 10 mil para base de espumante, para além de um pequeno lote de 6 mil litros para fermentar em madeira, a que se juntam outros 100 mil litros de Alvarinho e Trajadura. “Há ainda um outro lote, cuja percentagem de Alvarinho é mais reduzida, que ronda os 200 mil litros”, explica José Augusto Domingues.
O segredo dos vinhos
Nasce assim um leque diversificado de produtos, “a pensar nos diferentes gostos e diferentes mercados”. A marca mais emblemática é o Portal do Fidalgo. Elaborado com 100% Alvarinho, é um vinho “que não sai muito cedo para o mercado, ao contrário da tendência geral do vinho verde. Fica seis meses em batonnage regular em inox, de cariz semanal. A evolução lenta dá-nos a certeza de um vinho mais encorpado, com estrutura, untuoso, mas com um carácter frutado e floral”.
Por sua vez, o Varanda do Conde resulta de “um lote de 70% Alvarinho e 30% Trajadura”. Este é um vinho direccionado “para a gama do vinho verde, mais fácil e fresco”, mas sofre também “seis meses de estágio em borras para lhe conferir estabilidade”.
Direccionado para a restauração, surge a marca P. Elaborado com cerca de 30% Alvarinho e 70% Trajadura. Trata-se de “um vinho fresco e frutado, com excelente relação preço/qualidade, nada ácido, não é enjoativo nem doce”. Desta marca saem anualmente cerca de 260 mil garrafas.
Porém, a grande “coqueluche”, como lhe chama o enólogo, é o Vinha Antiga, um Escolha feito a partir de uvas dos sócios, “vinificadas separadamente, com decantação em inox a partir de mosto de lágrima e fermentado em madeira durante cerca de cinco a seis meses”. O enólogo explica que este período nunca é definitivo, variando “em função da qualidade do vinho e da sua relação com a madeira”. Por outro lado, é feita uma selecção de barricas, “a partir de ensaios de barricas de carvalho velho, com cinco anos de utilização. Evitamos barricas novas, que não marquem o vinho em demasia, procurando a melhor conjugação entre a fruta e o aroma com os taninos da madeira. Por isso, dos seis mil litros estagiados, são feitas cerca de seis mil garrafas, resultando alguma perda”.
O prazer do espumante
Com o crescente reconhecimento da valia da casta Alvarinho e da sua polivalência enquanto “matéria-prima” ao dispor dos enólogos, foi inevitável o aparecimento no mercado de várias propostas em torno da espumantização destes vinhos. A Provam não constituiu excepção, com o lançamento, em 2000, do espumante Coto de Mamoelas. Segundo José Augusto Domingues, o objectivo principal foi o de “estimular a vocação gastronómica do espumante, mais do que um mero vinho de celebração”. E refere que “o mercado já começa a aceitar este tipo de produtos, como se pode ver pelo aumento do número de espumantes que os produtores da região lançaram nos últimos anos”.
O Coto de Mamoelas resulta de “um dos primeiros ensaios feitos na região de espumantização da casta” e é elaborado com 100% Alvarinho. Trata-se, explicou, “de um espumante diferente de todos os outros, pois possui uma frescura muito particular, com notas frutadas da casta, oriundas do estágio com as borras, a que se juntam algumas notas mais confitadas características do espumante, e com um volume de boca maior”.
Em 2002, a Provam entrou num outro segmento de mercado, “mais económico, com uma versão do Varanda do Conde”. Trata-se do espumante Castas de Monção, com 70% Alvarinho e 30% Trajadura, “mais simples em boca, mas muito agradável e fácil, com a frescura da Trajadura, mas um bruto muito equilibrado”. Destes dois espumantes são lançadas anualmente 35 mil garrafas, revelando o ecletismo de uma empresa que se assume como vocacionada para os mercados onde se insere, mas não esquece as suas origens nem, muito menos, a nobreza dos vinhos que produz. •
Mercados diversificados
O mercado, sublinha José Augusto Domingues, tem respondido da melhor forma aos vinhos que a Provam coloca, não apenas em Portugal, mas também no exterior. A exportação representa já cerca de 15% do volume de vendas global. “Temos registado um crescimento sustentado mas com uma estagnação no ano passado, dada a conjuntura”. A diversificação de destinos é evidente: Canadá, EUA, Brasil, Macau, Espanha, Andorra, França, Inglaterra, Noruega, Luxemburgo, Holanda ou Suíça contam-se entre os países de exportação. “Já este anos entramos em Cabo Verde, no sector da hotelaria”, adianta o enólogo. “Não exportamos a quantidade desejada, mas temos uma diversidade de mercados que nos agrada”.
Por sua vez, no mercado nacional destacam-se o canal Horeca. “Fazemos a nossa distribuição na zona Norte e temos distribuidores no resto do país”. A Provam tem ainda presença na grande distribuição com uma marca própria onde consegue, com um vinho Alvarinho de excelente relação qualidade/preço, obter uma parte significativa dos seus proveitos económicos. •

Especial Vinhos Verdes
Quinta de Carapeços (PDF)
A nobreza dos vinhos
A nobreza da uva Alvarinho e a surpresa da casta Vinhão foram as notas principais da visita à Quinta de Carapeços. Depois do lançamento, em 2008, de uma gama de espumantes, poderá estar na calha um novo Late Harvest.
Reportagem: Marc Barros
Em Amarante, terra de Pascoes e Souza Cardoso, conhecida pela sua beleza natural, pela frescura do rio Tâmega, mas também pela qualidade dos seus vinhos, pudemos visitar a Quinta de Carapeços, produtor de vinho verde de altíssima qualidade e com uma estratégia comercial interessante. Tal como Amarante e os seus vinhos, com ligações aos tempos da fundação da nacionalidade, também as referências históricas da quinta são longínquas, remontando ao século XIV, mais concretamente ao ano de 1338.
No entanto, tradição e passado não antagonizam com os valores de modernidade e futuro, como pudemos comprovar com o nosso guia, Miguel Abreu, que representa já a quarta geração desta família produtora de vinhos.
Com base nos 20 hectares de vinhedo distribuídos por duas propriedades, a Quinta do Logarinho e a Quinta de Carapeços, dos quais quatro hectares recentemente adquiridos e estão a ser replantados, são elaborados vinhos que desmistificam todos os preconceitos existentes em redor dos vinhos verdes. Desde logo a produção de uvas da casta Alvarinho, numa zona que não lhe é tradicional, o que, por essa razão, implica que os vinhos brancos da Quinta de Carapeços sejam colocados no mercado com a designação Regional Minho. Algo que Miguel Abreu não vê, necessariamente, com maus olhos…
O papel do enólogo
O objectivo inicial destes produtores, quando decidiram lançar uma nova marca no mercado, o que aconteceu em 2003, foi desde logo a sua inclusão em nichos de elevada qualidade, direccionada para o segmento alto. Daí que, tenham optado pela casta branca que, naturalmente, adaptar-se-ia com toda a sua nobreza e versatilidade ao terroir de Carapeços, ou seja, a casta Alvarinho.
Todos os vinhos da Quinta de Carapeços são “produzidos com uvas próprias”, pelo que o conceito original, segundo Miguel Abreu, visa “apostar na qualidade dos vinhos, com boa aceitação no mercado”. Nesse sentido, refere, “o papel do enólogo Jorge Sousa Pinto foi fundamental”, pelo seu conhecimento e experiência não apenas na casta, mas igualmente pelo papel desempenhado no que podemos designar uma renovada vaga de vinhos verdes. A experiência e o carácter do enólogo assentaram como uma luva no conceito que os produtores pretendiam oferecer, conseguindo obter uma excepcional regularidade dos seus vinhos desde o lançamento da marca.
Para além disso, foi dada especial atenção à sua “imagem, incluindo a garrafa e o rótulo, que traduz a qualidade do vinho”, até porque, frisou Miguel Abreu, “se o vinho não vale a pena, não há imagem que lhe valha”.
A diversidade do Alvarinho
A Quinta de Carapeços possui um portefólio bastante vasto, incluindo um Alvarinho Escolha, um monocasta Alvarinho e um lote de Alvarinho e Trajadura, nos brancos. A marca serve ainda de guarda-chuva para um rosé, elaborado a partir da casta Espadeiro, bem como um tinto Vinhão. Mais recentemente, em 2008, a empresa decidiu lançar três espumantes: um branco Alvarinho, um rosado Espadeiro e um tinto Vinhão, todos estes Reserva Bruto.
O leque de vinhos baseados em Alvarinho prova a versatilidade da casta, podendo resultar em vinhos complexos, elegantes e untuosos no caso do Escolha, vinhos de grande exuberância aromática e de grande genuinidade e tipicidade regional como o Quinta de Carapeços Alvarinho, ou mesmo vinhos de grande jovialidade e frescura, sem descurar a nobreza que a casta Alvarinho oferece, em conjugação com a irreverência da casta Trajadura.
Mas a grande qualidade do trabalho do enólogo não se fica por aqui. É amplamente merecido o destaque para o tinto Quinta de Carapeços Vinhão, um vinho de grande nível e exuberância aromática. Com notas de frutos bem vincadas no nariz, belíssima cor sangue e grande profundidade e macieza na boca, é um vinho nada adstringente, antes com taninos salientes, fortes, mas bem polidos, exactamente o inverso do que torna o verde tinto, por vezes, imbebível. É com alegria que vemos o lançamento de vinhos com esta qualidade, provando que é possível afastar os estigmas que ainda pendem sobre os consumidores, relegando-os de um produto que pode ser extremamente compensador.
Já o rosé, por sua vez, é um vinho despretensioso, onde brilham as características aromáticas da casta Espadeiro. De reduzido teor alcoólico e nada doce, antes com um bom equilíbrio entre a acidez e o açúcar, este vinho é pontilhado com um leve gás natural, que lhe confere alegria e vivacidade. Um típico – e bem conseguido – vinho de Verão.
A Quinta de Carapeços produz um total médio anual de 34 mil garrafas, das quais 3800 do Escolha, 3400 garrafas do Alvarinho 100%, 12 mil do lote Alvarinho/Trajadura, 10 mil do Rosé e 1200 do tinto.
Novas aventuras em Carapeços
A Quinta de Carapeços apostou no lançamento de uma gama de espumantes, todos eles da colheita de 2005. Segundo Miguel Abreu, esta aventura “começou por ser uma experiência que veio a ter bons resultados”, sendo lançados para o mercado no Natal de 2008. O seu desempenho é visto como “muito positivo”, apesar da sua curta presença no mercado. Elaborado totalmente com uvas da sua produção, segundo o método tradicional, os espumantes da colheita de 2005 sofreram um estágio de 26 meses em garrafa.
Mas a visão dos proprietários da Quinta de Carapeços, juntamente com a capacidade técnica do enólogo, motivaram a realização de uma outra experiência, que terminou no lançamento, em 2005, do primeiro Late Harvest da região e um dos primeiros, se não mesmo o primeiro, rosé. “Foram 1000 garrafas de um vinho obtido a partir de Espadeiro, casta muito resistente à passificação”, com resultados considerados satisfatórios. Por esse motivo, a experiência poderá ser repetida ainda este ano, caso as condições climatéricas assim o proporcionem.
Eventualmente, o futuro poderá trazer a produção e lançamento de um vinho monocasta Azal, típica daquela área, caso “obtenha os patamares de qualidade necessários, para entrar num mercado que possa exigir maiores quantidades”. A produção total da Quinta de Carapeços ronda os 75 mil litros anuais, dos quais cerca de 35 mil são já da casta Azal.
Exportação em crescimento
A segmentação dos vinhos da Quinta de Carapeços está sempre presente na mente dos seus responsáveis, que dessa forma decidiram tomar em mãos a difícil tarefa da distribuição. Apostando no mercado da restauração e garrafeiras seleccionadas, a empresa excluiu “a grande distribuição, apesar de termos recebido algumas propostas, pois é uma guerra onde não queremos entrar, devido ao esmagamento de preços”.
O próprio Miguel Abreu exerce funções sobretudo nos mercados externos. A exportação representa actualmente apenas uma fatia residual das vendas, na ordem dos 3%, com Suíça e Alemanha a serem os mercados principais.
Porém, as perspectivas de curto prazo apontam para o aumento desta quota para Inglaterra, “apesar de ser um mercado complicado, sobretudo devido às elevadas taxas aí praticadas, que encarecem sobremaneira os vinhos”, bem como os mercados asiáticos, nomeadamente o Japão, “onde a aceitação dos vinhos verdes tem crescido de forma importante”, revelou. Novos destinos para um conjunto de vinhos de grande nível, onde a herança familiar não se apresenta incompatível com uma visão optimista do futuro. •
