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Especial Vinhos Verdes
PROVAM (PDF)
Os 10 de Monção
Uma sociedade por quotas que reúne dez produtores é a base de sustentação de uma das empresas mais dinâmicas da sub-região de Monção e Melgaço. A Provam continua a dar mostras da qualidade e irreverência passíveis de obter na produção de vinhos com base em Alvarinho.
Reportagem: Marc Barros
Uma aposta arrojada na produção de vinhos baseados na casta Alvarinho esteve na base da criação da Provam – Produtores de Vinho Alvarinho de Monção – em 1992. Decididos a produzir apenas vinhos brancos num volume considerável, numa altura em que o mercado estava a descobrir as virtudes da casta e apenas a Adega Cooperativa de Monção trabalhava grandes quantidades, dez viticultores daquela sub-região uniram esforços. Desta forma, sob a batuta do enólogo Anselmo Mendes, avançaram para a constituição de uma sociedade por quotas e a construção de uma adega moderna e funcional para produção de vinhos elaborados com base nas castas Alvarinho e Trajadura.
O enólogo José Augusto Domingues acompanhou os últimos anos deste já rico percurso, que conheceu algumas mudanças. A certo ponto, um dos produtores decidiu entregar a quota à sua filha pelo que, actualmente, entre os mesmos dez sócios, conta-se já uma senhora.
Assim, com uma capacidade instalada de 460 mil litros, são das vinhas dos sócios que são colhidas 25% das uvas laboradas pela Provam, sendo as restantes adquiridas a viticultores da sub-região. Todas estas vinhas “foram seleccionadas pelo seu potencial vitícola e enológico e durante cinco anos foram também estudadas de modo a serem escolhidas as melhores para construção de bons e diversificados vinhos Alvarinho”.
O conceito da Provam abrange não apenas a vinificação de uvas dos seus produtores, mas também a aquisição de uvas. José Augusto Domingues destaca, porém, as virtudes do conceito adoptado pois, “aquando da entrega da uva, desde que esta cumpra todos os requisitos fitossanitários e de qualidade, o produtor é imediatamente pago”. Na última colheita, o preço da uva Alvarinho ascendeu a 1,05 euros/kg e a Trajadura a 0,55 euros/kg. Esta diferença explica-se pelo facto de “o rendimento por quilo de uva e mosto por hectare” ser mais reduzido no Alvarinho. “É um grande esforço que a empresa faz, mas resulta para todos os envolvidos”.
A tecnologia da adega permite potenciar o valor enológico das castas desde a marcação das vindimas vinha a vinha, passando por colheita feita exclusivamente em caixas furadas de 20 quilos, até prensagem suave com opção de maceração pelicular, arrefecimento do mosto e temperatura de fermentação controlada.
Com uma área própria de 40 hectares, a Provam vinifica anualmente cerca de 400 mil litros de Alvarinho e Trajadura, num total de 500 mil garrafas. Deste volume, cerca de 100 mil litros de Alvarinho são direccionados para a marca Portal do Fidalgo, 10 mil para base de espumante, para além de um pequeno lote de 6 mil litros para fermentar em madeira, a que se juntam outros 100 mil litros de Alvarinho e Trajadura. “Há ainda um outro lote, cuja percentagem de Alvarinho é mais reduzida, que ronda os 200 mil litros”, explica José Augusto Domingues.
O segredo dos vinhos
Nasce assim um leque diversificado de produtos, “a pensar nos diferentes gostos e diferentes mercados”. A marca mais emblemática é o Portal do Fidalgo. Elaborado com 100% Alvarinho, é um vinho “que não sai muito cedo para o mercado, ao contrário da tendência geral do vinho verde. Fica seis meses em batonnage regular em inox, de cariz semanal. A evolução lenta dá-nos a certeza de um vinho mais encorpado, com estrutura, untuoso, mas com um carácter frutado e floral”.
Por sua vez, o Varanda do Conde resulta de “um lote de 70% Alvarinho e 30% Trajadura”. Este é um vinho direccionado “para a gama do vinho verde, mais fácil e fresco”, mas sofre também “seis meses de estágio em borras para lhe conferir estabilidade”.
Direccionado para a restauração, surge a marca P. Elaborado com cerca de 30% Alvarinho e 70% Trajadura. Trata-se de “um vinho fresco e frutado, com excelente relação preço/qualidade, nada ácido, não é enjoativo nem doce”. Desta marca saem anualmente cerca de 260 mil garrafas.
Porém, a grande “coqueluche”, como lhe chama o enólogo, é o Vinha Antiga, um Escolha feito a partir de uvas dos sócios, “vinificadas separadamente, com decantação em inox a partir de mosto de lágrima e fermentado em madeira durante cerca de cinco a seis meses”. O enólogo explica que este período nunca é definitivo, variando “em função da qualidade do vinho e da sua relação com a madeira”. Por outro lado, é feita uma selecção de barricas, “a partir de ensaios de barricas de carvalho velho, com cinco anos de utilização. Evitamos barricas novas, que não marquem o vinho em demasia, procurando a melhor conjugação entre a fruta e o aroma com os taninos da madeira. Por isso, dos seis mil litros estagiados, são feitas cerca de seis mil garrafas, resultando alguma perda”.
O prazer do espumante
Com o crescente reconhecimento da valia da casta Alvarinho e da sua polivalência enquanto “matéria-prima” ao dispor dos enólogos, foi inevitável o aparecimento no mercado de várias propostas em torno da espumantização destes vinhos. A Provam não constituiu excepção, com o lançamento, em 2000, do espumante Coto de Mamoelas. Segundo José Augusto Domingues, o objectivo principal foi o de “estimular a vocação gastronómica do espumante, mais do que um mero vinho de celebração”. E refere que “o mercado já começa a aceitar este tipo de produtos, como se pode ver pelo aumento do número de espumantes que os produtores da região lançaram nos últimos anos”.
O Coto de Mamoelas resulta de “um dos primeiros ensaios feitos na região de espumantização da casta” e é elaborado com 100% Alvarinho. Trata-se, explicou, “de um espumante diferente de todos os outros, pois possui uma frescura muito particular, com notas frutadas da casta, oriundas do estágio com as borras, a que se juntam algumas notas mais confitadas características do espumante, e com um volume de boca maior”.
Em 2002, a Provam entrou num outro segmento de mercado, “mais económico, com uma versão do Varanda do Conde”. Trata-se do espumante Castas de Monção, com 70% Alvarinho e 30% Trajadura, “mais simples em boca, mas muito agradável e fácil, com a frescura da Trajadura, mas um bruto muito equilibrado”. Destes dois espumantes são lançadas anualmente 35 mil garrafas, revelando o ecletismo de uma empresa que se assume como vocacionada para os mercados onde se insere, mas não esquece as suas origens nem, muito menos, a nobreza dos vinhos que produz. •
Mercados diversificados
O mercado, sublinha José Augusto Domingues, tem respondido da melhor forma aos vinhos que a Provam coloca, não apenas em Portugal, mas também no exterior. A exportação representa já cerca de 15% do volume de vendas global. “Temos registado um crescimento sustentado mas com uma estagnação no ano passado, dada a conjuntura”. A diversificação de destinos é evidente: Canadá, EUA, Brasil, Macau, Espanha, Andorra, França, Inglaterra, Noruega, Luxemburgo, Holanda ou Suíça contam-se entre os países de exportação. “Já este anos entramos em Cabo Verde, no sector da hotelaria”, adianta o enólogo. “Não exportamos a quantidade desejada, mas temos uma diversidade de mercados que nos agrada”.
Por sua vez, no mercado nacional destacam-se o canal Horeca. “Fazemos a nossa distribuição na zona Norte e temos distribuidores no resto do país”. A Provam tem ainda presença na grande distribuição com uma marca própria onde consegue, com um vinho Alvarinho de excelente relação qualidade/preço, obter uma parte significativa dos seus proveitos económicos. •

Especial Vinhos Verdes
Quinta de Carapeços (PDF)
A nobreza dos vinhos
A nobreza da uva Alvarinho e a surpresa da casta Vinhão foram as notas principais da visita à Quinta de Carapeços. Depois do lançamento, em 2008, de uma gama de espumantes, poderá estar na calha um novo Late Harvest.
Reportagem: Marc Barros
Em Amarante, terra de Pascoes e Souza Cardoso, conhecida pela sua beleza natural, pela frescura do rio Tâmega, mas também pela qualidade dos seus vinhos, pudemos visitar a Quinta de Carapeços, produtor de vinho verde de altíssima qualidade e com uma estratégia comercial interessante. Tal como Amarante e os seus vinhos, com ligações aos tempos da fundação da nacionalidade, também as referências históricas da quinta são longínquas, remontando ao século XIV, mais concretamente ao ano de 1338.
No entanto, tradição e passado não antagonizam com os valores de modernidade e futuro, como pudemos comprovar com o nosso guia, Miguel Abreu, que representa já a quarta geração desta família produtora de vinhos.
Com base nos 20 hectares de vinhedo distribuídos por duas propriedades, a Quinta do Logarinho e a Quinta de Carapeços, dos quais quatro hectares recentemente adquiridos e estão a ser replantados, são elaborados vinhos que desmistificam todos os preconceitos existentes em redor dos vinhos verdes. Desde logo a produção de uvas da casta Alvarinho, numa zona que não lhe é tradicional, o que, por essa razão, implica que os vinhos brancos da Quinta de Carapeços sejam colocados no mercado com a designação Regional Minho. Algo que Miguel Abreu não vê, necessariamente, com maus olhos…
O papel do enólogo
O objectivo inicial destes produtores, quando decidiram lançar uma nova marca no mercado, o que aconteceu em 2003, foi desde logo a sua inclusão em nichos de elevada qualidade, direccionada para o segmento alto. Daí que, tenham optado pela casta branca que, naturalmente, adaptar-se-ia com toda a sua nobreza e versatilidade ao terroir de Carapeços, ou seja, a casta Alvarinho.
Todos os vinhos da Quinta de Carapeços são “produzidos com uvas próprias”, pelo que o conceito original, segundo Miguel Abreu, visa “apostar na qualidade dos vinhos, com boa aceitação no mercado”. Nesse sentido, refere, “o papel do enólogo Jorge Sousa Pinto foi fundamental”, pelo seu conhecimento e experiência não apenas na casta, mas igualmente pelo papel desempenhado no que podemos designar uma renovada vaga de vinhos verdes. A experiência e o carácter do enólogo assentaram como uma luva no conceito que os produtores pretendiam oferecer, conseguindo obter uma excepcional regularidade dos seus vinhos desde o lançamento da marca.
Para além disso, foi dada especial atenção à sua “imagem, incluindo a garrafa e o rótulo, que traduz a qualidade do vinho”, até porque, frisou Miguel Abreu, “se o vinho não vale a pena, não há imagem que lhe valha”.
A diversidade do Alvarinho
A Quinta de Carapeços possui um portefólio bastante vasto, incluindo um Alvarinho Escolha, um monocasta Alvarinho e um lote de Alvarinho e Trajadura, nos brancos. A marca serve ainda de guarda-chuva para um rosé, elaborado a partir da casta Espadeiro, bem como um tinto Vinhão. Mais recentemente, em 2008, a empresa decidiu lançar três espumantes: um branco Alvarinho, um rosado Espadeiro e um tinto Vinhão, todos estes Reserva Bruto.
O leque de vinhos baseados em Alvarinho prova a versatilidade da casta, podendo resultar em vinhos complexos, elegantes e untuosos no caso do Escolha, vinhos de grande exuberância aromática e de grande genuinidade e tipicidade regional como o Quinta de Carapeços Alvarinho, ou mesmo vinhos de grande jovialidade e frescura, sem descurar a nobreza que a casta Alvarinho oferece, em conjugação com a irreverência da casta Trajadura.
Mas a grande qualidade do trabalho do enólogo não se fica por aqui. É amplamente merecido o destaque para o tinto Quinta de Carapeços Vinhão, um vinho de grande nível e exuberância aromática. Com notas de frutos bem vincadas no nariz, belíssima cor sangue e grande profundidade e macieza na boca, é um vinho nada adstringente, antes com taninos salientes, fortes, mas bem polidos, exactamente o inverso do que torna o verde tinto, por vezes, imbebível. É com alegria que vemos o lançamento de vinhos com esta qualidade, provando que é possível afastar os estigmas que ainda pendem sobre os consumidores, relegando-os de um produto que pode ser extremamente compensador.
Já o rosé, por sua vez, é um vinho despretensioso, onde brilham as características aromáticas da casta Espadeiro. De reduzido teor alcoólico e nada doce, antes com um bom equilíbrio entre a acidez e o açúcar, este vinho é pontilhado com um leve gás natural, que lhe confere alegria e vivacidade. Um típico – e bem conseguido – vinho de Verão.
A Quinta de Carapeços produz um total médio anual de 34 mil garrafas, das quais 3800 do Escolha, 3400 garrafas do Alvarinho 100%, 12 mil do lote Alvarinho/Trajadura, 10 mil do Rosé e 1200 do tinto.
Novas aventuras em Carapeços
A Quinta de Carapeços apostou no lançamento de uma gama de espumantes, todos eles da colheita de 2005. Segundo Miguel Abreu, esta aventura “começou por ser uma experiência que veio a ter bons resultados”, sendo lançados para o mercado no Natal de 2008. O seu desempenho é visto como “muito positivo”, apesar da sua curta presença no mercado. Elaborado totalmente com uvas da sua produção, segundo o método tradicional, os espumantes da colheita de 2005 sofreram um estágio de 26 meses em garrafa.
Mas a visão dos proprietários da Quinta de Carapeços, juntamente com a capacidade técnica do enólogo, motivaram a realização de uma outra experiência, que terminou no lançamento, em 2005, do primeiro Late Harvest da região e um dos primeiros, se não mesmo o primeiro, rosé. “Foram 1000 garrafas de um vinho obtido a partir de Espadeiro, casta muito resistente à passificação”, com resultados considerados satisfatórios. Por esse motivo, a experiência poderá ser repetida ainda este ano, caso as condições climatéricas assim o proporcionem.
Eventualmente, o futuro poderá trazer a produção e lançamento de um vinho monocasta Azal, típica daquela área, caso “obtenha os patamares de qualidade necessários, para entrar num mercado que possa exigir maiores quantidades”. A produção total da Quinta de Carapeços ronda os 75 mil litros anuais, dos quais cerca de 35 mil são já da casta Azal.
Exportação em crescimento
A segmentação dos vinhos da Quinta de Carapeços está sempre presente na mente dos seus responsáveis, que dessa forma decidiram tomar em mãos a difícil tarefa da distribuição. Apostando no mercado da restauração e garrafeiras seleccionadas, a empresa excluiu “a grande distribuição, apesar de termos recebido algumas propostas, pois é uma guerra onde não queremos entrar, devido ao esmagamento de preços”.
O próprio Miguel Abreu exerce funções sobretudo nos mercados externos. A exportação representa actualmente apenas uma fatia residual das vendas, na ordem dos 3%, com Suíça e Alemanha a serem os mercados principais.
Porém, as perspectivas de curto prazo apontam para o aumento desta quota para Inglaterra, “apesar de ser um mercado complicado, sobretudo devido às elevadas taxas aí praticadas, que encarecem sobremaneira os vinhos”, bem como os mercados asiáticos, nomeadamente o Japão, “onde a aceitação dos vinhos verdes tem crescido de forma importante”, revelou. Novos destinos para um conjunto de vinhos de grande nível, onde a herança familiar não se apresenta incompatível com uma visão optimista do futuro. •

Especial – Vinhos Verdes
Entrevista a Manuel Pinheiro (PDF)
- Presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV)
“É preferível uma vitória em equipa que uma derrota em solidão”
O aumento da presença nos mercados externos e a captação de investidores de outras regiões nacionais contam-se entre os desígnios do presidente da região dos vinhos verdes.
Manuel Pinheiro revela ainda as principais alterações introduzidas pelo novo estatuto da região.
Entrevista: Marc Barros
É uma região em franco crescimento
A região dos vinhos verdes tem melhorado anualmente o seu desempenho, o que não a isenta de algumas contradições. Os últimos dados divulgados pelo índice AC Nielsen referem que, em 2008, a quota de mercado dos vinhos verdes foi de 22,7%, num total de 20 milhões de litros transaccionados, e 19,6% em valor, que representa 71,5 milhões de euros. O presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), Manuel Pinheiro, sublinha que este índice não cobre todos os estabelecimentos do país, mas demonstra que a região está firme na segunda posição a nível nacional e, curiosamente, em primeiro a nível de vinhos com Denominação de Origem, já que o Alentejo arrebata a liderança à custa dos vinhos regionais.
Esta performance tem sido de “crescimento nos últimos cinco anos”. Porém, regista uma quebra de produção nos últimos anos e, consequentemente, baixa de stocks. “Devemos ser das poucas regiões europeias onde se verifica falta de vinho”, o que acarreta várias consequências: desde logo, o “aumento dos preços – há dois anos o vinho a granel era vendido a 20 cêntimos/litro e hoje está a quase um euro”, afiança. “A região tem uma falta estrutural de vinho”, de onde resulta importância acrescida ao novo estatuto da região (ver caixa).
Por outro lado, as candidaturas ao programa Vitis, que financia a reconversão da vinha, na região dos vinhos verdes, foram “quase metade do total nacional”, num conjunto de 1100 hectares. Ou seja, esclarece aquele responsável, ”a produção valorizou-se imenso e há interesse crescente em investir na região”. Em 2009, apesar da conjuntura, “não se antevê qualquer razão para que o preço da uva possa baixar”. Ao contrário, o programa de arranque de vinha “teve pouco impacto”.
Apelo à união
Em contrapartida, alerta, poderá verificar-se o risco de o viticultor, ao ver a sua produção valorizada, possa cair na tentação de criar a sua própria marca, atomizando ainda mais um mercado com cerca de 2000 marcas diferentes e 600 produtores/engarrafadores.
“A região precisa de menos marcas e marcas mais fortes – por isso apelamos a um entendimento entre produtores. A região tem já uma importante união de cooperativas (Vercoope), sendo que as restantes estão a tentar integrar-se num segundo grupo, o que me parece positivo. Ao mesmo tempo, as sociedades comerciais terão que se juntar, pois a distribuição está cada vez mais concentrada e temos que responder a esse movimento com força”.
No que se refere às cooperativas, num total de 20, assiste-se a “um movimento tendente à criação de parcerias e há projectos que unem estruturas nas áreas comercial, marketing e de compras”. Manuel Pinheiro recorda que “o movimento cooperativo faz 50 anos, com união de produtores e consolidação, mas é preciso dar um novo passo, no sentido do ganho de massa crítica de gestão e capacidade comercial”. Por outro lado, desaconselha a criação de novos centros de vinificação. “É preciso investir no início e no fim da fileira, ou seja, em novas vinhas e melhores vinhas e na vertente comercial”, aponta.
Quanto aos privados, o presidente da CVRVV reconhece que o número de engarrafadores diminuirá, seja por força do mercado (com consequências mais dolorosas), seja através de concentração de esforços. “Incentivamos os produtores à união; nas acções de marketing que desenvolvemos promovemos presenças comuns, pois acreditamos que é melhor uma vitória em equipa que uma derrota em solidão. Mas essa é uma análise que terá que ser feita pelos produtores”.
A necessidade de exportar
Apesar da posição confortável que a região detém a nível interno, “esta não crescerá em termos estruturais. Por isso, quem quiser crescer terá que o fazer no exterior, o que implica uma visão mais profissional e de rigor, respondendo às exigências que os mercados externos colocam, que são diferentes do mercado interno”, disse Manuel Pinheiro.
O vinho verde é a segunda região que mais exporta em Portugal. Em 2008, o valor das exportações ascendeu a 26 milhões de euros, representando 18% do volume global de vendas da região, para mais de 60 países. Ou seja, trata-se de “um volume interessante que mostra que o vinho verde não é um desconhecido no Mundo”.
Por outro lado, “mais de metade do nosso orçamento de marketing destina-se a promoção externa, mas infelizmente poucos agentes económicos participam e poucos encaram a exportação como uma necessidade”. Porém, disse, “os primeiros três meses de 2009 deram-nos uma lição admirável”, pois o fraco desempenho a nível interno foi compensado com “um forte crescimento em valor na exportação”.
Ou seja, “as empresas que estão dependentes de um só cliente, que é Portugal, devem diversificar”. Manuel Pinheiro acredita que a região pode ser uma “locomotiva de exportação do país”, mas é preciso um maior volume de investimento. Daí que a CVRVV esteja a desenvolver esforços no sentido da captação de investimentos na região dos vinhos verdes por parte de empresas oriundas de outras regiões do país.
Até porque, nos mercados externos, o vinho verde é visto como um produto único, leve, fresco, jovem, pouco calórico e responsável, inscrevendo-se numa tendência de consumo global de vinhos brancos que pode alavancar um crescimento das vendas nesses países, mesmo englobando conjuntos de vinhos de produtores de outras regiões nacionais. “Não vejo por que razão uma empresa do Alentejo, do Dão ou do Douro não possa ter um vinho verde no seu portefólio, como complemento de oferta”. Deu o exemplo da empresa José Maria da Fonseca, que “regressou ao vinho verde e, no primeiro ano no mercado americano, entrou para o top de vendas”. •
Vinhos Verdes – Uma região heterogénea
A actual Região Demarcada dos Vinhos Verdes estende-se por todo o noroeste do país, na zona tradicionalmente conhecida como Entre-Douro-e-Minho. Tem como limites a norte o rio Minho (fronteira com a Galiza), a nascente e a sul zonas montanhosas que constituem a separação natural entre o Entre-Douro-e-Minho Atlântico e as zonas do país mais interiores de características mais mediterrânicas, e por último o Oceano Atlântico que constitui o seu limite a poente.
Orograficamente, a região apresenta-se como “um vasto anfiteatro que, da orla marítima, se eleva gradualmente para o interior”, no dizer de Amorim Girão, expondo toda a zona à influência do oceano Atlântico, fenómeno reforçado pela orientação dos vales dos principais rios que, correndo de nascente para poente, facilitam a penetração dos ventos marítimos.
As vinhas, que se caracterizam pela sua grande expansão vegetativa, em formas diversas de condução, ocupam uma área de 35 mil hectares e correspondem a 15% da área vitícola nacional. A maior parte da região assenta em formações graníticas, constituindo excepções duas estreitas faixas que a atravessam no sentido NO-SE, uma do silúrico, onde aparecem formações carboníferas e de lousa, e outra de xistos do arcaico.
O solo tem, na maior parte da região, origem na desagregação do granito. Caracteriza-se, regra geral, por apresentar pouca profundidade, texturas predominantemente arenosas a franco-arenosas (ligeiras), acidez naturalmente elevada e pobreza em fósforo.
Os níveis de fertilidade são naturalmente baixos, como facilmente se depreende das características apontadas acima. No entanto, dada a natureza dos sistemas agrários praticados desde tempos recuados na região, os solos apresentam uma fertilidade adquirida considerável, que permitiu durante séculos suportar as mais altas densidades populacionais do país.
O segredo desta fertilidade pode resumir-se a dois principais tipos de intervenções do homem nas condições naturais: o controlo do relevo pela construção de socalcos e as incorporações intensivas e persistentes de matéria orgânica no solo.
A região dos vinhos verdes, como a maior do país em termos territoriais, engloba nove sub-regiões: Monção e Melgaço, Lima, Basto, Cávado, Ave, Sousa, Paiva, Amarante e Baião. Cada uma destas sub-regiões apresenta grandes diversidades, quer ao nível climatérico, quer de solos, quer de castas e mesmo (mas numa perspectiva etnográfica), de sistemas de condução. Daí que as palavras mais adequadas para descrever (e descobrir) a região sejam heterogeneidade e tipicidade.•
Concurso de gastronomia e vinho verde
A Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) lançou a segunda edição do Concurso de Gastronomia e Vinhos Verdes. Esta iniciativa pretende promover as harmonizações do vinho verde com a gastronomia regional, portuguesa e internacional e incentivar o consumo de vinhos da região.
As inscrições decorrem até ao dia 30 de Junho, data até quando todos os restaurantes de Portugal Continental podem apresentar-se a concurso, escolhendo uma das três categorias: cozinha de autor, em que a “assinatura” do cozinheiro chefe está patente na elaboração da ementa; cozinha internacional, cozinha específica de uma região do mundo; ou cozinha tradicional, cozinha típica portuguesa/regional.
A missão dos concorrentes é criar um menu – entrada, prato principal e sobremesa – que combine na perfeição com o sabor do vinho verde. São admitidas harmonizações com vinho verde branco, tinto, rosado, espumante, aguardente de vinho da Região dos Vinhos Verdes e aguardente bagaceira da Região dos Vinhos Verdes.
A avaliação das candidaturas será dividida em duas fases. Numa primeira fase, todas as ementas serão avaliadas de acordo com critérios como a diversidade dos Vinhos Verdes Recomendados, a harmonização gustativa e a apresentação (por fotografia).
As seis ementas melhor classificadas por categoria de restaurante passam à segunda fase, na qual a avaliação é efectuada por um júri. Este desloca-se até aos restaurantes apurados, onde avalia a ementa preparada com base em critérios como a apreciação gustativa, a harmonia com o vinho (temperatura do vinho, adaptação e equilíbrio da comida com os vinhos) e a harmonia total da ementa. Os prémios são atribuídos de acordo com a pontuação que os restaurantes obtêm nesta segunda fase – Diploma de Ouro (100 a 95 pontos), Diploma de Prata (94 a 85 pontos), Diploma de Bronze (84 a 75 pontos) e Diploma de Participação (menos de 75 pontos). •
Aprovado aumento de produção de vinhas novas e reconvertidas
No âmbito da reforma das Comissões Vitivinícolas Regionais, onde a CVRVV assumiu papel pioneiro, ao ter sido a primeira entidade certificadora aprovada (com a possibilidade de apoiar a CVR de Trás-os-Montes ainda em aberto), a região dos vinhos verdes está prestes a dar o segundo passo.Este envolve a aprovação e publicação do novo estatuto da região, o qual estabelece as regras de produção. Manuel Pinheiro espera ver esta legislação publicada e em vigor ainda em Junho. Entre as novidades, contam-se o lançamento da categoria Colheita Tardia, “um produto de nicho, mas que pode ser relevante”.
Porém, a principal alteração envolve a possibilidade de subida do rendimento por hectare das vinhas novas ou reconvertidas, passando dos actuais 10.600 Kgs/ha para 13.500 kgs/ha. Este aumento, garantiu Manuel Pinheiro, poderá diminuir o défice de vinhos que a região padece e tornar as vinhas mais rentáveis.
O risco de diminuição da qualidade da uva “tem sido discutido, mas os técnicos apontam para que este valor está dentro do aceitável qualitativamente”. Poderão, no entanto, ocorrer variações em função de localizações e castas. Desta forma, as vinhas que “queiram entrar nesse primeiro escalão terão que ser fiscalizadas anualmente”, processo que poderá incluir a contratação externa de técnicos para proceder a este trabalho extra. Em sentido inverso, as vinhas tradicionais verão a sua capacidade reduzida para 7.500 kgs/ha. •

Especial – Vinhos Verdes
Um universo por descobrir (PDF)
Um trabalho de grande fôlego sobre a região dos vinhos verdes, como este que a revista Nectar apresenta aos seus leitores, envolve muito mais do que apenas o retrato dos produtores e dos seus vinhos. Isto porque a região, a maior do país em termos geográficos, encerra um vasto conjunto de pequenas e micro-regiões, cuja caracterização não se esgota no tópico dos vinhos verdes.
Texto: Marc Barros
A região é muito mais que isto: é gastronomia, é história, é cultura, é património, são gentes, formas de vida e tradições que se reportam ao código genético da própria nacionalidade. Não nos podemos esquecer, por exemplo, que foi certamente com vinho verde que D. Afonso Henriques e a sua corte celebraram a independência.
Ainda hoje, ao passear pela região, podemos constatar os reflexos desse passado na própria cultura da vinha, tradicionalmente em ramada, ocupando as orlas dos terrenos, numa agricultura típica de minifúndio, como complemento de outras culturas, como o milho ou o feijão, bem como as pequenas bouças, ou pinhais, que serviam (e servem) de “mealheiro” dos agricultores.
A região dos vinhos verdes deu já passos gigantes no sentido da optimização das produções: replantação de vinhas, novos sistemas de condução, estudo e apuramento das castas, são melhorias que representam o futuro, já presente, da região. A estes junta-se a necessidade de centrar esforços na conquista dos mercados com vinhos únicos no mundo, jovens, frescos, leves, cada vez menos sazonais.
Mas o vinho verde é também muito mais que isso: é um universo de imensos vinhos verdes, de grande diversidade, tipo, cor, aromas, variedade e castas. É a riqueza do Alvarinho, a acidez do Trajadura, o perfil aromático do Loureiro, do Avesso, do Azal, do Vinhão (esse vinho tão rico e, ao mesmo tempo, tão desconhecido, um tesouro por desenterrar…), são os novos produtos como rosés, espumantes ou colheitas tardias.
O vinho verde é também a soma dos seus produtores: as adegas cooperativas, vitais para a sustentação social e económica da região, as empresas e produtores privados, dinâmicos e fortes na abertura de novos mercados, os enólogos, responsáveis pela notória evolução qualitativa do vinho verde.
Foi este universo, tão rico e variado, que a Nectar pretendeu levar até ao leitor.
Nada melhor, para receber o Verão que se aproxima, que abrir uma garrafa de vinho verde das muitas que aqui provamos e lhe apresentamos, para celebrar a alegria de viver e o convívio que este vinho proporciona. Saúde! •

17.º Concurso enológico internacional Vinitaly 2009 (PDF)
Moscatel de Favaios triunfa em itália
De 25 a 29 de Março, Realizou-se em Verona, a 17.ª edição do Concurso Enológico Vinitaly 2009, organizado pela Feira de Verona, com a patronage do Office Internationale de la Vigne et du Vin (O.I.V.), da Union Internationales des Oenologues e do Ministério das Políticas Agrícolas e Florestais da República italiana.
Reportagem: Bento de Carvalho
A este concurso internacional concorreram 3553 vinhos provenientes de 34 países, tendo sido eliminados 14 por não estarem de acordo com as normas do regulamento, sendo 3539 o número final dos vinhos sujeitos à apreciação e classificação, realizada através da ficha de prova da Union Internationales des Oenologues, que classifica de 0 a 100 pontos.
Os vinhos foram provados por 21 comissões de avaliação, sendo cada uma constituída por 5 provadores – 2 enólogos italianos, 1 enólogo estrangeiro e 2 jornalistas de renome internacional designados pelo Instituto Nacional do Comércio Exterior.
Em relação à atribuição das medalhas, o concurso tem um regulamento absolutamente diferente de todos os outros concursos internacionais que se realizam no “mundo do vinho”.
Os vários tipos de vinhos tranquilos e efervescentes – vinhos broncos, tintos, rosados, doces, espumantes, licorosos, etc., estão distribuídos por 28 categorias definidas no regulamento e, cada categoria de vinhos é provada e classificada por 3 comissões diferentes, de 5 elementos, que seleccionam os 4 melhores vinhos. Em cada categoria os melhores 12 vinhos seleccionados são de novo provados por 3 comissões em conjunto (15 provadores) que atribuem 1 Grande Medalha de Ouro, 1 Medalha de Ouro, 1 Medalha de Prata e 1 Medalha de Bronze e não várias medalhas como sucede com todos os outros concursos.
A todos os vinhos que obtiveram uma classificação igual ou superior a 80 pontos foi atribuída uma Grande Menção, até ao limite de 30% do número de vinhos inscritos no concurso.
O júri internacional atribuiu aos 3539 vinhos que se apresentaram a concurso, 28 Grandes Medalhas de Ouro, 27 Medalhas de Ouro, 30 Medalhas de Prata, 28 Medalhas de Bronze e 949 Grandes Menções. Portugal esteve presente com 35 vinhos e conquistou 1 Grande Medalha de Ouro, 1 Medalha de Prata, 1 Medalha de Bronze e 5 Menções de Honra.
O concurso Vinitaly é muito bem organizado, muito disciplinado, apesar de cansativo, com duas sessões de prova, uma de manhã e outra à tarde. Os escansões realizaram um excelente trabalho ao servir dum modo impecável os vinhos, tendo decantado todos os que tinham mais de 3 anos de idade. Realizaram-se 50 horas de trabalho em 5 dias e, utilizaram-se 24.000 copos e 22.000 fichas de prova. É de realçar o excelente trabalho da organização a cargo de Giuseppe Martelli que, com todo o seu saber, experiência e disciplina de trabalho prestigiou mais esta edição do Concurso Internacional Vinitaly 2009. •
Vinhos tranquilos com denominação de origem
Vinhos licorososGrande Medalha de Ouro
Douro VQPRD Moscatel “10 anos”
Adega Cooperativa de Favaios, CRLMedalha de Prata
Douro VQPRD Moscatel Colheita 1989
Adega Cooperativa de Favaios, CRLMedalha de Bronze
Douro VQPRD Moscatel Favaito
Adega Cooperativa de Favaios, CRLGrande Menção
Madeira VQPRD Branco Boal 1978
Vinhos Justino Henriques Filhos, Lda.Vinhos tintos tranquilos com denominação de origem
Vindimas de 2003, 2004, 2005Grande Menção
Alentejo VQPRD Vinho Tinto Reserva 2005 “Baron de B”
BCH – Comércio de VinhosVinhos Tintos tranquilos com designação geográfica
Vindimas de 2006, 2007, 2008Grande Menção
Syrah Vinho Tinto 2007 Regional Alentejano
Casa Agrícola Cortes de CimaVinho Tinto Regional Alentejano “Touriga Nacional” 2007
Casa Agrícola Cortes de CimaVinho Tinto Regional Alentejano Reserva “Alicante Bouschet” 2007
Casa Agrícola Cortes de Cima

A distinção, nobreza e excelência do Porto Krohn
Colheita 1968 brilha em Paris
Organizado pela “Union d’Oenologues de France”, realizou-se em Paris,
no Hotel Holiday Inn Republique, de 27 de Fevereiro a 3 de Março de 2009,
a 15.ª edição do Vinalies Internationales.
Reportagem: Bento de Carvalho
A este prestigioso concurso internacional de vinhos concorreram 3034 vinhos provenientes de 41 paises, que foram provados em absoluto anonimato, classificados e descritos por 127 provadores de 32 nacionalidades diferentes, estando Portugal representado por Bento de Carvalho e Francisco Antunes.
Os provadores foram distribuidos por 18 comissões de avaliação, sendo cada comissão constituída por 5 elementos, sendo 2 de nacionalidade francesa e 3 estrangeiros. Foi utilizada a ficha de prova designada por OIV/UIEO de 0-100 pontos, inserida num computador de bolso PDA, tendo sido provados diariamente cerca de 35 vinhos.
Aos 3034 vinhos que se apresentaram a concurso, o júri internacional atribuiu 198 Vinalies de Ouro e 763 Vinalies de Prata, e Portugal apresentou 146 vinhos, tendo conquistado 10 Vinalies de Ouro (6,8% do total) e 45 Vinalies de Prata 830,8%), sendo de realçar a conquista do “Trophée Vinalies Internationales” da categoria de vinhos licorosos, atribuido ao Porto Krohn Colheita 1968 da Empresa Wiese & Krohn Sucs., por ter conquistado a medalha de ouro e por ter sido o vinho melhor classificado na categoria dos vinhos licorosos.
É de destacar também, entre todos os premiados, as 3 Vinalies de Ouro e 1 Vinalies de Prata conquistadas pela Casa Agrícola Cortes de Cima e as 2 Vinalies de Ouro e 12 Vinalies de Prata arrecadadas pela Sogrape Vinhos SA, que bastante prestigiaram a presença nacional.
A proclamação dos resultados e a entrega dos “Trophée des Vinalies Internationales” realizou-se durante o jantar de encerramento “Vinitech” no Pavillon Cambon Capucines, na presença de entidades oficiais, membros da organização, patrocinadores e provadores, e decorrendo num ambiente de solenidade e de grande convívio. Pelo sucesso do concurso e pelo trabalho realizado, felicitamos a Union des Oenologues de France, na pessoa do seu presidente Tierry Gasco e a Directora do Concurso Beatrice da Ros pelo prestigio alcançado, assim como pela magnífica visita técnica proporcionada à região de Saint-Emilion, com deslocações ao Chateau Beau Séjour e Chateau Luchey-Halde (Pessac-Léoguan) •

DFJ vinhos – 10.º Aniversário
José Neiva Correia abre portas às quintas da Estremadura e Ribatejo
A DFJ Vinhos completou, em 2008, dez anos de vida. Está por isso de parabéns, e a comemorar. Até porque, “alcançar a excelência da produção do vinho nas diversas regiões de Portugal, transformando a riqueza e variedade das castas portuguesas em vinhos da mais alta qualidade, acessíveis aos consumidores de todo o mundo”, não é fácil, nem para todos.
Reportagem: Patrick Neves
Essa tem sido a missão da DFJ Vinhos, de resto muito bem cumprida, quer por força da visão e carácter do seu proprietário e enólogo chefe, José Neiva Correia, mas também pela aposta, confiante e segura, que faz nos mercados, aqui e além fronteiras.
Para assinalar o décimo aniversário, a DFJ organizou em Fevereiro uma visita às principais quintas que detém nas regiões vinícolas da Estremadura e Ribatejo. O percurso incluiu a passagem pelas propriedades em Torres Novas e Alenquer e culminou, já perto de Santarém, com uma visita à Quinta da Fonte Bela, e um almoço, da responsabilidade do chef Pedro Nunes e do mestre pasteleiro Francisco Gomes.
Visita à Quinta da Madeira
A viagem iniciou-se na Quinta da Madeira, em Torres Vedras. Local de residência de José Neiva Correia, trata–se de uma propriedade de belas vistas, situada no cimo de um monte, com uma extensão de 25 hectares, 15 dos quais destinados à plantação de vinha, principalmente da casta Pinot Noir. Cerca de 1,5 hectares estão reservados a uma entusiástica e inovadora experiência com Dorn Felder, uma casta alemã praticamente desconhecida dos portugueses, de maturação precoce e grande resistência à influência atlântica, que dá vinhos com muita cor e fruta, bem ao gosto dos consumidores.
Foi neste terroir, sujeito a ventos mas também a boas exposições solares, que foi evocada por José Neiva Correia a parceria desenvolvida desde sempre com a Rui Abreu Correia e Herdeiros, uma empresa familiar que o produtor possui juntamente com os irmãos e que é detentora de 200 hectares de vinha, distribuídos pelos concelhos de Torres Vedras e Alenquer. Recordada foi também a associação estabelecida há três anos com Tomás Sanches da Gama, um homem que sensibilizou José Neiva Correia por ter iniciado, aos 76 anos de idade, a comercialização dos seus vinhos, oriundos da Quinta do Rocio. Ao fim do dia, e muitas vezes ao fim-de-semana, José Neiva Correia e Lisete Lucas, enóloga responsável pela produção da Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa, ajudam a manter vivo o sonho deste viticultor.
Matéria orgânica: um dos segredos da viticultura de José Neiva Correia
Prosseguindo caminho até Alenquer, eis-nos chegados à Quinta da Ponte, junto à povoação de Runa – uma propriedade rodeada de montes e com 25 hectares de vinha de diferentes castas, plantada há 13 anos. Exposta aos ventos marítimos, beneficia de um clima sempre fresco (com orvalhadas nocturnas que dispensam a rega) e solos negros, que permitem uma excelente absorção dos raios solares.
Segundo José Neiva Correia “este é o local onde melhor se cozinham vinhos”, dada a facilidade de maturação das plantas, que se fica a dever ao “grande número de horas de exposição solar, à utilização de matéria orgânica, à boa relação entre a massa verde e o número de cachos e à não concretização de doações químicas.”
“Um dos segredos da viticultura é, quanto a mim, a utilização de matéria orgânica, que é muito barata e deve ser introduzida quando há desequilíbrios nos solos”, referiu. “O único investimento que tem de ser feito é ao nível de maquinaria que possa fazer a localização da matéria orgânica e utilizá-la, com baixos custos”.
Com uma produção de 20 toneladas por hectare, a Quinta da Ponte é território privilegiado das castas Chardonnay, Arinto, Castelão e Caladoc (que resulta do cruzamento entre as castas Grenache e Malbec).
Quinta do Porto Franco na família há quatro gerações
A pausa seguinte deu-se a escassos quilómetros, na Quinta do Porto Franco, que tem vindo a ser restaurada e é considerada por muitos historiadores como uma das mais antigas de Alenquer, com uma origem anterior à nacionalidade.
Uma longa alameda de plátanos conduz os visitantes à entrada principal, onde se revela um edifício, baixo e comprido, que preza a traça típica das tradicionais casas agrícolas da região e fica a paredes-meias com a Quinta do Rocio. Local de nascimento de José Neiva Correia, está na posse da família há quatro gerações, incluindo em redor dos terreiros e pátios que circundam a casa manchas de diferentes cores produzidas pelas castas Alfrocheiro, Moscatel, Alicante Bouschet e Syrah.
Na velha adega, as atenções recaem nas armas da família Lobo Garcez Palha, do século XVIII, e em algumas fotografias expostas nas paredes, com imagens antigas dos cavalos a laborar na quinta, munidos de lanças em cobre. Um retrato do primeiro tractor vinhateiro utilizado em Portugal completa a pequena galeria que antecede o local de vinificação – onde se encontram armazenados alguns dos maiores tonéis de madeira do país (com capacidades entre os 35 e os 70 mil litros de vinho), bem como os antigos lagares já desactivados, os depósitos revestidos a fibra de vidro e epoxi, e as prensas horizontais. À saída destacam-se dois grandes reservatórios de vinho em cimento, caiados a branco, e vinhas quase a perder de vista.
Quinta da Fonte Bela: o centro de operações da DFJ
A viagem pelo universo da DFJ findou com a chegada à Quinta da Fonte Bela, em Vila Chã de Ourique, entre o vale de Santarém e Valada, local que constitui o centro de operações da empresa, na medida em que é ali que se procede ao controlo de qualidade e está instalado o centro de engarrafamento, rotulagem, armazenamento e distribuição dos vinhos.
Datada de 1897 e com cerca de 8 mil metros quadrados de área coberta, e outros tantos a descoberto (sempre vigiados de alto pelas cegonhas que nidificam nos telhados), a quinta é formada por um conjunto de insólitas e imponentes construções em pedra, que combinam a arquitectura francesa de chatêaux com resquícios de arquitectura industrial, não faltando a telha de Marselha e uma impressionante chaminé, visível a muitos quilómetros de distância. Tem um total de nove pavilhões, entre laboratório, fornos, armazéns, tanoaria, destilaria e a imensa adega, em utilização, com mais de 20 metros de pé-direito e cubas com capacidade para 2,5 milhões de litros. A adega já desactivada é considerada como um dos maiores reservatórios de tonéis de madeira do país, sendo hoje em dia utilizada para estágio do vinho em meias pipas de carvalho francês, português e americano.
Fusão de dois prazeres: vinhos DFJ e receitas com vinho de Pedro Nunes
Antes de conhecer a quinta, os participantes foram convidados a entrar na sala de provas da Quinta da Fonte Bela e sentar-se à mesa. Após tomarem um apetizer, tiveram a oportunidade de degustar algumas das melhores receitas criadas com vinho pelo chef Pedro Nunes (do restaurante São Gião, em Moreira de Cónegos) para acompanhar os néctares da DFJ, recentemente compiladas em livro, editado sob a chancela Bertrand com o título “Grand’Arte – A Fusão de Dois Prazeres – 40 vinhos para 40 receitas”.
Como entrada um magnífico Escabeche de Sardinha, bem ao jeito e sabor portugueses, teve como acompanhamento o brilhante e muito frutado Coreto Rosé, que desde logo cativou os presentes, abrindo caminho a um festival de sabores. O Monte Alentejano Trincadeira & Aragonez acompanhou uma muito bem conseguida Alheira com Bróculos e Ovo de Codorniz, seguindo-se uma surpreendente e original Canja de Gambas e Morangos que casou, formidavelmente, com o vinho branco regional da Estremadura Casa do Lago Fernão Pires. Em seguida, a muito bem condimentada Roupa-Velha foi servida com o Manta Preta Reserva Touriga Nacional & Tinta Roriz, fechando com Perdizes com Cogumelos e o vinho Segada. No final, para adoçar a boca, a pastelaria gourmet de Francisco Gomes: Tarte de Framboesa, servida com DFJ Alvarinho & Chardonnay e um bonito Bolo de Chocolate Oriental, acompanhado do Escada DOC Douro.
José Neiva Correia: pioneiro na implantação de novas castas em Portugal
Reconhecido pela importante contribuição para a transformação do vinho português, o produtor e engenheiro técnico agrário José Neiva Correia, de 59 anos, tem tanta vocação para fazer vinhos de topo como para produzir vinhos baratos, criando marcas destinadas a um mercado de massas e usando castas tradicionais e internacionais com assinalável mestria. Descendente de várias gerações de vitivinicultores, tanto do lado paterno como materno, seguiu a tradição familiar com gosto, profissionalismo, criatividade e muito entusiasmo, assinando cada um dos seus muitos e variados vinhos com misturas de castas improváveis e com resultados surpreendentes. Como enólogo, tem vindo a desenvolver um trabalho pioneiro na implantação de novas castas no nosso país, promovendo uma agricultura amiga do ambiente, livre de químicos, bem como soluções para a correcta vedação das garrafas, com rolhas de cortiça.
Desde que fundou em 1998 a empresa DFJ Vinhos, tornou-se responsável por uma produção média anual de seis milhões de garrafas, tendo no seu portfólio 33 marcas e 77 vinhos diferentes, oriundos de todas as regiões portuguesas, do Douro ao Algarve. Exportando 90% da produção para os cinco continentes, é detentor de uma das maiores quotas do mercado inglês (o equivalente a um milhão e meio de garrafas exportadas anualmente), impondo-se maioritariamente com marcas a preços muito competitivos e dirigidas a um segmento médio.
No mercado nacional as suas vendas rondam os 15%, prevendo-se que (pelo menos) dupliquem, até ao final de 2010. •
Grand’Arte: A Fusão de Dois Prazeres – 40 Vinhos para 40 Receitas
A visita às quintas que a DFJ Vinhos possui nas regiões da Estremadura e Ribatejo serviu de pretexto para a primeira apresentação pública do livro “Grand’Arte:
A Fusão de Dois Prazeres – 40 Vinhos para 40 Receitas”. Com
texto da autoria de Leonor Vaz Pinto e fotografias de Manuel Correia, foi editado em Portugal no final de 2008, sob a chancela Bertrand, em versão bilingue (português e inglês), grande formato e com uma apelativa imagem de capa. Com P.V.P. recomendado de 23,95 €, trata-se de um conjunto de 40 receitas confeccionadas com vinho, criadas pelo chefe Pedro Nunes para acompanhar
40 dos 77 vinhos produzidos pela DFJ, incluindo ainda sobremesas, também elaboradas com estes néctares pelo consultor de pastelaria Francisco Gomes.
Após um breve historial do percurso de José Neiva Correia e da sua actividade no seio da DFJ Vinhos, o livro apresenta propostas que, apesar de originais e inovadoras, respeitam os sabores genuinamente portugueses. A primeira parte
é dedicada aos grand apetizers, ou à “Arte de Bem Petiscar”, seguindo-se grand celebrations (“A Arte de Bem Festejar”) e Grand’Arte (reportando-se ao nome de alguns vinhos DFJ da região Estremadura). A obra encerra com uma listagem dos 40 vinhos seleccionados para acompanhar os pratos. •
