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Especial Vinhos Verdes
Vercoope (PDF)
Dimensão nos Vinhos Verdes

Enquanto pólo aglutinador do movimento cooperativo na região dos vinhos verdes, a missão da Vercoope tem ganho uma relevância preponderante. Por isso, novas parcerias se perfilam, num mercado cada vez mais exigente. Esse crescimento obriga ainda à realização de investimentos de fundo.

Reportagem: Marc Barros

A criação de economias de escala na região dos vinhos verdes, através da agregação das adegas cooperativas, tem sido um dos papéis mais relevantes que a Vercoope vem desempenhando, na senda da sua missão original. A União das Adegas Cooperativas da Região dos Vinhos Verdes foi criada em 1964, com o objectivo de concentrar os esforços necessários, em primeiro lugar, ao engarrafamento, distribuição e venda dos vinhos dos seus associados, proporcionando uma valorização justa pelo seu esforço, mas igualmente, por outro lado, apoiar a conservação e tipicidade dos vinhos verdes, a preços considerados acessíveis pelos consumidores.
Situada em Agrela, Santo Tirso, a Vercoope é hoje uma das maiores empresas da região, com 50 colaboradores, e representa entre 4000 a 5000 viticultores, numa área total de produção vitícola que ronda a mesma dimensão.
Englobando as Adegas Cooperativas de Amarante, Braga (Cavagri), Guimarães, Famalicão, Felgueiras, Paredes e Vale de Cambra, a Vercoope constitui-se hoje como um dos pilares essenciais na estrutura das associadas, ao criar um importante canal de comercialização para os seus vinhos, quer através de marcas próprias (Via Latina, Pavão e Vercoope), quer das marcas das suas associadas.
O presidente daquela entidade, Basto Gonçalves, destacou este papel aglutinador, que foi recentemente posto à prova com o processo de fusão da Adega Cooperativa de Vila Verde, Amares, Póvoa de Lanhoso e Terras de Bouro com a Cavagri, numa estrutura que integra a Vercoope. Como importante mais-valia está o facto de “a Cavagri ter apostado na construção de uma adega de raiz, que está já concluída, de forma a permitir que a última vindima fosse realizada nas novas instalações”. Esse aspecto revela-se de grande importância na qualidade dos vinhos recepcionados. O presidente da Vercoope assinala a inevitabilidade deste movimento, que poderá “alargar-se a outras adegas, mas que ainda não se concretizou”.

Investimentos em nova linha de engarrafamento

A Vercoope levou ainda a cabo avultados investimentos nas suas infra-estruturas e equipamentos, traduzidos num volume global de 3,5 milhões de euros, dos quais 830 mil euros comparticipados pelo Estado. Desta forma, nas suas instalações com cerca de 7500 m2 de área coberta, foram totalmente renovados o piso e o telhado, bem como adquirida e instalada uma moderna e completa linha de engarrafamento de brancos, a qual, segundo Casimiro Alves, director comercial da empresa, permite “uma maior capacidade de resposta para grandes volumes”, ao permitir engarrafar 8 a 10 mil garrafas por hora.
Este investimento, salienta Basto Gonçalves, incluiu ainda a adopção do sistema HACCP, estando ainda em curso o processo de certificação segundo a norma ISO 9001:2005, o qual deverá estar concluído “até final do ano” e abrangerá todos os procedimentos da adega, quer a nível produtivo, quer administrativo.
Desta forma, a Vercoope possui, nas suas instalações, capacidade para engarrafar 10 a 12 milhões de litros anuais, sendo que “o volume de vinho trabalhado actualmente ronda os sete milhões de litros”, disse Basto Gonçalves. Ou seja, a empresa tem a possibilidade de aumentar consideravelmente o volume de vinhos que recebe e labora, estando assim preparada para receber novos associados no seu seio.

Aposta na marca Via Latina

A Vercoope ocupa actualmente uma quota de mercado de 12 a 14% no sector dos vinhos verdes, referiu Casimiro Alves. As suas três marcas encontram diferentes posicionamentos no mercado, sendo que a marca Via Latina é aquela que garante “maior valor acrescentado por garrafa”. Revelando que a nova imagem, adoptada em 2006, “foi muito bem aceite pelo mercado, depois de um reajuste do preço e a adopção de uma garrafa mais nobre”, Casimiro Alves sublinhou que anualmente são lançadas cerca de um milhão de garrafas em três referências: dois monocasta, Alvarinho e Loureiro, e um vinho verde de lote.
E, se do vinho varietal Loureiro são produzidas cerca de 300 mil unidades, quanto ao Alvarinho o volume engarrafado é substancialmente inferior, na ordem das 20 mil garrafas. Contudo, o seu valor vai muito para além do número de unidades, esclarece Basto Gonçalves, pois este “é engarrafado sobretudo por uma questão de imagem”, já que “todos nos pedem Alvarinho e consegue abrir portas para colocarmos outras referências”. Como prova, está o facto de 50% deste vinho ser exportado. No seu conjunto, a marca Via Latina representa 1,6 milhões de euros no volume de vendas da Vercoope que, em 2008, registou uma facturação de 7,5 milhões de euros.
Por outro lado, a importância do vinho engarrafado tem vindo a crescer substancialmente nas contas desta união, uma vez que “crescemos as vendas na garrafa de 0,75l, por substituição na garrafa de litro e no garrafão”, disse Casimiro Alves. Por seu turno, as vendas de bag in box rondam já 10% do volume global. Porém, Basto Gonçalves sublinhou a dificuldade para crescer neste segmento, uma vez que a própria embalagem cria dificuldades ao acondicionamento destes vinhos, dada a presença natural do gás.
Se, no global, Basto Gonçalves reconhece que a região poderá sofrer quebras nas vendas no decurso de 2009, por outro lado salienta que ainda é cedo para avançar previsões. Porém, no caso da Vercoope, as vendas têm-se mantido regulares, sustenta.
Para esse facto contará certamente o desempenho nos mercados externos, que representam já 10% do volume de vendas e onde a Vercoope pretende continuar a crescer. Segundo Casimiro Alves, os mercados mais importantes são “EUA, Angola e Noruega, graças ao excelente desempenho da marca Via Latina, sobretudo o monocasta Loureiro”. No que se refere ao mercado norueguês, o responsável comercial enfatiza o desempenho no posicionamento desta marca pois, por se tratar de um país cuja importação de vinhos é decidida pelo Estado, a sua continuidade no mercado deve-se às performances nas vendas. E, nesse campo, o Via Latina “foi a marca portuguesa mais vendida a nível de vinhos brancos em 2008”, disse Casimiro Alves, num exemplo de sustentabilidade e visão que tornaram a Vercoope num dos maiores players da região dos vinhos verdes. •

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Especial Vinhos Verdes
Quinta da Lixa (PDF)
Paixão pelos Vinhos Verdes

A paixão da família Meireles pelos vinhos verdes esteve na origem desta empresa vinícola e conduziu a Quinta da Lixa ao patamar actual. Essa mesma paixão pode ser encontrada em novos segmentos, como o enoturismo, que em breve dará um novo fôlego à região. 

Reportagem: Marc Barros

Um apelo mais forte da tradicional cultura de vinha e uma visão moderna e empresarial do sector materializaram a paixão que desde sempre norteou a família Meireles, pelo menos no que aos vinhos verdes se refere.
Presente em diversas áreas do mundo empresarial, esta família que já era proprietária de vinhedos localizados em redor da pequena vila da Lixa, em Felgueiras, decidiu, em 1986, apostar na criação de uma empresa de pequena dimensão capaz de dar destino adequado aos vinhos nascidos nas suas propriedades. A então Soporvin – Sociedade Portuguesa de Vinhos, foi criada numa lógica de aproveitamento de sinergias, dando corpo à visão empresarial que a família depositava no sector, à semelhança dos outros negócios em que estava envolvida.
Inicialmente, o vinho produzido era vendido a granel, sobretudo para a Adega Cooperativa de Felgueiras, mas também para outras empresas conceituadas da região. A percepção do elevado patamar de qualidade dos vinhos que comercializava mostrou que o caminho a seguir era outro: criar uma marca própria, engarrafar e comercializar os seus vinhos, numa lógica de aproveitamento das mais-valias que daí resultariam.
E resultaram. Criada a marca Quinta da Lixa, depois de adquirida a propriedade que dá o nome à empresa, foi decidido avançar para a renovação das suas instalações e adega, com o objectivo de aumentar a produção. A sua capacidade de vinificação actual ascende a três milhões de litros.

Gestão empresarial e responsabilidade social

Óscar Meireles é director geral da Quinta da Lixa e, dos irmãos Meireles, aquele que gere diariamente a empresa vitivinícola. Mas a tradição já passou para as gerações seguintes. Diana Meireles, filha do responsável da empresa e licenciada em Engenharia Alimentar, é a responsável pelo departamento de qualidade.
No total, a empresa detém 42 hectares de vinha, dos quais sete na própria Quinta da Lixa, 20 hectares na Quinta de Sanguinhedo, adquirida em 1999, e os restantes dispersos pelas várias propriedades localizadas na Lixa, nas franjas da própria sede, como a Quinta de Tarrio, Quinta da Corredoura, Quinta de Coveiros e Quinta das Maias. Esta rede de proximidade deve-se à vontade de “aproveitar sinergias”, mantendo a capacidade “de rodar pessoal entre as várias quintas”, contribuindo para a redução de custos, explica o seu gestor.
A empresa continua a aprofundar a sua estratégia, pretendendo adquirir novas propriedades e plantar vinhas novas. “Este ano serão oito hectares e no próximo está previsto arrancar com a replantação de mais oito hectares”. Desta forma, resume, “alargamos a área de produção”. Dentro de três anos, a empresa espera deter 60 hectares de vinhas próprias, sendo que a área actual representa 35% da produção total.
A Quinta da Lixa tem por isso contratos estabelecidos com alguns produtores da região para fornecimento de uvas. Todo o apoio técnico é dado pela empresa, que controla assim a qualidade das uvas que adquire e vinifica.
E se, no que toca à viticultura, a aposta nas castas autóctones da região, como a Azal, Avesso ou Loureiro seria inevitável, a Quinta da Lixa alberga já, nas suas propriedades, algumas castas que poderão, a curto prazo, ditar novos vinhos ou novos lotes, para juntar à diversidade de referências que coloca no mercado. Assim, a um hectare de Riesling – plantado para estudar a adaptação da casta e o seu perfil ao terroir da Lixa, como explica o enólogo Carlos Teixeira, juntam-se seis hectares de Alvarinho (para lotear, dada a sua complexidade, estrutura e longevidade), e dois hectares de Touriga Nacional, entre outras experiências.
A produção média da Quinta da Lixa ronda os 2,5 a 3 milhões kgs/uva anuais, de onde surgem 2 a 2,5 milhões de litros/ano. Óscar Meireles recorda que 2008 foi um ano “difícil em termos quantitativos, com uma quebra assinalável que teve que ser compensada com idas ao mercado”, mas em termos qualitativos foi um ano de excelente nível.
Sobre este tema, frisa, “temos que ter consciência que os preços praticados no viticultor eram desequilibrados. O produtor precisava de mais dinheiro” e, com este cenário de quebra, “houve um equilíbrio de preços” e, aspecto mais importante, disse, “começámos a criar condições ao viticultor para melhorar a sua matéria-prima”.
Esta visão de responsabilidade social acompanha a gestão da empresa: “É esse o nosso objectivo, de forma que, no final, os nossos vinhos possam ombrear com quaisquer vinhos brancos do mundo. Hoje, vemos que qualquer produtor da região tem condições para competir de igual para igual em qualquer concurso do mundo”. Com efeito, no espaço de cinco anos, a Quinta da Lixa arrecadou mais de 200 prémios internacionais.

O desafio dos monocasta

Às marcas inicialmente lançadas – Terras do Minho, Quinta da Lixa, Monsenhor, Vinha Real e QL -, juntaram-se no virar do século novas referências que demonstram o arrojo da empresa e a paixão com que encaram o negócio: a diversificação dos seus vinhos recai no lançamento dos primeiros vinhos varietais da vindima de 2000, assim como nos vinhos datados. Uma vez que as “vinificações são feitas por casta”, desde logo ficou assente que “a sua qualidade poderia fazer-se valer por si no mercado”, explica Óscar Meireles.
Reconhecendo que esta não é uma tradição na região, o lançamento dos monocasta “surge depois da conversão da vinha feita em 1987 e 1992, quando nos apercebemos que várias castas como a Azal, Arinto, Trajadura e Loureiro, tinham capacidade para se fazerem valer por si”. Estes monocasta foram primeiramente lançados em 1993, “para testes junto do consumidor”, mantendo-se no mercado três monocasta brancos” – Alvarinho (este vinificado em parceria com um produtor de Melgaço), Loureiro e Trajadura nos brancos e Vinhão nos tintos.
Actualmente, são colocadas no mercado 250 a 300 mil garrafas de Quinta da Lixa Loureiro e 150 mil de Quinta da Lixa Trajadura. “São vinhos de nicho, mas temos aumentado ligeiramente neste segmento. É um mercado muito recente, exceptuando o Alvarinho”. O Loureiro, afirma, tem já um grande reconhecimento no mercado, sobretudo a nível internacional. Por sua vez, o Trajadura, “juntamente com o Treixadura espanhol, está a crescer”. Falta saber, questiona Óscar Meireles, “quem puxa por quem”.
Em 2004 é lançado o Espumante Quinta da Lixa, fruto do reconhecimento das capacidades da região na espumantização dos seus vinhos verdes. Este é produzido com base nas castas Arinto e Avesso. Trata-se de “um produto que está a crescer, mas é ainda um mercado muito jovem”.

Diversificar os mercados

As marcas da Quinta da Lixa são direccionadas para vários segmentos: algumas exclusivas para o canal Horeca, como o QL e o Quinta da Lixa. Por outro lado, nota Óscar Meireles, “é necessário efectuar um reforço da presença na grande distribuição, pois uma grande quota do consumo de vinhos está a ser transferida dos restaurantes para as casas dos consumidores”.
Portugal representa cerca de 60% das vendas da empresa. “Em algumas zonas temos sentido dificuldades em evoluir, sobretudo a sul, pois as marcas mais fortes têm uma presença mais vincada. Estamos a tentar inverter essa tendência, mas temos que reconhecer que é um crescimento muito lento”. Uma das apostas da empresa passa pela ligação à gastronomia, com receitas preparadas pelo chefe Hélio Loureiro especificamente para cada vinho e disponibilizadas no seu portal de Internet e nos contra-rótulos das garrafas.
Por seu turno, os mercados externos absorvem 40% das vendas. Trata-se de “uma aposta ganha e que muito nos satisfaz”. O início deste trabalho, recorda Óscar Meireles, “foi difícil, com retorno muito lento, e só nos últimos quatro anos temos vindo a receber os frutos desse esforço”. Isto porque “há dez anos atrás os vinhos portugueses eram mal trabalhados no exterior, onde cada qual agia por si, sem união de esforços. Creio que essa mentalidade tem vindo a mudar, com maior profissionalismo, e sentimos que a imagem de Portugal e dos vinhos verdes está a melhorar muito”, realça.
Entre os mercados mais importantes contam-se os EUA, Canadá, Brasil, França, Alemanha, Holanda, Suécia, Dinamarca e China, que “poderá vir a ser importante se for criada uma maior continuidade nas vendas”. Angola também evoluirá, assegura, mas actualmente “está a crescer muito nos tintos”. Neste segmento podem ser importantes os vinhos do Douro que a Quinta da Lixa engarrafa e comercializa, para juntar às suas sinergias na vertente comercial, com a marca Heitor. Mas para já estes são direccionados sobretudo para o mercado nacional, “para juntar aos nossos pacotes, juntamente com outros produtos, como mel, compotas ou queijos”. Actualmente são lançadas cerca de 30 mil garrafas, a que se junta uma nova marca do Douro, Muxagata.
Um esforço de diversificação onde as palavras-chave são, segundo Óscar Meireles, “sinergia” e “paixão”, em que uma não pode ser dissociada da outra. Só assim se conseguem resultados positivos, como o exemplo que a Quinta da Lixa tem dado. •

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Especial Vinhos Verdes
Adega Cooperativa de Guimarães (PDF)
Um exemplo de renovação

Foi com os olhos postos no futuro que a Adega Cooperativa de Guimarães encetou uma profunda renovação, fruto de um intenso trabalho na relação com os viticultores, na melhoria da qualidade dos seus vinhos e na reformulação da imagem. Os próximos investimentos envolvem a aquisição de área vitícola e a produção própria.

Reportagem: Marc Barros

A profunda renovação imprimida à operação da Adega Cooperativa de Guimarães é um exemplo para o sector cooperativo português e a prova que, com empenho e dedicação de todos os seus responsáveis, desde técnicos a cooperantes, o sector pode ter um futuro risonho pela frente.
Quando a Nectar visitou pela primeira vez esta adega (ver edição Ed. 46/47 Nov./Dez 2006), estava em fase de conclusão um investimento que a dotou da capacidade de vinificar um milhão de quilos de uva, no total de 750 mil litros anuais de vinhos, mas passível de aumentar esta produção em 320 mil litros.
Deste investimento resultou uma nova marca – Praça de S. Tiago -, cujo sucesso ficou patente logo no seu arranque, ao arrecadar várias medalhas no concurso da CVRVV. O mercado correspondeu da melhor maneira a este desafio. À marca Praça de S.Tiago, direccionada para um segmento superior, nas vertentes branco, Vinhão e rosado feito com a casta Espadeiro, juntou-se mais tarde o Praça de S.Tiago Reserva.
Este resulta da fermentação de Arinto em carvalho, “com excelentes resultados mas que pretende apenas ser a nossa bandeira. É uma aposta ganha e para continuar, mas em regime de pequenas produções”, explicou Sequeira Braga, presidente da instituição. Esta casta foi a escolhida “pela sua nobreza, de maior complexidade e que atinge maior grau alcoólico, servindo bem as exigências da madeira”. O seu lançamento teve como objectivo “ser uma referência que possa ombrear com outros brancos do mundo, mantendo as principais características do que é um vinho verde”.
Quanto aos rosés, o mercado “tem recebido muito bem este novo produto, com crescimentos assinaláveis, mas parte de uma base muito reduzida. Julgamos ser uma excelente alternativa aos tintos, num futuro próximo mas não imediato”.
O futuro próximo, porém, não passará pelo lançamento de novas marcas: “Julgamos que o caminho não é dispersar a oferta em múltiplas referências, mas concentrar todo o esforço na consolidação das actuais marcas e referências cujo lançamento foi focado em dois canais: distribuição e Horeca e dois mercados alvo, consumidor médio e médio/alto. Nessa linha, procedemos a um refreshing da rotulagem do nosso Praça de S. Tiago Colheita Seleccionada branco, para uma imagem mais leve, jovem e moderna, respondendo assim à procura”.
A Adega de Guimarães é ainda associada da Vercoope, através da qual comercializa um volume substancial da sua produção. Aliás, Sequeira Braga é membro do corpo directivo daquela entidade e não descura o papel importante que joga na região, pela capacidade de aglutinação de vários parceiros cooperativos e de comercialização dos seus vinhos.

A experiência Alvarinho

A ambição da Adega de Guimarães em crescer e a vontade de experimentar novos rumos não se fica por aqui. A Adega Cooperativa de Guimarães está a implementar “as primeiras plantações de Alvarinho, pelo que teremos que aguardar pelas primeiras uvas lá para 2012”. No entanto, refere Sequeira Braga, “estamos certos de que esta casta que tão bons resultados tem dado na Estremadura, no Alentejo, na Nova Zelândia e na vizinha Galiza, também será capaz de produzir excelentes vinhos na região dos Vinhos Verdes. Será com certeza uma extraordinária mais-valia para a região”, confia.
Os investimentos sucederam-se e, “depois do investimento inicial de cerca de 2,5 milhões de euros entre 1999 a 2001, tivemos uma segunda fase de investimentos, mais reduzidos, entre 2004 e 2007, na ordem dos 100 mil euros, para atingir a actual capacidade de laboração com total conforto e garantindo elevados padrões de qualidade na vinificação”.

Renovação vitícola

A Adega de Guimarães possui 120 associados activos, englobando uma área de produção que ronda os 250 hectares. O trabalho desenvolvido na viticultura prossegue, através de “um departamento técnico para acompanhar e apoiar todas as fases da viticultura desde a plantação”. Desde 2000, a adega apoiou a reconversão de 140 ha de vinha através do VITIS.
A este esforço, junta-se a formação profissional dos operadores nas diversas tarefas (poda, fitossanidade, determinação de data de colheita) e a introdução nos associados de conceitos como o enrelvamento da vinha e a difusão da condução através do cordão simples. “Fundamentalmente”, esclarece Sequeira Braga, “a produção passou a ser feita com a preocupação de fornecer ao mercado, através da cooperativa, o que o mercado está disposto a comprar”. Não obstante, “ainda se mantêm alguns produtores com sistemas de condução tradicionais”, nomeadamente em altura, mas “em quantidade residual e sobretudo com tintos. O VITIS alterou substancialmente esta realidade. Economicamente são inviáveis, embora etnograficamente muito interessantes”.
Foi ainda introduzido um procedimento de recepção de uvas e calendário de entregas por castas, sendo hoje “um pilar da nossa política”. Também a fixação de preço e prazo de pagamento antes da vindima faz parte da política desta empresa cooperativa, “estando todas as nossas obrigações perante produtores e demais fornecedores cumprida”.
Os preços pagos por kg/uva são variáveis “em função do tipo e qualidade da uva entregue”. Em 2008, oscilaram entre 0,25 e 0,45euros/kg. O ano passado foi ainda introduzido um “Bónus de Fidelidade“ a ser pago por quilo de uva entregue pelo associado em função da entrega, ou não, de uvas na campanha anterior. “Aqueles que o fizeram contribuíram para o enriquecimento da organização e têm assim uma descriminação positiva em relação àqueles que optaram por dar outro destino às suas produções”, explicou o presidente da adega.

Recorde de resultados

Os resultados desta estratégia estão à vista: “Em termos nacionais, 2008 foi outro ano de recordes de vendas. Passamos largamente a “barreira psicológica” das 100 mil unidades. A exportação é ainda residual mas representa já cerca de 5% das vendas de engarrafados”. Este segmento “tem crescido sustentadamente e, em 2009, abrimos uma nova frente na Alemanha, país onde julgamos ter grande potencial de crescimento, não só pelo mercado, mas também pela qualidade do parceiro no terreno”.
O volume de negócios global em 2008 foi ligeiramente superior aos 400 mil euros, um novo recorde da empresa, e as perspectivas para 2009 “apontam num crescimento de 6% em facturação”.
Para além disto, a Adega de Guimarães continua a pensar realizar um investimento em enoturismo, com o plantio de vinha na propriedade e a recuperação de várias casas agrícolas para realização de provas, museu, auditório, bar de apoio e esplanada. “Embora não esteja esquecido, de momento está adormecido”. Mas, pelo que vemos do trabalho desenvolvido nesta adega, pode despertar a qualquer momento. Tal como o fez, com enorme sucesso, a própria Adega Cooperativa de Guimarães. •

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Especial Vinhos Verdes
Adega Cooperativa de Ponte de Lima (PDF)
Na encruzilhada do futuro

Em plena comemoração do seu cinquentenário, a Adega Cooperativa de Ponte de Lima ambiciona virar uma página e trilhar novos caminhos, assente numa cultura mais voltada para o mercado. Protagonista dessa missão é a casta Loureiro.

Reportagem: Marc Barros

A sub-região do Lima é talvez a localização, no conjunto da região dos vinhos verdes, a que a casta Loureiro melhor se adaptou e encontrou as condições para expressar todas as suas características (ver caixa). Não será por isso de estranhar que esta casta constitua uma das armas preferenciais da Adega Cooperativa de Ponte de Lima (ACPL) para enfrentar os desafios do mercado. A outra será, como nos disse a presidente daquela entidade, Maria Celeste Patrocínio, uma “cultura empresarial” mais vincada, sem no entanto descurar a sua componente social.
Os desafios que se colocam são tanto maiores quanto a longevidade desta instituição de referência no próprio concelho de Ponte de Lima, mas também na região dos vinhos verdes. Em ano de comemoração, a Adega de Ponte de Lima encontra-se numa encruzilhada, perspectivando novos caminhos mas sem perder de vista as lições do passado.
Maria Celeste Patrocínio frisou isso mesmo, ao dizer que “a adega tem uma componente social importante, pois é talvez um dos maiores empregadores do concelho”, com 30 colaboradores, mas também fonte de rendimento para os cerca de 2000 produtores associados que aí entregam uvas, sendo que a esmagadora maioria pratica uma agricultura de minifúndio. Não obstante, sustenta, a Adega de Ponte de Lima “é uma empresa e tem que ser gerida como tal”. Assim sendo, “é fundamental que a adega possa adoptar uma cultura empresarial”, algo que, reconhece, “demora um pouco”.
Até porque aquela responsável iniciou funções há pouco mais de um ano, depois de convidada para liderar um projecto de renovação da instituição, e foi já sujeita a um processo eleitoral que deu ainda mais força à sua equipa e à estratégia que pretende implementar. Os primeiros resultados estão à vista: depois de vários anos consecutivos com resultados negativos, a ACPL registou, no exercício de 2008, um resultado positivo de 620 mil euros e, talvez mais importante, uma substancial redução da dívida aos cooperadores.
Como foi possível essa inversão em tão curto espaço de tempo? Por um lado, explicou a responsável da adega, “pelo crescimento das vendas nos produtos engarrafados e pelo aumento do seu valor” em detrimento do vinho a granel (que, em 2007, representara ainda mais de 50% das vendas) e, por outro, por uma redução de custos que envolveu um feroz combate ao desperdício.
Em termos gerais, a Adega de Ponte de Lima vendeu 3,39 milhões de litros pelo valor final de 3,84 milhões de euros. Destes, 858 mil litros corresponderam a vendas de vinho a granel, pelo valor de 196 mil euros, contra 2,53 milhões de litros de vinho engarrafados, num volume de 3,64 milhões de euros. Face a 2007, segundo os dados da ACPL, verificou-se um crescimento de 17% em valor na garrafa e um aumento do preço médio por litro de 25,6%, passando de 1,15 euros/litro para 1,44 euros/litro. O preço médio global subiu dos 0,61 euros para 1,13 euros/litros, num crescimento de 86,9%.

Os vinhos como segredo do sucesso

Números à parte, ficam os dados de uma importante recuperação e da viabilização económica e financeira da adega. Para além do papel da direcção, são os vinhos os principais responsáveis por este “pequeno milagre”.
Com as marcas da Adega Cooperativa de Ponte de Lima são colocados vinhos de grande qualidade e, sobretudo, de forte notoriedade no mercado, como o branco clássico e o branco adamado, ambos elaborados com base na casta Loureiro e beneficiados com harmonia organoléptica pelas castas Trajadura e Pedernã (nome regional do Arinto).
No caso do vinho adamado, com um teor de açúcar mais elevado, a adega vai ao encontro de um segmento de mercado cada vez mais importante – o feminino. Daí não ser de estranhar o contínuo crescimento das suas vendas. Para os apreciadores das virtudes da casta Loureiro, a adega coloca ainda no mercado um monocasta Loureiro, que encontra “um terroir de excepção em Ponte de Lima”, refere Celeste Patrocínio.
Para além destes brancos, a Adega engarrafa ainda um verde tinto de grande fama, elaborado a partir de uvas das castas Vinhão, Borraçal e Espadeiro, entre outras, e o monocasta Vinhão, este para um segmento mais elevado. Este último fez parte do lançamento de novas referências lançadas pela Adega de Ponte de Lima em 2005/2006, data em que a sua imagem foi renovada, bem como o Loureiro colheita seleccionada. A presidente da empresa adiantou ainda que, tanto o tinto como o monocasta Vinhão têm “bom acolhimento nos mercados fora da região, com presença na distribuição a nível nacional e na restauração”.
Também num segmento de nicho, mas de importante valor acrescentado, situa-se a aguardente vínica da adega, estando previsto o enchimento de duas mil garrafas para uma edição comemorativa dos 50 anos.

A importância das “pequenas coisas”

Com uma área coberta de 12.500 m2, a ACPL tem capacidade instalada para vinificar mais de 15 milhões de litros, sendo que a média actual ronda os cinco milhões, dos quais 1,75 milhões de tintos. Assim sendo, existe potencial para uma nova área de negócio, que passa pela vinificação de vinhos de outras empresas, aproveitando possíveis sinergias e rentabilizando os seus equipamentos.
A exportação representa apenas 5% do volume global, com destaque para EUA, Canadá, Noruega, França e Suíça. Neste último, aliás, Celeste Patrocínio ressalta os bons resultados obtidos em 2008, sobretudo por altura da realização do Campeonato Europeu de Futebol. E não tem dúvidas ao afirmar: “Quanto mais longe fosse Portugal na competição, mais vinho a adega exportava para a Suíça”.
O optimismo e a perseverança são, aliás, característicos nesta limiana com fortes vínculos às suas origens, mesmo quando o seu percurso académico e profissional a levou para outras paragens. Licenciada em Direito pela Universidade de Lisboa, fez o seu percurso profissional ligado à gestão no ensino superior, tendo sido, entre outros, administradora da Universidade do Algarve. A ligação a Ponte de Lima e o desafio que lhe foi colocado para presidir aos destinos da ACPL levou-a ainda a cursar Comunicação Internacional Vinícola no Instituto Politécnico de Viana.
A tarefa que tem entre mãos é, assegura, árdua mas compensadora: “É um trabalho de persistência, um esforço do quotidiano”, onde o mais difícil, revela, é “mudar a cultura, as pequenas coisas”. Por isso, dá grande enfoque à redução de custos, que passam, entre outros, “pelo corte nas despesas de vindima com pessoal e outras, já implementada no ano anterior”, e pela “valorização das nossas uvas, que continuou este ano, em função do grau e da casta”.
E é com indisfarçável orgulho que nos conta que a ACPL foi a primeira certificada a nível nacional e que nos apresenta as medalhas conquistadas pelos seus vinhos, como os últimos bronzes para o Loureiro Selecção 2008 no Challenge International du Vin e no Wine Masters Challenge. •

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Especial Vinhos Verdes
Adega Cooperativa de Monção (PDF)
Prossegue estratégia de investimento

Depois de comemorados os 50 anos de existência, a Adega Cooperativa de Monção prepara-se para outros desafios. Novos investimentos e novas referências no mercado marcam a estratégia deste gigante dos vinhos verdes.

Reportagem: Marc Barros

Quando o tema é “casos de sucesso” no sector cooperativo, a Adega Cooperativa de Monção é um dos exemplos que salta de imediato à mente. É um caso paradigmático de gestão e profissionalismo, sem nunca perder de vista as suas origens e, bem assim, a responsabilidade social para com a comunidade em que se insere.
Depois da viragem dos 50 anos, a Adega Cooperativa de Monção olha com optimismo para o futuro. Mas, como este está apenas ao virar da esquina (e sabendo que, neste mundo dos vinhos, as mudanças são rápidas como um piscar de olhos), novos projectos e estratégias estão a ser definidos, e novos rumos e mercados estão a ser traçados.
Com a conclusão e entrada em operação da quarta fase de ampliação das instalações da adega, num investimento de 6,5 milhões de euros que foi inaugurado no decurso das comemorações do seu cinquentenário, o presidente da Adega Cooperativa de Monção, Antonino Barbosa, confidenciou que está previsto um novo projecto “para aquisição de novas cubas de fermentação”, bem como de “uma nova linha de engarrafamento para espumantes e restante maquinaria para a sua elaboração”. O presidente daquela instituição revelou ainda aguardar “o reembolso de 70% do investimento realizado em 2007, na ordem dos dois milhões de euros”.
A candidatura ao Programa de Desenvolvimento Rural do Instituto de Financiamento de Agricultura e Pescas, no valor de 2,6 milhões de euros, “visa a construção de um armazém de produto acabado, linha completa para espumantes, melhorias no frio, investimentos em equipamento de laboratório e em fermentação de vinho branco”. O objectivo do investimento é iniciar a produção de espumante em escala e dotar a Adega Cooperativa de Monção de maior flexibilidade produtiva, explica.
Ou seja, a compra de cubas vem no sentido, “não do aumento de capacidade de produção de vinhos”, mas na resolução de dificuldades levantadas aquando das fermentações pois, “embora tenhamos cubas para fermentação de 20 milhões de litros, nunca utilizamos em pleno esta capacidade, pois convém que, durante as vinificações, as cubas nunca sejam cheias na sua totalidade”.
Nesse aspecto, adiantou Antonino Barbosa, “podemos ter dificuldades em alguns anos de muita produção, algo que não se verificou em 2008 e 2007”, dada a quebra verificada. Na última campanha, a Adega de Monção produziu 4,5 milhões de litros, menos dois milhões que em 2007. Exportação em crescimento

 

Há 51 anos atrás, a Adega Cooperativa de Monção foi fundada por iniciativa de 24 viticultores. A evolução foi positiva e constante, ao longo dos anos. Em 1962 contava com 62 associados, em 1992 com 855, em 1993 ultrapassou a fasquia dos mil, em 2006 com 1585 associados e em 2009 com 1800.
A adesão cada vez maior de cooperantes da sub-região de Monção, incluindo os concelhos de Monção e Melgaço, levou os viticultores ao plantio de vinhas em terrenos mais apropriados e a uma mais criteriosa selecção de porta enxertos e das castas recomendadas para a sub-região: o Alvarinho e a Trajadura para os brancos e o Vinhão, o Pedral e o Alvarelhão para os tintos.
Actualmente, a Adega de Monção representa cerca de 65% do vinho Alvarinho produzido na região. Dada a crescente dimensão deste universo, aquela cooperativa tem encorajado a reconversão das vinhas, com o consequente aumento de produção.
Como antigo funcionário das Finanças, Antonino Barbosa garante que as contas da estrutura a que preside “estão em dia”, algo que não é muito comum no panorama cooperativo nacional. Tal fenómeno deve-se a “uma gestão profissional, mantendo a vocação social” que desde sempre norteou estas empresas.
A evolução tecnológica e social reflectiu-se também na produção, representando um crescimento contínuo. Se em 1990 a Adega de Monção facturava 1,5 milhões de euros, em 2008, as vendas atingiram o maior valor de sempre, com 12,4 milhões de euros.
Do volume total de vendas, 20% devem-se aos mercados externos. “Tivemos em 2008 um ligeiro crescimento na exportação, com a penetração em novos mercados, mas também o crescimento de quota nos mercados onde já estávamos implantados”. Nestes casos incluem-se Angola (onde a marca Muralhas de Monção se destaca), França, Brasil, EUA, Alemanha e Andorra. Antonino Barbosa destaca a importância do mercado angolano pela sua taxa de crescimento, como “um bom mercado que tem que ser bem aproveitado, pois encontra-se fortemente capitalizado e paga antecipadamente”.

Muralhas diversifica

As inovações da Adega de Monção alastram-se igualmente à oferta de novos produtos. Aproveitando o sucesso e notoriedade da marca, foram lançados em 2008, como parte de uma experiência, 10 mil garrafas do primeiro espumante da sua leva, com a marca Muralhas de Monção. Trata-se de um espumante 100% Alvarinho, que surge na senda de uma crescente espumantização desta casta. Também por essa razão, “este ano engarrafamos 30 mil garrafas e queremos continuar a crescer ano após ano, até respondermos aos pedidos do mercado”. Para além deste espumante branco, a cooperativa colocou no mercado o Adega de Monção Tinto.
Com a mesma base de vinhos, a adega lançou ainda, em 2008, com grande sucesso, o rosado da marca Muralhas de Monção, “elaborado a partir dos lotes tintos que produzimos na adega e que contrabalançam a quebra que se vem sentido ano após ano nas vendas de tinto”, este de consumo eminentemente regional. Aliás, a marca Muralhas de Monção continua a ser o grande ex-libris da Adega de Monção, com “uma produção anual de três milhões de garrafas de 0,75 l e 500 mil de 0,37l”, resume Antonino Barbosa.
Mas como a produção da Adega de Monção não se esgota na marca Muralhas, outras referências merecem igualmente destaque, como o Alvarinho Deu-La-Deu estagiado em casco de carvalho, o Alvarinho Deu-la-Deu e as marcas Danaide branco e tinto e Adega de Monção branco e tinto. De fora, pela sua qualidade e tipicidade, não poderiam ficar as aguardentes, como prova da capacidade de diversificação e perspectiva de um dos melhores exemplos do cooperativismo nacional. •

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DFJ vinhos – 10.º Aniversário
José Neiva Correia abre portas às quintas da Estremadura e Ribatejo

A DFJ Vinhos completou, em 2008, dez anos de vida. Está por isso de parabéns, e a comemorar. Até porque, “alcançar a excelência da produção do vinho nas diversas regiões de Portugal, transformando a riqueza e variedade das castas portuguesas em vinhos da mais alta qualidade, acessíveis aos consumidores de todo o mundo”, não é fácil, nem para todos.

Reportagem: Patrick Neves

Essa tem sido a missão da DFJ Vinhos, de resto muito bem cumprida, quer por força da visão e carácter do seu proprietário e enólogo chefe, José Neiva Correia, mas também pela aposta, confiante e segura, que faz nos mercados, aqui e além fronteiras.
Para assinalar o décimo aniversário, a DFJ organizou em Fevereiro uma visita às principais quintas que detém nas regiões vinícolas da Estremadura e Ribatejo. O percurso incluiu a passagem pelas propriedades em Torres Novas e Alenquer e culminou, já perto de Santarém, com uma visita à Quinta da Fonte Bela, e um almoço, da responsabilidade do chef Pedro Nunes e do mestre pasteleiro Francisco Gomes.

Visita à Quinta da Madeira

A viagem iniciou-se na Quinta da Madeira, em Torres Vedras. Local de residência de José Neiva Correia, trata–se de uma propriedade de belas vistas, situada no cimo de um monte, com uma extensão de 25 hectares, 15 dos quais destinados à plantação de vinha, principalmente da casta Pinot Noir. Cerca de 1,5 hectares estão reservados a uma entusiástica e inovadora experiência com Dorn Felder, uma casta alemã praticamente desconhecida dos portugueses, de maturação precoce e grande resistência à influência atlântica, que dá vinhos com muita cor e fruta, bem ao gosto dos consumidores.
Foi neste terroir, sujeito a ventos mas também a boas exposições solares, que foi evocada por José Neiva Correia a parceria desenvolvida desde sempre com a Rui Abreu Correia e Herdeiros, uma empresa familiar que o produtor possui juntamente com os irmãos e que é detentora de 200 hectares de vinha, distribuídos pelos concelhos de Torres Vedras e Alenquer. Recordada foi também a associação estabelecida há três anos com Tomás Sanches da Gama, um homem que sensibilizou José Neiva Correia por ter iniciado, aos 76 anos de idade, a comercialização dos seus vinhos, oriundos da Quinta do Rocio. Ao fim do dia, e muitas vezes ao fim-de-semana, José Neiva Correia e Lisete Lucas, enóloga responsável pela produção da Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa, ajudam a manter vivo o sonho deste viticultor.

Matéria orgânica: um dos segredos da viticultura de José Neiva Correia

Prosseguindo caminho até Alenquer, eis-nos chegados à Quinta da Ponte, junto à povoação de Runa – uma propriedade rodeada de montes e com 25 hectares de vinha de diferentes castas, plantada há 13 anos. Exposta aos ventos marítimos, beneficia de um clima sempre fresco (com orvalhadas nocturnas que dispensam a rega) e solos negros, que permitem uma excelente absorção dos raios solares.
Segundo José Neiva Correia “este é o local onde melhor se cozinham vinhos”, dada a facilidade de maturação das plantas, que se fica a dever ao “grande número de horas de exposição solar, à utilização de matéria orgânica, à boa relação entre a massa verde e o número de cachos e à não concretização de doações químicas.”
“Um dos segredos da viticultura é, quanto a mim, a utilização de matéria orgânica, que é muito barata e deve ser introduzida quando há desequilíbrios nos solos”, referiu. “O único investimento que tem de ser feito é ao nível de maquinaria que possa fazer a localização da matéria orgânica e utilizá-la, com baixos custos”.
Com uma produção de 20 toneladas por hectare, a Quinta da Ponte é território privilegiado das castas Chardonnay, Arinto, Castelão e Caladoc (que resulta do cruzamento entre as castas Grenache e Malbec).

Quinta do Porto Franco na família há quatro gerações

A pausa seguinte deu-se a escassos quilómetros, na Quinta do Porto Franco, que tem vindo a ser restaurada e é considerada por muitos historiadores como uma das mais antigas de Alenquer, com uma origem anterior à nacionalidade.
Uma longa alameda de plátanos conduz os visitantes à entrada principal, onde se revela um edifício, baixo e comprido, que preza a traça típica das tradicionais casas agrícolas da região e fica a paredes-meias com a Quinta do Rocio. Local de nascimento de José Neiva Correia, está na posse da família há quatro gerações, incluindo em redor dos terreiros e pátios que circundam a casa manchas de diferentes cores produzidas pelas castas Alfrocheiro, Moscatel, Alicante Bouschet e Syrah.
Na velha adega, as atenções recaem nas armas da família Lobo Garcez Palha, do século XVIII, e em algumas fotografias expostas nas paredes, com imagens antigas dos cavalos a laborar na quinta, munidos de lanças em cobre. Um retrato do primeiro tractor vinhateiro utilizado em Portugal completa a pequena galeria que antecede o local de vinificação – onde se encontram armazenados alguns dos maiores tonéis de madeira do país (com capacidades entre os 35 e os 70 mil litros de vinho), bem como os antigos lagares já desactivados, os depósitos revestidos a fibra de vidro e epoxi, e as prensas horizontais. À saída destacam-se dois grandes reservatórios de vinho em cimento, caiados a branco, e vinhas quase a perder de vista.

Quinta da Fonte Bela: o centro de operações da DFJ

A viagem pelo universo da DFJ findou com a chegada à Quinta da Fonte Bela, em Vila Chã de Ourique, entre o vale de Santarém e Valada, local que constitui o centro de operações da empresa, na medida em que é ali que se procede ao controlo de qualidade e está instalado o centro de engarrafamento, rotulagem, armazenamento e distribuição dos vinhos.
Datada de 1897 e com cerca de 8 mil metros quadrados de área coberta, e outros tantos a descoberto (sempre vigiados de alto pelas cegonhas que nidificam nos telhados), a quinta é formada por um conjunto de insólitas e imponentes construções em pedra, que combinam a arquitectura francesa de chatêaux com resquícios de arquitectura industrial, não faltando a telha de Marselha e uma impressionante chaminé, visível a muitos quilómetros de distância. Tem um total de nove pavilhões, entre laboratório, fornos, armazéns, tanoaria, destilaria e a imensa adega, em utilização, com mais de 20 metros de pé-direito e cubas com capacidade para 2,5 milhões de litros. A adega já desactivada é considerada como um dos maiores reservatórios de tonéis de madeira do país, sendo hoje em dia utilizada para estágio do vinho em meias pipas de carvalho francês, português e americano.

Fusão de dois prazeres: vinhos DFJ e receitas com vinho de Pedro Nunes

Antes de conhecer a quinta, os participantes foram convidados a entrar na sala de provas da Quinta da Fonte Bela e sentar-se à mesa. Após tomarem um apetizer, tiveram a oportunidade de degustar algumas das melhores receitas criadas com vinho pelo chef Pedro Nunes (do restaurante São Gião, em Moreira de Cónegos) para acompanhar os néctares da DFJ, recentemente compiladas em livro, editado sob a chancela Bertrand com o título “Grand’Arte – A Fusão de Dois Prazeres – 40 vinhos para 40 receitas”.
Como entrada um magnífico Escabeche de Sardinha, bem ao jeito e sabor portugueses, teve como acompanhamento o brilhante e muito frutado Coreto Rosé, que desde logo cativou os presentes, abrindo caminho a um festival de sabores. O Monte Alentejano Trincadeira & Aragonez acompanhou uma muito bem conseguida Alheira com Bróculos e Ovo de Codorniz, seguindo-se uma surpreendente e original Canja de Gambas e Morangos que casou, formidavelmente, com o vinho branco regional da Estremadura Casa do Lago Fernão Pires. Em seguida, a muito bem condimentada Roupa-Velha foi servida com o Manta Preta Reserva Touriga Nacional & Tinta Roriz, fechando com Perdizes com Cogumelos e o vinho Segada. No final, para adoçar a boca, a pastelaria gourmet de Francisco Gomes: Tarte de Framboesa, servida com DFJ Alvarinho & Chardonnay e um bonito Bolo de Chocolate Oriental, acompanhado do Escada DOC Douro.

José Neiva Correia: pioneiro na implantação de novas castas em Portugal

Reconhecido pela importante contribuição para a transformação do vinho português, o produtor e engenheiro técnico agrário José Neiva Correia, de 59 anos, tem tanta vocação para fazer vinhos de topo como para produzir vinhos baratos, criando marcas destinadas a um mercado de massas e usando castas tradicionais e internacionais com assinalável mestria. Descendente de várias gerações de vitivinicultores, tanto do lado paterno como materno, seguiu a tradição familiar com gosto, profissionalismo, criatividade e muito entusiasmo, assinando cada um dos seus muitos e variados vinhos com misturas de castas improváveis e com resultados surpreendentes. Como enólogo, tem vindo a desenvolver um trabalho pioneiro na implantação de novas castas no nosso país, promovendo uma agricultura amiga do ambiente, livre de químicos, bem como soluções para a correcta vedação das garrafas, com rolhas de cortiça.
Desde que fundou em 1998 a empresa DFJ Vinhos, tornou-se responsável por uma produção média anual de seis milhões de garrafas, tendo no seu portfólio 33 marcas e 77 vinhos diferentes, oriundos de todas as regiões portuguesas, do Douro ao Algarve. Exportando 90% da produção para os cinco continentes, é detentor de uma das maiores quotas do mercado inglês (o equivalente a um milhão e meio de garrafas exportadas anualmente), impondo-se maioritariamente com marcas a preços muito competitivos e dirigidas a um segmento médio.
No mercado nacional as suas vendas rondam os 15%, prevendo-se que (pelo menos) dupliquem, até ao final de 2010. •

Grand’Arte: A Fusão de Dois Prazeres – 40 Vinhos para 40 Receitas

A visita às quintas que a DFJ Vinhos possui nas regiões da Estremadura e Ribatejo serviu de pretexto para a primeira apresentação pública do livro “Grand’Arte:
A Fusão de Dois Prazeres – 40 Vinhos para 40 Receitas”. Com
texto da autoria de Leonor Vaz Pinto e fotografias de Manuel Correia, foi editado em Portugal no final de 2008, sob a chancela Bertrand, em versão bilingue (português e inglês), grande formato e com uma apelativa imagem de capa. Com P.V.P. recomendado de 23,95 €, trata-se de um conjunto de 40 receitas confeccionadas com vinho, criadas pelo chefe Pedro Nunes para acompanhar
40 dos 77 vinhos produzidos pela DFJ, incluindo ainda sobremesas, também elaboradas com estes néctares pelo consultor de pastelaria Francisco Gomes.
Após um breve historial do percurso de José Neiva Correia e da sua actividade no seio da DFJ Vinhos, o livro apresenta propostas que, apesar de originais e inovadoras, respeitam os sabores genuinamente portugueses. A primeira parte
é dedicada aos grand apetizers, ou à “Arte de Bem Petiscar”, seguindo-se grand celebrations (“A Arte de Bem Festejar”) e Grand’Arte (reportando-se ao nome de alguns vinhos DFJ da região Estremadura). A obra encerra com uma listagem dos 40 vinhos seleccionados para acompanhar os pratos. •

Um ano excepcional, apesar da quebra na produção

A colheita de 2008 promete deixar uma herança de vinhos memoráveis. Quem o diz são enólogos das diferentes regiões vinícolas, que não hesitam em falar de um ano de qualidade excepcional

Os vinhos produzidos em Portugal no ano de 2008 apresentam um alto nível de qualidade, que superou mesmo as melhores expectativas dos produtores, segundo anunciou a ViniPortugal, depois de ter consultado enólogos ligados às diversas regiões vitivinícolas nacionais.
Para a elevada qualidade contribuiu grandemente a estabilidade climática verificada na altura da colheita, que proporcionou vinhos “de um modo geral equilibrados, muito concentrados na cor e nos aromas, com frescura e grande potencial de envelhecimento”.
Por outro lado, confirmaram-se as previsões de que, em termos de quantidade, a produção decresceu relativamente ao ano passado.
Na região dos vinhos verdes, a quebra da produção cifrou-se entre os 5 e os 10%, segundo o enólogo Manuel Soares, da Aveleda. Mas, no que toca à qualidade, 2008 foi “um ano surpreendentemente muito bom”, já que os vinhos se apresentam “muito equilibrados, frutados, frescos e elegantes”.
Na Bairrada, efectuou-se “uma colheita de grande qualidade para todos os tipos de vinho”, de acordo com o balanço de Luís Pato. “A vindima de 2008 foi excelente em qualidade para os brancos e vinhos base para espumante, e sobretudo para os tintos da casta Baga”. A queda da produção nos brancos foi de 30%, e nos tintos de 10% na casta Baga e 40% na Touriga Nacional.
No que se refere ao Douro, o enólogo Francisco Gonçalves, da Sogevinus Fine Wines, afirma que “ainda é prematuro avaliar a qualidade dos vinhos”, mas “a evolução da matéria-prima está a decorrer de uma forma bastante positiva” e, a manter-se, haverá “um ano muito interessante em termos qualitativos”.
A região do Dão teve “um ano fantástico”, segundo Carlos Lucas, da Dão Sul. “Os vinhos encontram-se a evoluir de forma positiva, são muito concentrados em cor, de graduação normal, com acidez muito equilibrada. Estamos perante um ano de vinhos com boa capacidade de envelhecimento”. A produção nos brancos diminuiu cerca de 10%, enquanto nos tintos se manteve nos parâmetros habituais.
Também na Estremadura se produziram “uvas de excelente qualidade que deram origem a vinhos excepcionais”, afirma José Luís Oliveira da Silva, da Casa Santos Lima. Nesta região, e ao contrário do que sucedeu nas outras, verificou-se um aumento de produção da ordem dos 18%.
“Um ano de qualidade muito boa” foi o que se registou igualmente no Ribatejo, de acordo com Rui Reguinga, da Casa Cadaval. Os vinhos produzidos na região são “de boa estrutura, equilibrados, com taninos suaves, frescos e algum potencial de envelhecimento”. O decréscimo na produção situa-se entre os 25 e os 30%.
Na Península de Setúbal, “a qualidade dos vinhos tintos é excepcional”, refere Jaime Quendera, da Adega Cooperativa de Pegões e da Casa Ermelinda Freitas. “É certamente uma colheita que irá deixar grandes vinhos para recordar, extremamente ricos e concentrados como raramente aparecem, isto em quase todos as castas”. Nos vinhos brancos ocorreu uma ligeira quebra na produção e nos tintos uma perda generalizada que ronda os 25%.
Luís Duarte, enólogo da Herdade dos Grous, também fala de “um ano excepcional” no Alentejo, com vinhos “muito equilibrados, devido ao Verão fresco que se fez sentir, o que permitiu excelentes maturações”. •

Fonte: ViniPortugal

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Sociedade Agrícola Casal do Tojo
Quinta de Catralvos

Um empreendimento modelar

Manuel Beatriz, um engenheiro civil bem sucedido, procurava uma segunda casa na zona de Azeitão. Encontrou uma que, por acaso, incluía terrenos com vinha. Daí até à paixão pela vitivinicultura foi apenas uma questão de tempo. E assim nasceu a Quinta de Catralvos.

Reportagem J. E. Aparício e Nuno Xavier • texto Nuno Xavier

Enquadrada pela magnífica paisagem do Parque Natural da Arrábida, na zona de Azeitão, encontra-se a Quinta de Catralvos, um empreendimento que alia a produção de vinho ao enoturismo e à organização de eventos vários. Para quem visita a propriedade, torna-se evidente que se trata de um projecto modelar, em cuja concepção e execução foi dada atenção a cada pormenor. Mas, curiosamente, a existência da Quinta de Catralvos resulta de “um acidente”, como conta o seu proprietário, Manuel Arroja Beatriz.
Formado em engenharia civil, Manuel Beatriz dedicou grande parte da sua vida a este sector. Fundou a primeira empresa em 1958, antes ainda de acabar o curso, e desde então criou várias outras, sempre ligadas à área dos materiais, como isolamentos e pré-fabricados. Duas das suas empresas chegaram mesmo a ser líderes de mercado, afirma, sem esconder algum orgulho pelo feito. Até que, na década de 1980, decidiu adquirir uma segunda casa de habitação. A zona eleita foi, desde o início, a de Azeitão, pela qual o engenheiro civil há muito sentia uma particular atracção. Informado sobre uma propriedade que se encontrava à venda precisamente nesta zona, Manuel Beatriz adquire-a em 1984. Quis o destino que a propriedade em questão, além da casa, integrasse uma vasta área de terreno com vinha. E assim começava, sem que sequer o seu proprietário o soubesse, a história do actual empreendimento da Quinta de Catralvos.

Oito anos à espera de aprovação

Vendo-se na posse, ano após ano, de várias toneladas de uvas, Manuel Beatriz optou inicialmente por vender a produção à empresa José Maria da Fonseca. Mas, com o decorrer do tempo, foi desenvolvendo gradualmente um gosto pela vinha. Um “entusiasmo” – como o próprio o qualifica – que fermentou até o levar a decidir-se por uma alteração radical na sua área de negócios, com a criação da Sociedade Agrícola Casal do Tojo, detentora da marca Quinta de Catralvos.
Tomada a decisão, pensados os pormenores do empreendimento, realizados os estudos de mercado, Manuel Beatriz entregou em 1992 às autoridades o processo para obter as licenças necessárias à concretização do seu novo projecto. No entanto, devido aos habituais entraves burocráticos – mais complexos ainda neste caso particular, por se tratar de um empreendimento situado numa área protegida -, a aprovação só chegaria oito anos depois. No ano 2000, o empresário pôde finalmente dar início às obras de adaptação e ampliação do edifício, que ficaram concluídas em 2002 – ano em que as uvas colhidas na propriedade se destinaram já à produção dos seus próprios vinhos.
Sobre o longo período em que aguardou pelo licenciamento, Manuel Beatriz diz que teve um aspecto positivo: “Deu-me tempo para maturar o projecto”. Mas teve também um aspecto negativo: “Perdi uma grande oportunidade por não ter começado na década de 90”. Explicitando, o empresário afirma que o projecto, “concebido para muita qualidade, hoje não é rentável”, uma vez que “arrancou com os mercados completamente alterados em relação ao previsto nos estudos” efectuados na época em que foi pedido o licenciamento.
Por outro lado, Manuel Beatriz descobriu que há uma diferença abissal entre o sector dos materiais de contrução e o mundo dos vinhos. “Tive um choque tremendo ao ver os números, a diferença em termos de produção per capita”, confessa o produtor, referindo-se à comparação entre as duas áreas de negócio. Uma diferença que passa, em grande medida, pela questão da comercialização, que no caso dos vinhos “está concentrada nas grandes superfícies” – as quais detêm, como é do conhecimento público, um enorme poder negocial na relação com os fornecedores.
A solução para rentabilizar o comércio dos vinhos passa, assim, por procurar novos clientes, nomeadamente no mercado externo. Depois de já o ter tentado isoladamente em 2006, sem grande sucesso, Manuel Beatriz aposta agora numa parceria com o conceituado médico dentista Paulo Malo para fazer chegar as suas marcas a diversos países (ver caixa).

Controlar todo o processo para garantir a qualidade

Classificadas como DOC ou Vinho Regional Terras do Sado, são cinco as marcas do portfólio de vinhos Catralvos: Monte da Charca (branco e tinto), Lisa (branco, tinto e rosé), Amo-te (tinto), Catralvos (branco e tinto) e Marquês de Lavradio (tinto). Aos vinhos de mesa junta-se ainda um generoso, o Catralvos Moscatel de Setúbal DOC 5 Anos, que foi engarrafado pela primeira vez em 2008, depois de ter cumprido os cinco anos de estágio em barricas que anteriormente serviram para envelhecer whisky. Todas com a assinatura dos enólogos Jorge Rosa Santos (residente) e Nuno Cancela de Abreu (consultor), estas marcas totalizam anualmente uma média de 700 a 750 mil litros de vinho, número que este ano – tal como aconteceu por todo o país – caiu para cerca de 500 mil.
As uvas que dão origem aos vinhos brancos são produzidas na própria Quinta de Catralvos, que dispõe de 20 hectares de vinha com as castas Moscatel de Setúbal, Fernão Pires, Arinto e Chardonnay. A propriedade tem ainda algumas uvas tintas, mas está em curso um plano de reconversão que levará à sua substituição por castas brancas, uma vez que, de acordo com Manuel Beatriz, o microclima existente no local proporciona às uvas brancas “uma acidez fantástica”.
No âmbito deste plano, elaborado com base em experiências em laboratório para avaliar a aptidão de diversas castas, foram já feitas em 2008 enxertias de Verdelho e serão feitas no corrente ano outras de Alvarinho.
Os vinhos tintos são elaborados com uvas provenientes do Monte da Charca, situado na freguesia de Canha, Montijo, onde se cultivam as castas Castelão (ou Piriquita, como é conhecida na zona), Syrah, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional, Aragonês e Alicante Bouschet. Esta propriedade, com 50 hectares de vinha, resulta da junção de vários terrenos que Manuel Beatriz foi adquirindo ao longo do tempo. O primeiro dos terrenos foi comprado em 1999 (antes ainda, portanto, do arranque do empreendimento da Quinta de Catralvos) e a ele se juntaram outros nos anos seguintes. Desta forma, Manuel Beatriz cumpria um dos objectivos traçados desde o início: não comprar uvas a outros produtores. “Queria controlar o processo todo, para garantir a qualidade, e precisava de ter um milhão de quilos de uvas, que era a dimensão optimizada para atingir os objectivos, segundo os estudos de mercado”.
Visitar a Quinta de Catralvos permite perceber que, como era seu desejo, o produtor controla todo o processo. As instalações – que foram já ampliadas duas vezes desde a inauguração – incluem uma ampla zona de vinificação, equipada com moderna tecnologia e com capacidade para fermentar um milhão de kg de uvas, um armazém que pode albergar 1,2 milhões de litros de vinho, uma (também ampla) zona de estágio e uma linha de engarrafamento. Quanto à zona de estágio (onde envelhecem o Moscatel, em barricas já usadas para whisky e para Armagnac, e alguns tintos, em barricas novas), Manuel Beatriz valeu-se da sua experiência como engenheiro civil para situá-la no subsolo, sob um prado criado para o efeito e que é regado nos dias mais quentes, garantindo assim uma variação térmica mínima ao longo de todo o ano.
Mas para garantir a qualidade do vinho não basta investir numa boa adega. O controlo do processo começa logo no fruto, pelo que as vinhas estão equipadas com o sistema de rega gota-a-gota, a vindima é mecanizada e a cultura obedece aos requisitos da protecção integrada.

Diferentes espaços para diferentes necessidades

As actividades da Quinta de Catralvos não se resumem, porém, à produção de vinho. O empreendimento tem também, desde 2005, uma valência de enoturismo, disponibilizando cinco quartos para quem queira conhecer de perto o dia-a-dia de uma exploração vitivinícola, e ainda uma piscina ao ar livre destinada aos hóspedes. O edifício, com dois pisos, integra ainda uma loja para venda de vinho aos visitantes e um salão, com capacidade para 500 pessoas sentadas e vista para o interior da adega, onde se realizam diversos tipos de eventos, de casamentos a reuniões de quadros de empresas ou apresentações de novos produtos. Defronte da entrada do salão, pode desfrutar-se de um simpático terreiro (o Pátio das Ânforas) enquadrado por um alpendre, e de um relvado, ambos igualmente disponíveis para os mais diversos eventos. Por último, há também uma sala mais pequena, onde já funcionou um restaurante e que actualmente é utilizada para realizar provas e cursos de vinho ou para reuniões de grupos mais reduzidos (até cerca de 70 pessoas).
O serviço destes espaços é garantido pela equipa de cozinha, que, além de várias ementas específicas destinadas a eventos de maior dimensão, oferece os chamados “menus enogastronómicos”, que consistem em cinco pratos e cinco vinhos ou sete pratos e sete vinhos.
Também o Monte da Charca, no concelho do Montijo, tem uma valência turística, com um total de oito quartos, neste caso dedicados ao turismo rural. •

Catralvos na via da internacionalização parceria com… um dentista

A principal razão pela qual o projecto da Quinta de Catralvos não conseguiu ainda atingir os seus objectivos é a actual conjuntura, pouco favorável à comercialização dos vinhos em condições de assegurar a rentabilidade do empreendimento. Num mercado em larga medida dominado pelas grandes superfícies, Manuel Arroja Beatriz (tal como muitos outros produtores) vê-se forçado a aceitar as leis impostas por estas empresas, uma vez que a quantidade de vinho que produz não lhe permite entrar no catálogo das distribuidoras que operam a nível nacional.
Desde a sua fundação, a Sociedade Agrícola Casal do Tojo (detentora do empreendimento e da marca Quinta de Catralvos) tem tentado fazer face à situação valendo-se da venda directa (através da sua própria equipa de comerciais) e de contratos com pequenos distribuidores locais, que fazem chegar os produtos a clientes do canal Horeca (hotelaria, restauração e cafés). A empresa participou ainda, juntamente com outros quatro produtores de outras tantas regiões vinícolas, na criação da distribuidora Discover, que não viria, porém, a atingir os objectivos inicialmente delineados.
Neste cenário, Manuel Beatriz entende que a solução passa pela exportação. Já em 2006 fez uma primeira tentativa de penetração em mercados externos, nomeadamente nos Estados Unidos e em Angola, e também, em menor escala, em França e no Reino Unido. Mas, exceptuando o caso de Angola – onde os vinhos Catralvos estão “bem implantados” -, a experiência ficou mais uma vez aquém dos resultados pretendidos.
O empresário gizou então uma nova estratégia para contornar as dificuldades de penetrar em mercados distantes e, na generalidade dos casos, com características muito diferentes do português. “Comecei a pensar num parceiro. Alguém de fora do mundo dos vinhos, mas que estivesse internacionalizado e tivesse preocupação com a qualidade”. Acabou por encontrá-lo num amigo de há muito, o médico dentista Paulo Malo, proprietário da Malo Clinic, o maior centro de implantologia e reabilitação oral fixa do mundo, situado em Lisboa. Com o seu Malo Group, o médico está presente – através de clínicas, centro de spa e outros estabelecimentos – em 13 países, entre os quais os Estados Unidos, Marrocos, Brasil, China, Rússia e Austrália.
Sobre a circunstância de ter escolhido um parceiro de uma área de actividade tão distinta da vinicultura, Manuel Beatriz explica: “Naturalmente, não quero que as clínicas vendam vinho”. A intenção do empresário é tirar partido do facto de Paulo Malo ter nos diferentes locais equipas que conhecem os respectivos mercados, e por isso podem ter um papel determinante na internacionalização dos vinhos Catralvos.
O primeiro passo da parceria foi já dado em Dezembro, com a criação da firma Malo-Tojo Estates, Lda., à qual a Sociedade Agrícola Casal do Tojo cedeu os direitos de exploração das suas marcas, da sua adega, do enoturismo, etc. Agora, resta esperar que “a revolução” – como lhe chama Manuel Beatriz – comece a dar frutos. •

Editorial 76

Vinhos verdes: Frescas propostas na nova estação
No auge da Primavera e com o Verão quase, quase a chegar, o calor obriga-nos por vezes a parar, encontrar uma sombra e refrescar. E, para desfrute total, nada melhor que um vinho português, branco ou rosé, servido à temperatura adequada ou, para os mais aprimorados, um espumante bruto ou um licoroso fresquinho. ler mais

J. E. APARÍCIO - Director

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