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Especial Vinhos Verdes
Associação de Produtores de Alvarinho de Monção e Melgaço (APA) (PDF)
Em defesa do Alvarinho
A criação de mecanismos que defendam o Alvarinho de Monção e Melgaço da “cobiça” de que vem sendo alvo é um dos objectivos desta nova entidade. Mas os seus projectos não se esgotam aqui.
Entrevista: Marc Barros
A criação de uma nova associação unificada de produtores de Alvarinho dos concelhos de Monção e Melgaço é encarada por José Aleixo, dirigente da APA e produtor de vinho Alvarinho, como um projecto que, a curto prazo, dará “mais força aos produtores, sobretudo os de menor dimensão, pois podemos fazer valer os nossos interesses a uma voz só”.
Entre estes contam-se a necessidade de “fazer face às ameaças” que surgem, pois “o Alvarinho está em perigo de perder a sua independência”, disse. A disseminação da casta pela região dos Vinhos Verdes e mesmo fora dela é encarada com apreensão por estes produtores: “O vinho branco nacional mais cotado é o Alvarinho, e daí o interesse de outros produtores não só da região, mas mesmo de outras regiões. Na nossa perspectiva, com pouco mais de 40 empresas, colocamos várias marcas entre os melhores vinhos do mundo; não nos provaram ainda que os vinhos produzidos fora da sub-região atinjam o mesmo grau de qualidade”.
Ou seja, está em causa a própria noção de especificidade da sub-região de Monção e Melgaço e do seu terroir. Por outro lado, acrescenta José Aleixo, o Alvarinho “envolve uma população inteira destes dois concelhos”. As características regionais de produção fragmentada desta casta em regime de minifúndio levantam problemas de ordem social e económica. “Estamos a falar de um total de 2700 produtores, com um rácio de 0,7 hectares por cada um”.
Em risco de banalização
O interesse que a casta Alvarinho desperta e que provoca “a cobiça desses agentes económicos” deve-se não à casta em si, refere José Aleixo, mas ao “estatuto e notoriedade” que atingiu. Aliás, reconhece, “esse foi o nosso erro inicial, ao utilizarmos a designação Alvarinho como o nome do nosso vinho, ao invés da sub-região Monção e Melgaço”.
A defesa desta particularidade deve ser uma missão da nova entidade associativa. “É preciso que a CVR proteja estes dois concelhos como ex-libris da região”. Porém, recorda, “fora da região dos vinhos verdes a CVRVV não tem influência para proteger o Alvarinho do interesse dos grandes grupos, com forte capacidade económica e de promoção”. A APA Monção e Melgaço deve assim desenvolver estratégias nesse sentido, que poderão “passar por uma denominação de origem própria da sub-região”.
Em última análise, frisou, poder-se-á correr o “risco de disseminação e banalização da casta”, algo que “já se verifica na Galiza, com a denominação Rias Baixas a sofrer algum desgaste, provocada com a diminuição da qualidade do vinho dada a elevada produção de uva”.
O Alvarinho nos modernos mercados
Um outro problema que a sub-região poderá enfrentar está relacionado com o facto de, nos últimos anos, terem surgido várias novas marcas de Alvarinho no mercado, atomizando um segmento que poderá perder capacidade de negociação face ao peso da grande distribuição.
José Aleixo recorda que a sub-região tem já várias marcas de maior dimensão, mas acredita que o mercado terá capacidade para absorver produtores de várias dimensões, pois “o Alvarinho é também um vinho de nicho”. “Podemos chegar a quase todos os mercados, faltando apenas a dimensão e estrutura financeira para aposta no marketing e promoção”.
Neste ponto, “a associação pode ter um papel fundamental na alavancagem de novos mercados internacionais” e na adopção de estratégias de “promoção, levando pequenas produções a mercados que actualmente não atingem”, disse. Ou seja, dotar a sub-região dos mecanismos essenciais ao moderno mercado dos vinhos mas, ao mesmo tempo, proteger a sua especificidade e matriz cultural. •

Especial – Vinhos Verdes
Entrevista a Manuel Pinheiro (PDF)
- Presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV)
“É preferível uma vitória em equipa que uma derrota em solidão”
O aumento da presença nos mercados externos e a captação de investidores de outras regiões nacionais contam-se entre os desígnios do presidente da região dos vinhos verdes.
Manuel Pinheiro revela ainda as principais alterações introduzidas pelo novo estatuto da região.
Entrevista: Marc Barros
É uma região em franco crescimento
A região dos vinhos verdes tem melhorado anualmente o seu desempenho, o que não a isenta de algumas contradições. Os últimos dados divulgados pelo índice AC Nielsen referem que, em 2008, a quota de mercado dos vinhos verdes foi de 22,7%, num total de 20 milhões de litros transaccionados, e 19,6% em valor, que representa 71,5 milhões de euros. O presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), Manuel Pinheiro, sublinha que este índice não cobre todos os estabelecimentos do país, mas demonstra que a região está firme na segunda posição a nível nacional e, curiosamente, em primeiro a nível de vinhos com Denominação de Origem, já que o Alentejo arrebata a liderança à custa dos vinhos regionais.
Esta performance tem sido de “crescimento nos últimos cinco anos”. Porém, regista uma quebra de produção nos últimos anos e, consequentemente, baixa de stocks. “Devemos ser das poucas regiões europeias onde se verifica falta de vinho”, o que acarreta várias consequências: desde logo, o “aumento dos preços – há dois anos o vinho a granel era vendido a 20 cêntimos/litro e hoje está a quase um euro”, afiança. “A região tem uma falta estrutural de vinho”, de onde resulta importância acrescida ao novo estatuto da região (ver caixa).
Por outro lado, as candidaturas ao programa Vitis, que financia a reconversão da vinha, na região dos vinhos verdes, foram “quase metade do total nacional”, num conjunto de 1100 hectares. Ou seja, esclarece aquele responsável, ”a produção valorizou-se imenso e há interesse crescente em investir na região”. Em 2009, apesar da conjuntura, “não se antevê qualquer razão para que o preço da uva possa baixar”. Ao contrário, o programa de arranque de vinha “teve pouco impacto”.
Apelo à união
Em contrapartida, alerta, poderá verificar-se o risco de o viticultor, ao ver a sua produção valorizada, possa cair na tentação de criar a sua própria marca, atomizando ainda mais um mercado com cerca de 2000 marcas diferentes e 600 produtores/engarrafadores.
“A região precisa de menos marcas e marcas mais fortes – por isso apelamos a um entendimento entre produtores. A região tem já uma importante união de cooperativas (Vercoope), sendo que as restantes estão a tentar integrar-se num segundo grupo, o que me parece positivo. Ao mesmo tempo, as sociedades comerciais terão que se juntar, pois a distribuição está cada vez mais concentrada e temos que responder a esse movimento com força”.
No que se refere às cooperativas, num total de 20, assiste-se a “um movimento tendente à criação de parcerias e há projectos que unem estruturas nas áreas comercial, marketing e de compras”. Manuel Pinheiro recorda que “o movimento cooperativo faz 50 anos, com união de produtores e consolidação, mas é preciso dar um novo passo, no sentido do ganho de massa crítica de gestão e capacidade comercial”. Por outro lado, desaconselha a criação de novos centros de vinificação. “É preciso investir no início e no fim da fileira, ou seja, em novas vinhas e melhores vinhas e na vertente comercial”, aponta.
Quanto aos privados, o presidente da CVRVV reconhece que o número de engarrafadores diminuirá, seja por força do mercado (com consequências mais dolorosas), seja através de concentração de esforços. “Incentivamos os produtores à união; nas acções de marketing que desenvolvemos promovemos presenças comuns, pois acreditamos que é melhor uma vitória em equipa que uma derrota em solidão. Mas essa é uma análise que terá que ser feita pelos produtores”.
A necessidade de exportar
Apesar da posição confortável que a região detém a nível interno, “esta não crescerá em termos estruturais. Por isso, quem quiser crescer terá que o fazer no exterior, o que implica uma visão mais profissional e de rigor, respondendo às exigências que os mercados externos colocam, que são diferentes do mercado interno”, disse Manuel Pinheiro.
O vinho verde é a segunda região que mais exporta em Portugal. Em 2008, o valor das exportações ascendeu a 26 milhões de euros, representando 18% do volume global de vendas da região, para mais de 60 países. Ou seja, trata-se de “um volume interessante que mostra que o vinho verde não é um desconhecido no Mundo”.
Por outro lado, “mais de metade do nosso orçamento de marketing destina-se a promoção externa, mas infelizmente poucos agentes económicos participam e poucos encaram a exportação como uma necessidade”. Porém, disse, “os primeiros três meses de 2009 deram-nos uma lição admirável”, pois o fraco desempenho a nível interno foi compensado com “um forte crescimento em valor na exportação”.
Ou seja, “as empresas que estão dependentes de um só cliente, que é Portugal, devem diversificar”. Manuel Pinheiro acredita que a região pode ser uma “locomotiva de exportação do país”, mas é preciso um maior volume de investimento. Daí que a CVRVV esteja a desenvolver esforços no sentido da captação de investimentos na região dos vinhos verdes por parte de empresas oriundas de outras regiões do país.
Até porque, nos mercados externos, o vinho verde é visto como um produto único, leve, fresco, jovem, pouco calórico e responsável, inscrevendo-se numa tendência de consumo global de vinhos brancos que pode alavancar um crescimento das vendas nesses países, mesmo englobando conjuntos de vinhos de produtores de outras regiões nacionais. “Não vejo por que razão uma empresa do Alentejo, do Dão ou do Douro não possa ter um vinho verde no seu portefólio, como complemento de oferta”. Deu o exemplo da empresa José Maria da Fonseca, que “regressou ao vinho verde e, no primeiro ano no mercado americano, entrou para o top de vendas”. •
Vinhos Verdes – Uma região heterogénea
A actual Região Demarcada dos Vinhos Verdes estende-se por todo o noroeste do país, na zona tradicionalmente conhecida como Entre-Douro-e-Minho. Tem como limites a norte o rio Minho (fronteira com a Galiza), a nascente e a sul zonas montanhosas que constituem a separação natural entre o Entre-Douro-e-Minho Atlântico e as zonas do país mais interiores de características mais mediterrânicas, e por último o Oceano Atlântico que constitui o seu limite a poente.
Orograficamente, a região apresenta-se como “um vasto anfiteatro que, da orla marítima, se eleva gradualmente para o interior”, no dizer de Amorim Girão, expondo toda a zona à influência do oceano Atlântico, fenómeno reforçado pela orientação dos vales dos principais rios que, correndo de nascente para poente, facilitam a penetração dos ventos marítimos.
As vinhas, que se caracterizam pela sua grande expansão vegetativa, em formas diversas de condução, ocupam uma área de 35 mil hectares e correspondem a 15% da área vitícola nacional. A maior parte da região assenta em formações graníticas, constituindo excepções duas estreitas faixas que a atravessam no sentido NO-SE, uma do silúrico, onde aparecem formações carboníferas e de lousa, e outra de xistos do arcaico.
O solo tem, na maior parte da região, origem na desagregação do granito. Caracteriza-se, regra geral, por apresentar pouca profundidade, texturas predominantemente arenosas a franco-arenosas (ligeiras), acidez naturalmente elevada e pobreza em fósforo.
Os níveis de fertilidade são naturalmente baixos, como facilmente se depreende das características apontadas acima. No entanto, dada a natureza dos sistemas agrários praticados desde tempos recuados na região, os solos apresentam uma fertilidade adquirida considerável, que permitiu durante séculos suportar as mais altas densidades populacionais do país.
O segredo desta fertilidade pode resumir-se a dois principais tipos de intervenções do homem nas condições naturais: o controlo do relevo pela construção de socalcos e as incorporações intensivas e persistentes de matéria orgânica no solo.
A região dos vinhos verdes, como a maior do país em termos territoriais, engloba nove sub-regiões: Monção e Melgaço, Lima, Basto, Cávado, Ave, Sousa, Paiva, Amarante e Baião. Cada uma destas sub-regiões apresenta grandes diversidades, quer ao nível climatérico, quer de solos, quer de castas e mesmo (mas numa perspectiva etnográfica), de sistemas de condução. Daí que as palavras mais adequadas para descrever (e descobrir) a região sejam heterogeneidade e tipicidade.•
Concurso de gastronomia e vinho verde
A Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) lançou a segunda edição do Concurso de Gastronomia e Vinhos Verdes. Esta iniciativa pretende promover as harmonizações do vinho verde com a gastronomia regional, portuguesa e internacional e incentivar o consumo de vinhos da região.
As inscrições decorrem até ao dia 30 de Junho, data até quando todos os restaurantes de Portugal Continental podem apresentar-se a concurso, escolhendo uma das três categorias: cozinha de autor, em que a “assinatura” do cozinheiro chefe está patente na elaboração da ementa; cozinha internacional, cozinha específica de uma região do mundo; ou cozinha tradicional, cozinha típica portuguesa/regional.
A missão dos concorrentes é criar um menu – entrada, prato principal e sobremesa – que combine na perfeição com o sabor do vinho verde. São admitidas harmonizações com vinho verde branco, tinto, rosado, espumante, aguardente de vinho da Região dos Vinhos Verdes e aguardente bagaceira da Região dos Vinhos Verdes.
A avaliação das candidaturas será dividida em duas fases. Numa primeira fase, todas as ementas serão avaliadas de acordo com critérios como a diversidade dos Vinhos Verdes Recomendados, a harmonização gustativa e a apresentação (por fotografia).
As seis ementas melhor classificadas por categoria de restaurante passam à segunda fase, na qual a avaliação é efectuada por um júri. Este desloca-se até aos restaurantes apurados, onde avalia a ementa preparada com base em critérios como a apreciação gustativa, a harmonia com o vinho (temperatura do vinho, adaptação e equilíbrio da comida com os vinhos) e a harmonia total da ementa. Os prémios são atribuídos de acordo com a pontuação que os restaurantes obtêm nesta segunda fase – Diploma de Ouro (100 a 95 pontos), Diploma de Prata (94 a 85 pontos), Diploma de Bronze (84 a 75 pontos) e Diploma de Participação (menos de 75 pontos). •
Aprovado aumento de produção de vinhas novas e reconvertidas
No âmbito da reforma das Comissões Vitivinícolas Regionais, onde a CVRVV assumiu papel pioneiro, ao ter sido a primeira entidade certificadora aprovada (com a possibilidade de apoiar a CVR de Trás-os-Montes ainda em aberto), a região dos vinhos verdes está prestes a dar o segundo passo.Este envolve a aprovação e publicação do novo estatuto da região, o qual estabelece as regras de produção. Manuel Pinheiro espera ver esta legislação publicada e em vigor ainda em Junho. Entre as novidades, contam-se o lançamento da categoria Colheita Tardia, “um produto de nicho, mas que pode ser relevante”.
Porém, a principal alteração envolve a possibilidade de subida do rendimento por hectare das vinhas novas ou reconvertidas, passando dos actuais 10.600 Kgs/ha para 13.500 kgs/ha. Este aumento, garantiu Manuel Pinheiro, poderá diminuir o défice de vinhos que a região padece e tornar as vinhas mais rentáveis.
O risco de diminuição da qualidade da uva “tem sido discutido, mas os técnicos apontam para que este valor está dentro do aceitável qualitativamente”. Poderão, no entanto, ocorrer variações em função de localizações e castas. Desta forma, as vinhas que “queiram entrar nesse primeiro escalão terão que ser fiscalizadas anualmente”, processo que poderá incluir a contratação externa de técnicos para proceder a este trabalho extra. Em sentido inverso, as vinhas tradicionais verão a sua capacidade reduzida para 7.500 kgs/ha. •

União potencia oferta de produtos e serviços de codificação (Pdf)
A Markem e a Imaje, líderes mundiais de soluções de identificação e rastreabilidade de produtos para clientes da indústria da embalagem, fundiram-se numa única empresa, potenciando a sua oferta. Junho marca o início da presença desta união em Portugal e a Nectar percebeu junto de António Barris, EMEA Sales Director da Imaje, os benefícios desta parceria.
Entrevista: Patrick Neves
António Barris exerce funções na Imaje Tecnologias de Codificação Lda. há 15 anos, tendo sido director-geral da filial portuguesa e, em 2004, responsável pela acção da empresa em França, Suíça, Benelux, África e Médio Oriente. Três anos depois, torna-se director comercial EMEA (Europa, Médio Oriente e África), supervisionando a integração da Markem-Imaje em diversos países, nomeadamente em Portugal.
Segundo as suas palavras “a marcação é uma área onde a inovação tecnológica e a dinâmica comercial andam de braço dado, fazendo com que a palavra rotina seja apagada do léxico e seja substituída por desafio, numa constante busca de resposta, em antecipação às necessidades dum mercado em velocidade TGV”. Em Novembro de 2007, o anúncio da fusão com a Markem surge como “forma de reforçar a complementaridade das respectivas gamas de produtos, a sua cobertura geográfica e sobretudo a sua grande experiência neste mercado”, sendo que é a “melhor maneira de proporcionar mais valor acrescentado aos clientes”.
Em 2008, “a prioridade foi a integração das actividades onde as duas empresas tinham presença directa (através de filial), seguindo-se os países onde a presença era mista (através de filial e distribuidor), como é o caso português”.
Desde o dia 1 de Junho de 2009, as actividades das duas empresas passam assim a estar debaixo da responsabilidade da filial portuguesa Markem-Imaje, servindo esta decisão “como reforço da presença directa da Imaje em Portugal, que já vem desde 1988, tendo criado, ao longo de mais de 20 anos, uma imagem de grande profissionalismo e proximidade com os clientes, fruto de um trabalho constante das suas equipas no terreno”.
Número 1 no sector de codificação e marcação
A apresentação da nova imagem decorreu na FIL Alimentaria 2009, tendo obtido grande aceitação por parte dos clientes e mercado em geral, reafirmando a Markem-Imaje como “a referência da codificação e marcação em Portugal”.
Considerada número 1 no sector de codificação e marcação e com uma quota de mercado próxima dos 50%, foi pioneira na cobertura geográfica do país, tendo desde sempre uma presença directa em Lisboa (sede) e no Porto, com um total de mais de 20 trabalhadores. Tal como na capital, a delegação nortenha possui uma equipa técnica e de vendas com uma vasta experiência; sendo “estratégia global da Markem-Imaje manter a mesma alta qualidade de serviço em qualquer ponto do país, região e mesmo a nível mundial”. A organização implantada é semelhante em todos os países, assegurando a assistência antes e pós-venda, fornecimento de consumíveis e logística (através de departamentos especializados), e uma coerência e uniformidade de serviço, fundamental num mundo global como o de hoje.
“A prioridade agora é assegurar a todos os nossos clientes o mesmo nível de serviço”, sendo que “a dinâmica da Markem-Imaje, num ambiente económico difícil, é ser capaz de responder em antecipação às exigências do mercado, esperando-se para breve algumas novidades, ainda antes do Verão”, revelou António Barris.
Sector vinícola prioritário
Considerado prioritário para a Imaje, o sector vinícola tem uma presença muito forte na marcação de garrafas e no domínio das soluções para caixas e paletes, utilizando as mais diversas tecnologias (jacto de tinta, Laser, Alta Resolução, DOD, P&A, entre outras), “capazes de apresentar a melhor solução global, integrando também softwares de gestão e integração dos equipamentos e, sobretudo, oferecendo o mais baixo custo de marcação disponível no mercado”. As centenas de equipamentos Markem-Imaje espalhadas pelo país são prova da sua liderança neste sector, havendo uma tendência de crescimento relativamente a 2008, o que antecipa uma excelente perspectiva para 2010.
Com mais de 95 anos de experiência, a Markem-Imaje é subsidiária do nova-iorquino grupo Dover, fornecendo soluções totalmente integradas que permitem a qualidade e segurança do produto, conformidade com a regulamentação do retalhista e melhoria contínua nos processos de fabrico. Com sede desde 1982 em Bourg-les-Valence, França, emprega mais de 2800 pessoas em 33 países, incluindo uma carteira de mais de 30 000 clientes. É apoiada por 6 centros I&D, diversos núcleos de reparação de equipamentos e fábricas.
As novas instalações em Portugal, no Sintra Business Park, têm uma área de escritórios de 500m2 e um armazém com cerca de 150m2. •
Pedro Abrunhosa
Branco, tinto ou rosé?
Todos.
Carne ou peixe?
Depende da sobremesa.
Qual a sua região vinícola preferida?
Entre Douro e Alentejo.
Um vinho de eleição.
Tinto Sombra e Branco Luz, resultado da parceria Abrunhosa / Niepoort.
Um restaurante de eleição.
O Janela da Taberna, em Cacela-Velha. Branco fresco e conquilhas directamente da praia.
Uma experiência gastronómica memorável.
Na China, cobra frita.
Em que ocasiões não dispensa um bom vinho?
Quando não dispenso uma boa companhia.

Carlos Brito*
“Falta trabalhar a parte emocional do vinho”
A ligação entre o vinho e o consumidor necessita de um apelo mais intenso à vertente emocional dos vinhos. Humanizar a comunicação é fulcral para o conseguir. Segundo Carlos Brito, professor da Faculdade de Economia do Porto e especialista em Marketing de Vinhos, os produtores portugueses devem afinar as suas estratégias de promoção e marketing, apostando nas relações públicas e no lobbying. E melhorar as suas capacidades de parceria com outros produtores. Porque “cooperação é diferente de amizade”, sublinha este economista.
Entrevista: Marc Barros
Nectar – Não basta saber fazer bom vinho, é preciso saber vendê-lo. É uma máxima que os produtores portugueses já interiorizaram?
Carlos Brito - Tradicionalmente, os produtores portugueses sempre descuraram a vertente do marketing e promoção. Somos um país produtor de vinhos, mas não somos um país de vendedores, eficazes na área de valorização do produto. Não posso, no entanto, negar, que nos últimos 10 anos tem sido feito um grande esforço, com o surgimento de muitas marcas, sejam quintas, engarrafadores ou mesmo grandes empresas. Por vezes de forma caótica, pois nem sempre é aconselhável colocar uma marca, ou fazê-lo de certa forma.
O problema é sobretudo de valorização, ou seja, não se trata de uma questão da qualidade dos vinhos, mas quando este surge numa prateleira a 3, a 2 euros ou até menos, há um défice de valorização do produto. É exactamente aí que o marketing entra.
Como se consegue essa valorização?
Desde logo com uma mudança de paradigma, isto é, quem vende vinho deve ter a noção que “não está no negócio dos vinhos”. Por exemplo, o vinho do Porto é-o porque obedece a um conjunto de características definidas por legislação relativas à sua origem, ao seu teor alcoólico, às castas utilizadas, etc. Mas isso é pouco. O vinho do Porto é muito mais do que isso – é a região, a sua história, as suas paisagens, a sua tradição, gastronomia, a cultura, é também o Porto e Gaia, com as suas caves. E é tudo isso que se vende numa garrafa de vinho do Porto, e é assim que se valoriza o vinho. O desafio do marketing é esse, o de agregar a um produto central outras componentes que do ponto de vista do cliente façam sentido e acrescentem valor.
Um problema de dimensão
O excesso de marcas, que conduz a guerras de preços e volumes, conduz à desvalorização do vinho?
Para acrescentar valor na área dos vinhos, como em qualquer negócio, é essencial dominar as actividades que integram a cadeia de valor e são críticas. Na área dos vinhos, o valor acrescenta-se nas áreas a jusante, ou seja, mais próximas do consumidor – desde o engarrafamento à marca ou à comercialização. Daí que tenha havido uma tendência nos últimos anos (veja-se na região dos vinhos verdes, mas também em todo o país) para a criação de marcas próprias, com pequenas propriedades e pequenas produções. E isto à partida está certo, pois é aí que se acrescenta valor. Mas há um reverso, ou seja, será que o pequeno produtor tem dimensão para colocar a sua marca? A minha percepção é que, muitos pequenos produtores com marca própria, provavelmente ganhariam mais se se limitassem a produzir boas uvas. Porque, para ganharem dinheiro com marca própria, têm que ter uma dimensão mínima para investir em marketing e assim obterem o retorno dessa valorização.
O mercado encarregar-se-á de eliminar as marcas que estão a mais?
Creio que há excesso de marcas e que há sobretudo muita gente, sobretudo pequenos produtores e engarrafadores, a ganhar muito pouco dinheiro ou a ter prejuízo. Temos ainda o fenómeno curioso do produtor que tem uma outra actividade – médico, engenheiro ou outra – que tem uma quinta para onde vai no fim-de-semana, por isso não mete as contas todas, vai equilibrando o negócio.
Mas está a desvirtuar o mercado…
Exacto, pois não faz as contas todas. Poderemos considerar que está na fronteira do hobby e vai equilibrando o negócio. Mas quem inclua todas as contas, está a perder dinheiro.
Na sua opinião, qual é a dimensão considerada mínima para estar no mercado?
Se quiser investir em marketing e promoção, tem que ser minimamente visível para que esse investimento seja viável. Estamos a falar de 150 mil garrafas.
Nessa realidade está incluído o mercado internacional?
Sim. Abordando novamente a lógica do pequeno produtor, o contacto nos mercados internacionais surge muitas vezes de uma forma fortuita e não sistemática e organizada. Abordagens mais profissionais englobam a presença em feiras, muitas vezes em parceria com outros produtores ou, de forma mais sofisticada, organizações como os Douro Boys ou o Independent Winegrowers Association (IWA) para o mercado britânico, com custos repartidos e complementaridade.
Para o pequeno produtor a estratégia deve ser o que chamamos estratégia “push”, empurrando o produto, ou seja, trabalhar o canal de distribuição. Não se exigem gastos avultados de promoção e publicidade, ou seja, de comunicação “above the line”, mas sim “below the line”, ou seja, relações públicas.
Cooperar ou ser amigo?
A associação entre produtores é uma boa opção?
É, no sentido de desenvolver acções de relações públicas, o que é uma forma adequada de promoção. A ideia é estabelecer contactos, fazer lobby junto de líderes de opinião, nomedamente críticos de vinhos que, com uma notícia favorável, podem ter maior influência junto do consumidor do que um anúncio. A publicidade é importante para dar notoriedade, mas esta aplica-se a produtores de grandes quantidades.
O associativismo continua a ser uma das pechas dos produtores nacionais?
É uma afirmação que se aplica à generalidade do tecido empresarial português, seja qual for o sector. Cooperação entre empresas não têm a ver com amizade – esta faz-se entre pessoas. Posso cooperar com uma empresa cujo dono nem sequer é muito meu amigo, mas as nossas empresas cooperam lindamente. Em suma, não devemos confundir cooperação com amizade. Por outro lado, a cooperação empresarial exige profissionalismo, subtanciado no que chamamos 4 C’s – conjugação de interesses (por exemplo, explorar um mercado comum); compartilha de recursos (que podem ser dinheiro, tempo, esforço, acesso a mercados ou know-how); coordenação de actividades e; confiança.
E a confiança também se cria, sobretudo através de formas que não impliquem grandes comprometimentos à partida, com pequenos projectos. E se as coisas correrem bem, então pode-se avançar para projectos gradualmente maiores. E assim, trabalhando em conjunto, ganha-se confiança. Isto é assim para o vinho como para qualquer outro sector.
A adopção de uma estratégia “push” na distribuição faz mais sentido para o mercado externo? O marketing e promoção terão que ser diferentes nos mercados interno e externo?
Têm. A questão da distribuição é fundamental no mercado externo por uma razão simples: quem cá está conhece minimamente o mercado e tem uma percepção dos canais de distribuição e das tendências do consumo. Mas lá fora, uma empresa não muito grande não tem essa percepção de forma tão sólida; por isso tem que recorrer a quem conhece o mercado, ou seja, o operador local.
No mercado interno, quais os aspectos em que uma empresa deve vincar a sua estratégia de marketing?
A marca é fundamental, bem como a comunicação. Neste caso, a dimensão é fulcral. Uma pequena empresa deverá operar” below the line”, ao nível das relações públicas e canal de distribuição, feiras, internet e agregar o produto vinho a uma oferta mais alargada – enoturismo, turismo de habitação, trilhos pedestres, bicicleta, integração numa rota de vinhos ou outra, cultural ou arquitectónica, por exemplo.Uma empresa maior pode fazer tudo isto, mas tem que apostar em publicidade e na visibilidade em orgãos de comunicação social. Em qualquer dos casos terá que trabalhar o canal de distribuição, pois há uma interdependência entre quem vende e quem vai distribuir.
Um dos fenómenos que se verifica actualmente é a verticalização, englobando todo o processo, desde a produção à distribuição. As vantagens serão óbvias?
São, e essa é uma tendência que se verifica em todos os sectores, ou seja, quem produz quer estar mais próximo do consumidor final. Há, desde logo, razões técnicas e logísticas que permitem que tal aconteça – as tecnologias de informação, as facilidades de transporte, os meios logísticos de armazenagem e distribuição, todos eles permitem que se eliminem intermediários. Mas há também razões de mercado: quanto mais próximo se está do consumidor, melhor se percebe o que este procura. E o consumidor tem hoje um poder brutal.
Mulheres e jovens – os segmentos do futuro
A arma do consumidor reside na escolha, mas há também uma fragmentação – no vinho do Porto assiste-se ao progressivo envelhecimento do consumidor médio. Como podem os produtores contrariar essa tendência?
Uma coisa é fazer regressar o consumidor ao vinho, outra é fazê-lo optar por determinada marca. Portugal é um país tradicionalmente bebedor de vinho, e nem sempre isso era bom sinal, a começar pela sinistralidade rodoviária – o que não significa que deixar de beber vinho para passar a beber outra bebida alcoólica melhore a situação. Esse consumo per capita foi diminuindo, com a transferência para outras bebidas, como cerveja, água ou refrigerantes. Actualmente estamos numa fase estável, madura. Fazer crescer um mercado destes não é fácil.
Numa situação dessas, algumas opções envolvem oferecer um produto em novas roupagens. Mas, no caso dos vinhos é mais difícil – vinho em lata ou garrafas de plástico não é lá muito sedutor…
Não, mas pode-se tentar operar segmentos negligenciados, no caso as mulheres e os jovens. Metade da população é constituída por mulheres, e cada vez mais são as mulheres que escolhem os vinhos. Repare, eu disse escolhem, porque beber sempre beberam. O que significa que as suas escolhas prendem-se com vinhos ligados à sua sensibilidade, ou seja, vinhos mais doces ou adamados. E hoje temos empresas que trabalham claramente esse segmento – por exemplo, 52% do vinho escolhido em Inglaterra é-o por mulheres, e a tendência é para aumentar.
O segmento dos jovens, no que toca ao consumo de bebidas alcoólicas, passa pela cerveja e bebidas fortes. Os vinhos consumidos não serão grandes vinhos, muito complexos, mas sim fáceis de beber, como brancos ou rosés (e aqui o vinho verde pode ter uma oportunidade).
Essa perspectiva não será bem aceite por muitos produtores, pois implica adequar o produto ao mercado, deixando para trás noções arreigadas como terroir, genuinidade dos vinhos, ou seja, um produto que tem que encaixar nos mercados.
É verdade e nota-se sobretudo em empresas mais pequenas, numa orientação excessiva para o produto. Faço um vinho como o meu pai e o meu avô faziam, é um vinho que resulta de uma herança centenária, a minha roda de amigos diz que é um vinho excelente. Mas não o vendo, porque o mercado não percebe nada. Manter esta postura é fatal.
É uma lacuna cultural e de formação em marketing. Uma das formas de avaliar a qualidade do produto é a sua aceitação pelo mercado: se a qualidade é essencial, a última pessoa que deve dar opinião é o produtor e a primeira é o consumidor. É preciso passar para orientação para o mercado.
Nessa transição, qual o papel que as associações sectoriais podem ter?
Enorme, não a vender, mas a promover. Uma organização que vende os produtos de outrém, como uma central de vendas, está a passar um atestado de menoridade ao produtor. Não quer dizer que não funcione, mas sou céptico quanto a essa solução. Mas pode ser importante a passar informações de mercado, a revelar tendências de consumo, dar formação técnica de produção, de marketing, financeira e recursos humanos. E isso pode ajudar imenso a transformar a mentalidade dos produtores.
As armas da diferença
A nível externo, a utilização de castas autóctones pode ser uma arma valiosa?
Um país como Portugal só pode vingar nos mercados internacionais com vinhos diferentes. Os novos produtores utilizam castas internacionais, com vinhos de excelente relação qualidade/preço, graças às fantásticas condições de escala que possuem. Portugal só pode competir pela diferença. Poderá haver um passo intermédio, com vinhos que resultem da elaboração de lotes de castas nacionais com internacionais que facilitem a penetração em certos mercados. E mais: um produtor de vinhos com várias marcas pode utilizar uma ou duas com castas internacionais para abrir portas aos vinhos de castas autóctones sem dar um tiro no pé.
Essa diferenciação será suficiente, quando vemos produtores de outros países, sobretudo do Novo Mundo, que cada vez mais apostam em embalagens inovadoras, por exemplo?
É necessário ter mais arrojo e pisar o risco. A dúvida é saber onde está o risco. A certeza é saber que fazer o que temos vindo a fazer só nos levará ao mesmo sítio. A solução é inovar e quebrar tabus; porque muitas vezes esse tabu só existe na nossa cabeça. No sector do vinho do Porto temos exemplos bem sucedidos, como o lançamento do Óptima pela Symington, do Pink pela Croft ou do Portonic. Ou da produção de espumantes na região dos Vinhos Verdes. Isto sem desvirtuar o que é essencial, nomedamente ao nível das tradições, que também acrescentam valor. Não passa pela cabeça de ninguém que em Champagne metam o vinho numa lata.
Rejuvenescer o vinho do Porto implica ter esse arrojo?
Sim, mas é preciso ter uma visão de longo prazo. Não nos podemos esquecer que o vinho do Porto tem uma tradição de séculos, ao longo dos quais viveu várias crises. Creio que a situação actual não é preocupante. Mas não deixa de ser verdade que se devem fazer esforços para entrar em segmentos insuficientemente explorados – jovens e mulheres. E outro aspecto importante, que vale para todos os vinhos: é preciso humanizar a comunicação. Nas revistas ou na televisão, quando se fala de vinho, vemos muitas imagens de paisagens, das vinhas, etc. Mas onde estão as pessoas? São elas quem faz o vinho e quem o consome. Falta trabalhar a parte emocional do vinho. •
A oportunidade (e os desafios) do enoturismo
O enoturismo é uma nova área de negócio para as empresas?
É uma nova área de negócio, que implica competências na área do turismo e não dos vinhos. Esse é um dos problemas, pois muitas empresas que exploram o enoturismo fazem-no de forma errada. Quem sabe de turismo sabe vender enoturismo como turismo radical. As competências são semelhemantes. As possibilidades de expansão são enormes, pois está no âmbito da indústria de lazer, com forte tendência de crescimento. As pessoas têm cada vez mais dinheiro mas, sobretudo, cada vez mais tempo.
Uma das coisas que herdámos da crise de 1929 foi deixar de trabalhar ao sábado, simplesmente porque não havia trabalho. Quem nos diz que esta crise, que é profunda, não poderá ter como uma das soluções deixar de trabalhar à sexta-feira à tarde? Por isso é de prever que esta indústria continue a crescer.
O enoturismo terá um papel importante, pois não é um turismo de massas. Divide-se em dois grandes segmentos: aquele que visita um país e quer conhecer as regiões, as quintas, os vinhos, numa completa imersão no contexto do vinho (segmento que na Europa vale cerca de 500 mil viagens anuais), e aquele vai conhecer um país, visitar uns castelos, fazer montanhismo e também visitar uma quinta ou outra, ou seja, está receptivo a uma experiência de enoturismo. Este segmento vale, na Europa, 20 milhões de visitas anuais.
Em Portugal, por exemplo, um turista que vá ao Porto, passe por Guimarães e ao Douro, numa lógica de visita de áreas que são Património da Humanidade, poderá estar receptivo a uma ou mais oferta enoturística. É necessário, porém, que tudo esteja bem engrenado e que uma roda dentada engrene na outra.Essa integração de oferta não se verifica?
Muito pouco, porque as rotas turísticas funcionam como roteiros, a que muito poucas pessoas estão receptivas. Essa integração representa passar de uma lógica de roteiro para uma lógica de rede.Como se pode conseguir essa mudança de paradigma?
Tem que passar pela gestão da rota, desde as entidades gestoras de rotas, as CVR e os produtores. Se há pouco falávamos de dificuldades de associação de empresas, as dificuldades de entendimento entre instituições são muito maiores. Ou seja, acabar com a lógica de “capelinha” e mostrar que, ao beneficiar um, todos ganham. Até porque a promoção do turismo passa pela promoção do território, e o aumento de competências regionais ligados a diferentes sectores de actividade é, nesse aspecto, fundamental. Por isso é que a fusão das entidades de turismo foi importante. •
Rumos para os vinhos
Este docente da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP) tem uma carreira feita quer no apoio às empresas do sector vinícola quer no domínio da investigação. Doutorado em Marketing pela Universidade de Lancaster (Reino Unido), onde defendeu uma tese dedicada ao sector do Vinho do Porto, Carlos Brito tem colaborado como consultor com diversas entidades nacionais e estrangeiras, nomeadamente a Comissão das Comunidades Europeias, grupo Sonae, INESC, Instituto dos Vinhos do Douro e Porto ou Fundação de Serralves, entre outras. Carlos Brito faz ainda parte do Who’s Who in Science and Engineering e é um dos dezasseis “Mestres Portugueses da Gestão”, livro editado por Jorge Nascimento Rodrigues. Actualmente está a preparar um livro sobre Marketing de Vinhos e já publicou a obra “Estrutura e Dinâmica do Sector do Vinho do Porto”. Recentemente, Carlos Brito desenvolveu uma série de estudos na área dos vinhos, tendo sido o coordenador, entre outros, dos estudos «Rotas Enoturísticas do Norte de Portugal», promovido pela CCDR-N – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, IVDP e CVRVV; «Plano de Marketing para o Sector Vitivinícola da Região do Lima», a pedido da ARDAL – Associação Regional de Desenvolvimento do Alto Lima; «Plano Estratégico para o Vinho Verde» e «Manual de Boas Práticas para o Enoturismo no Vinho Verde», ambos promovidos pela ANCEVE – Associação Nacional dos Comerciantes e Exportadores de Vinhos e Bebidas Espirituosas. •
* Professor da FEP e especialista em Marketing de Vinho

A experiência e sabedoria do Vinho do Porto
É um prazer e um privilégio conversar com alguém assim. Só a experiência e dedicação ao sector do vinho do Porto podem criar o distanciamento e a sabedoria necessárias para convicções e opiniões tão profundas. O enólogo Martins Alves, director técnico da Gran Cruz e consultor da Sogevinus, que engloba as casas Calém, Barros, Burmester e Kopke, é um fervoroso adepto das potencialidades do Douro, que acredita poder evoluir ainda mais, não apenas no que se refere ao vinho do Porto, mas sobretudo na criação de vinhos DOC Douro de ainda maior qualidade. Para alguém que já fez de tudo no sector, Martins Alves prima pela modéstia e pela exigência em fazer ainda mais e melhor, que acredita dever ser apanágio de todos os enólogos. Ficamos a saber quais os segredos que estão por trás da produção de vinhos do Porto de qualidade e por que razão, como nos disse, os Vintage são os melhores. Mas Martins Alves não é só vinho do Porto. Herdeiro e descendente de viticultores, também os vinhos verdes merecem uma atenção particular a este enólogo.
Texto: Marc Barros
Nectar – Há quantos anos trabalha no sector dos vinhos?
Martins Alves – Comecei há 33 anos, depois de concluído o curso de Enologia na Escola Superior Agrária de Coimbra, com um colega que trabalhava na Sandeman. Na sala de provas estavam alguns vinhos, que provei e referenciei. Fui-me aperfeiçoando e fazendo vários estágios, desde a Facudade de Economia, passando pela casa Poças, e depois fui convidado para a Quinta do Noval, em 1978. Era na altura propriedade da família Vanzeller, onde trabalhei com os irmãos Fernando e Luís e o primo Frederico, que era o provador. Os provadores não tinham um curso específico à época mas tinham imensa prática de provas.
Ao fim de meio ano assumi a direcção técnica da casa, com apoio eventual na viticultura. Declarei o meu primeiro Vintage em 1980, do Noval Nacional, e depois em 1982, que tem um significado muito especial para mim pois, para além de ter sido muito bem classificado, foi o ano de nascimento da minha filha. Mais tarde, em 1988, saí do Noval e fui convidado para presidente da Câmara de Provadores do Instituto do Vinho do Porto. Comecei a dar cursos para provadores, ficando com um grupo de oito provadores e eu como presidente.
- À época a Câmara de Provadores funcionava de forma um pouco diferente…
- Funcionava em dois turnos, um de manhã e outro à tarde. Os vinhos eram provados em prova cega, por todos os provadores.
Hoje verifica-se (e ainda bem), que os vinhos são provados apenas da parte da manhã, o que não acontecia no meu tempo, como eu tentei. As provas devem ser feitas entre as dez e o meio-dia, e à tarde, se tiverem que ser feitas, só depois da 15h30. O provador deve ter cuidado com a alimentação, pois se tem um almoço com certos alimentos, estraga o paladar e prejudica as provas.
Ainda no Instituto dei um curso para escanções de 11 hotéis do Porto, e cursos de formadores para o quadro de provadores do IVP. De todos os cursos, estes foram os que tiveram as mais altas classificações de sempre. Dois ainda estão lá e outro numa firma exportadora.
- O que representa um grau de exigência muito elevado…
- Quem fez os exames foi a Junta Consultiva, que era composta por cinco elementos provenientes do sector, pessoas com muita prática e idoneidade, com 30 a 40 anos de serviço. Havia uma prova escrita, sobre as vinificações e outros aspectos dos vinhos, e uma prova prática, cega, com vinhos novos, velhos, com ou sem defeitos, para identificação.
- Quando recomeçou a trabalhar no sector privado?
- Comecei a trabalhar como consultor na Rozès, até que esta adquiriu a São Pedro das Águias. Enquanto a firma tinha os seus armazéns em Gaia, continuei, até ser convidado para director técnico da Gran Cruz, que inclui a marca C. Da Silva, e fiquei ainda como consultor da Calém, hoje propriedade do grupo Sogevinus, do qual ainda sou consultor.
A importância de criar um bébé
- No sector do vinho do Porto já fez tudo – director técnico, provador, formador. De todas estas actividades, qual lhe dá mais gozo?
- O que me dá mais prazer é fazer o vinho. É um desafio, ao fim de três meses após a vindima, saber orientar os vinhos, através das suas características analíticas e organolépticas, para as respectivas categorias. Esta é a parte mais importante, pois o vinho do Porto tem categorias muito distintas. Dou-lhe um exemplo: o Colheita só é comercializado a partir de Janeiro depois de sete anos passados após a sua vindima e de aprovado pelo Instituto. Mas, para isso, é preciso, sete anos antes, saber que aquele vinho, com três meses de idade, depois de concluídas as fermentações, dará um vinho daquela categoria. Mas, para além disso, é preciso acondicioná-lo na vasilha mais apropriada, acompanhá-lo, rectificá-lo, em suma, saber envelhecer o vinho. É quase como criar um bébé.
No caso dos tawnies com indicação de idade é preciso acompanhar o envelhecimento e fazer os lotes. Já o LBV é engarrafado quatro a seis anos após a vindima, acondicionado entre inox e madeira, por forma a obedecer aos regulamentos do Instituto, que pede vinhos tintos e encorpados, com aromas e paladares finos.
Os Vintage são os vinhos mais nobres, são os mais estruturados, com mais corpo, mais cor e que, desde a vindima até ao 3.º ou 4.º mês, temos que escolhê-los e dar-lhes a estabilização mais adequada àquele tipo de vinho. É engarrafado a partir da sua aprovação, dois anos depois da vindima, até Junho do terceiro ano, sendo que o envelhecimento é feito em garrafa, por redução.
- Há uma dupla tendência no consumo dos Vintage, entre os que preferem bebê-los desde logo, ou aqueles que preferem esperar alguns anos. Qual a sua perspectiva?
- Qualquer uma das alturas pode ser boa, consoante o gosto do consumidor. Na minha opinião, um Vintage com mais de 10 anos será ideal. Claro que podemos ter algumas surpresas, por exemplo provocadas por defeitos de rolha. Mas, para ser aprovado no IVDP, um Vintage tem que ter uma classificação de Excelente.
- Consegue definir um perfil de vinhos que seja mais ao seu gosto?
- Os vinhos que mais gosto são os Vintage, de onde procuro extrair alguns aromas especiais, como o aroma a esteva, e que seja encorpado e bem estruturado. Os aromas a frutos vermelhos, por exemplo, aparecem nos vinhos novos mas, com a idade, dão lugar a outros. Há mercado para vinhos novos, com quatro ou cinco anos, como o britânico ou norte-americano. Mas nestas idades são ainda um pouco pesados ao paladar e agressivos. Têm que aveludar com a idade, arredondando os taninos e tornando-se mais agradáveis.
O acompanhamento é também importante. Costumo dizer que o melhor é o Queijo da Serra, que ainda por cima é nosso, mas outros queijos, como o Camembert ou o Brie, são igualmente propícios.
- Dentro das categorias especiais, alguns enólogos preferem fazer Tawnies com indicação de idade a Vintage ou LBV devido ao desafio do loteamento. Partilha dessa preferência?
- Não, pois o Vintage não deve ser feito todos os anos. Há firmas que o fazem anualmente e o Douro tem condições para declarar Vintage todos os anos. Mas três ou quatro por década é o ideal, até para não banalizar a categoria. É, na minha opinião, o melhor vinho. Costuma-se dizer que o Vintage é um dom de Deus com a ajuda dos técnicos. Quanto aos outros, o lote é feito pelos enólogos mas também é feito na vindima. A vinificação pode ser feita com orientações distintas, com maiores ou menores quantidades. Mas o lote deve ser feito por forma a manter a estabilidade qualitativa. A Gran Cruz faz, nas três firmas, 20 milhões de garrafas de tawnies e é preciso saber escolher bem os vinhos, dar-lhes o tratamento adequado e mais tarde fazer os lotes. Fazer lotes de pequeno volume é fácil.
A exigência do enólogo
- Qual a quantidade de vinho do Porto produzida anualmente sob a sua supervisão?
- Cerca de 22 milhões de litros. Mas repare, é tudo um trabalho de equipa. Na Gran Cruz sou director técnico e nas outras firmas sou consultor, mas em qualquer dos casos não trabalho sozinho. Cada qual tem a sua função, todos conhecem os vinhos, fazem as análises, as correcções, conforme as indicações, consoante certos parâmetros que devem ser preservados.
- Mas é um trabalho exigente…
- Esta última vindima percorri 4500 quilómetros, num espaço de três semanas, só na região do Douro. Convidaram-me para orientar uma vindima em seis centros de vinificação – Régua, Lamego, S. João da Pesqueira, Sanfins, Alijó, Pegarinhos e Vila Flor, com um enólogo em cada adega.
- A Gran Cruz compra os vinhos e a Sogevinus tem produção própria, apesar de também adquirir vinhos a outros produtores. Há diferença no que toca ao controlo de qualidade dos vinhos?
- O controlo é idêntico, pois na Gran Cruz temos fornecedores contratados há muitos anos e fazemos o seu acompanhamento e orientação. Não quero dizer que não haja um acompanhamento mais próximo no caso de a firma possuir propriedades, mas esta tem sempre que adquirir vinhos a fornecedores.
- O consumo de vinho do Porto está ainda associado a datas especiais, como aniversários ou festas. Como se pode contrariar esses hábitos?
- São hábitos errados, pois o vinho do Porto tem lugar a qualquer altura, dada a diversidade de categorias. É preciso saber seleccionar o tipo de vinho em função do momento, e mesmo a melhor forma de o servir. Por outro lado, costumo dizer que o vinho roda: o médico, que não cobrou a consulta, foi presenteado com o vinho, e este mais tarde oferece a alguém por qualquer razão, mas o vinho não é aberto. Isto é mau, para as firmas e para o próprio vinho.
Por outro lado, o vinho do Porto não é uma bebida da noite, e fica para trás em relação a outras bebidas, como as bebidas brancas e os «shots», muito mais alcoólicas e prejudiciais à saúde. A idade do consumidor de vinhos do Porto é avançada, e é preciso fazer os jovens regressarem ao vinho do Porto. Talvez as novas categorias, como o Pink, possam ser importantes, mas é preciso fazer um trabalho mais profundo no que toca à promoção e elucidação dos consumidores.
É preciso também apostar na formação dos que trabalham com o vinho, sobretudo na hotelaria. Os escanções tem um papel muito especial nesse sentido. Vemos que restaurantes e hotéis têm, na sua maioria, garrafas de bebidas brancas e, ao lado, quase escondida, uma garrafa de vinho do Porto. É preciso contrariar a ideia de que o vinho do Porto só se abre na Páscoa ou pelo Natal.
- Tem ideia de quantos prémios já arrecadou ao longo do seu percurso como enólogo?
- Na Gran Cruz só participamos em concursos há cerca de seis anos. Não havia esse hábito no sector até tempos recentes, mas creio que é importante, até para testarmos as nossas capacidades. Um enólogo deve ser ambicioso, deve querer fazer mais e melhor. Até porque os vinhos nunca são semelhantes, mas o técnico tem a responsabilidade de fazer o melhor possível com as colheitas que tem. Na Gran Cruz foram arrecadados 240 prémios em seis anos, inclusivé o Tawny Cruz, do qual são feitas sete milhões de garrafas, foi galardoado com ouro. No conjunto, creio que serão cinco ou seis centenas de prémios que ganhei, em todo o mundo. Mas é tudo um trabalho de equipa. Aliás, também fiz parte do júri de alguns concursos, como o Cidade do Porto e do Wine Masters Challenge, onde fui convidado para ser presidente do júri em 2007.
- Que região gostaria que o Douro pudesse vir a ser no futuro?
- A região está em franco progresso e dentro de poucos anos, com os investimentos que estão a ser realizados nas vinhas, o futuro do sector do vinho do Porto está assegurado, e os vinhos de mesa podem ir mais além. Muitas casas estão a apostar neste segmento, com firmas que vêm de fora a investir na região. São criadas novas formas de vinificação, novos sistemas de condução. Por isso a qualidade será cada vez melhor. O Douro tem capacidade para produzir melhores vinhos e de competir com outros vinhos de todo o mundo. Fico contente porque o Douro vai ser melhor do que já é. •
Uma herança de vinhos verdes
- Como se o trabalho não lhe chegasse, tem ainda a sua propriedade, na região dos vinhos verdes, mais propriamente em Gondomar.
- É uma propriedade familiar com quatro hectares de vinha que vai na terceira geração, já que eu próprio descendo de viticultores. Está plantada com as castas recomendadas, como o Loureiro, Trajadura e um pouco de Azal, para além de um pequeno pomar. A plantação foi feita por mim, reconvertendo as ramadas, do tempo do meu pai, em cordão simples e, em alguns casos, cordão duplo. Resolvi ainda mecanizar a vinha e fazer uma adega equipada. É um hobby que tenho, tento fazer algo com qualidade, pois se não fosse assim a propriedade teria outra estrutura.- Mas não lançou uma marca…
- Não, pois a quinta não produz a quantidade suficiente para tal, já que saem cerca de 30 mil litros por ano. Por outro lado, teria que fazer um grande investimento. Tinha também que optar entre o vinho do Porto e aquela propriedade, pois não teria tempo para tudo. O vinho verde também não é tão rentável. Desta forma, vendo a uva a um vinificador.- Sendo filho de viticultores, há alguém na família disposto a continuar a tradição?
- Tenho uma filha, professora licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, que está a tirar um mestrado, e um filho que está no 12.º ano. Ficará como hobby para eles. Tenho pena, pois é uma propriedade muito antiga, mas ao mesmo tempo tenho que concordar que o vinho verde não é rentável na minha zona e há muitas vinhas abandonadas e cortadas.
Por isso a cultura deverá ser alterada no futuro, mas enquanto eu puder, vai-se manter. •
O futuro da região
- Conhece o sector como poucos e acompanhou as evoluções da região, incluindo a recente explosão dos vinhos DOC. Foram também lançados novos tipos de vinho do Porto. Acredita que o Douro tem espaço, a longo prazo, para estes dois tipos de vinho?
- Quando comecei a trabalhar vendia-se muito vinho a granel, sendo que o Instituto não tinha grande controlo sobre esses vinhos no exterior, onde eram engarrafados. À época, o actual proprietário da Gran Cruz, Jean Caiard, comprava aqui os vinhos e engarrafava-os em Paris. Depois teve a feliz ideia de comprar uma firma antiga, a Ramos Assunção, que se converteu em Gran Cruz, acabando com o granel. Desta forma, o consumidor tem total garantia do produto que compra e este é feito em Portugal. A Gran Cruz foi pioneira nesta política, que teve bons resultados e situação.
No caso do Douro, não havia vinhos de mesa, que eram apenas para «a destilação e para a beberagem do pessoal», como se dizia. Na década de 90 tivémos uma explosão de marcas, algumas com muito sucesso e vinhos extraordinários, até porque a região, com as suas características e castas, presta-se a esta produção. Há marcas, com pequenos volumes, que passam por dificuldades, mas a região está a ser cobiçada por firmas e enólogos de outras regiões para aí fazerem vinhos – o exemplo mais recente veio do Esporão, que comprou a Quinta dos Murças, entre outros.- Não teme que, por exemplo, ao se fazerem vinhos DOC, está-se a retirar matéria-prima para a produção de vinhos do Porto?
- Não, porque o vinho do Porto é muito valorizado pelos exportadores. Os produtores e viticultores sabem que vão vender vinhos do Porto a 1000 ou 1200 euros a pipa e os vinhos de mesa a 200 ou 300 euros. Há espaço para ambas as produções.
O importante é que se faça um bom trabalho na vinha, com castas adequadas, e nas vinificações. Veja-se o ano passado, que foi um ano regular, e tivémos vinhos espectaculares.- Há vozes que pedem reformas no Douro, casos do sistema de benefício ou da Lei do Terço. Que lhe parece?
- Estão a ser estudadas formas de acabar com os quantitativos do benefício, cabendo aos produtores e adegas fazerem vinhos da melhor qualidade possível, para que os exportadores possam também adquirir vinhos de qualidade. É ao Instituto que cabe fazer o controlo de qualidade dos vinhos, desde o princípio até ao consumidor; tanto tira amostras nas linhas de engarrafamento como vai aos pontos de venda, seja em Portugal, seja no exterior, e compara com as amostras registadas no Instituto. Se não estiver conforme, pode cancelar a venda desses vinhos. Creio que isso é que é importante, que seja feito um controlo cada vez mais apertado sobre a qualidade dos vinhos, preservando uma estabilização das características organolépticas e analíticas dos vinhos. •
